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Uma vez choquei alguns amigos quando lhes disse que não perspectivava a vida como valor universalmente bom, isto é, defensável sobre tudo, sempre benéfico, até às últimas instâncias. Tenho um problema com valores universais. Geralmente, é uma questão de tempo, ou do espaço dos acontecimentos, até o tiro lhes sair pela culatra com a abertura de concessões muito necessárias.

Não queria eu dizer, na altura, claro, que o melhor seria desligar isto tudo da tomada, ou que a vida mais bem servida estaria se aniquilada à chegada. Nada disso. Queria, sim, dizer que há alturas em que somos capazes de escolher em detrimento da vida, dizer que por vezes encontramos maiores benefícios no seu fim ou na sua ausência do que em si mesma.

E enquanto espécie, já o provámos de inúmeras maneiras. Sabemos escolher abortar, sabemos desejar a eutanásia, temos a capacidade de cometer suicídio. Escolhemos não sofrer em vez da vida. Escolhemos a honra em vez da vida. Escolhemos terminá-la como penitência que nos livre de um erro. E a escolha não é exclusivamente ocidental, nem sequer contemporânea, e não poderá ser apontada, sequer, como apuramento cultural de uma sociedade que, se até hoje tudo fez pela vida, talvez pudesse agora virar-se para a morte.

Em algumas tribos primitivas do Pacífico, os indivíduos, quando desesperados ou tornados fardo para o grupo, atiravam-se ao mar e nadavam perpendicularmente à costa, até não lhes restarem forças para tornar a terra. No Japão, os samurais preferiam cometer o doloroso e agonizante seppuku (hara-kiriapós a vergonha de uma derrota, ou até profilacticamente, para a evitar, e durante a Segunda Guerra Mundial, muitos foram os soldados e civis daquele país que escolheram a morte a viver sob domínio americano. Em alguns grupos islâmicos, sabemo-lo bem, os indivíduos vêm virtude maior na destruição do seu corpo, a seu modo bombástico, do que na sua manutenção.

Nessa descoberta daquilo que devemos ou não decidir enquanto espécie, dos lícitos e dos ilícitos, caímos amiúde na tentação de perguntar: afinal, qual é a opção da Natureza? Se o argumento talvez aparente ser legítimo, ele cria, quanto a mim, alguns problemas que, oportunamente, hão-de enredar lá mais adiante quem preferir esgrimi-lo. Quanto a mim, a querela das ciências é coisa sem sentido, disputa mesquinha ao nível de qualquer agressão entre adeptos de futebol que se tentam convencer uns aos outros de que o clube pelo qual se deve torcer é o deles. Como, afinal, se as Ciências Sociais ou Humanas (ou do espírito; geisteswissenschaften) não fossem naturais, ou como se as Ciências Naturais (naturwissenschaften) mais não fossem também do que construções da sociedade, aplicações do espírito, ou nada tivessem, enfim, a ver com os Homens. Se isto parece óbvio, escusar-me-ei a proferir qualquer palavra sobre a distinção entre Ciências Exactas e Humanas. Serve isto para dizer que tenho dificuldade em debater quando a distinção se trata entre Natureza e Cultura. Como se a Cultura não fosse natural, porque é isso que pretendemos mostrar quando descemos essa estrada escura.

Servimo-nos, então, dos animais, porque deles retemos uma ideia básica, talvez peregrina, de que são puramente movidos por instintos — o primeiro erro, desde logo, é enfiá-los a todos no mesmo saco –, como se lhes escapasse qualquer instância do pensamento, como se fossem desprovidos de consciência ou de bom-senso, ou como se a convivência com aquilo a que convencionámos chamar a nossa Cultura não pudesse ter qualquer influência sobre a sua Natureza.

Não creio que seja necessário seguir por aí para legitimar aquilo que fazem ou podem legalmente fazer os humanos, e não creio sequer que a liberdade máxima para cada Homem, por meio da responsabilização última de cada um, deva beber razão naquilo que acontece ou deixa de acontecer com os animais, mas quem se escudar por detrás de tais argumentos poderá, ao menos, verificar que muitas são as flechas que lhe hão-de trespassar o escudo. Vários são os casos de observação verificada de comportamentos suicidas em espécies tão diferentes como ratos ou leões, quer em casos de doença quer de luto ou de compreensão da sua incapacidade em continuar a contribuir para o grupo. Muitas são também as espécies onde a prática de actos homossexuais é comum, assim como é para várias espécies, de vacas ou macacos ou abelhas, natural a existência de processos democráticos.

Não sei se muito retirará o leitor deste texto que se foi escrevendo por si, no torpor acalorado dos dedos veraneantes que se arrastam, quase mecânicos, sobre o teclado, mas creio que hoje escolhi travar a luta contra essa coisa abstracta dos valores universalmente bons. Todos somos contra eles, em alguma instância, se pensarmos bem nisso. Há momentos em que consideramos a justiça insuficiente e um entrave perante as nossas verdadeiras ambições de castigo. Há ocasiões em que a paz não pode deixar de dar lugar à guerra, e muitas são as ocasiões em que não toleramos bem a liberdade para todos. Há, enfim, isso está bom de ver, momentos em que a vida também se torna nociva.

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Hugo desenho 4sc2Hugo Picado de Almeida

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