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Eles têm muita garra, por vezes alguma técnica, e quase sempre um enorme querer e raça. A resposta à pergunta “por que é que este é o seu jogador preferido?” é, aliás, invariavelmente esta: “porque ele é muito raçudo”.

Assim se faz a apresentação do jogador predilecto do adepto comum: é dos “raçudos”, que não reste nenhuma dúvida, que eles (e elas) gostam mais. Um carrinho, um pé esquerdo ou direito expedito (previsível ou não) e um espírito combativo aliado a umas quantas correrias desenfreadas, são jogadas-tipo capazes de galvanizar e seduzir o clássico adepto de futebol. Ou antes, corrija-se, o clássico adepto de um qualquer clube de futebol.

Já se sabe que o desporto-rei, como qualquer outro (mas talvez um bocadinho mais do que os outros), vive de rasgos. Os milhares de pessoas que se deslocam aos estádios e os milhões que acompanham os jogos pela televisão, fazem-no à espera de uma finta, de um drible, de um último passe ou de um remate de fora da área. Até aí tudo bem.

Mas o adepto de clube, cego de paixão pela cor do seu coração, vive o dia-a-dia da sua equipa de forma eloquente. Mais do que as jogadas, ele gosta de ver dedicação e comprometimento à camisola e ao escudo. E mais do que o jogo colectivo e a mecânica dos onze jogadores em campo, importa ver aqueles que lutam e que correm, os que mostram alegria, tristeza e até sofrimento no relvado.

bfccarlitos2Aqueles que forem mais expressivos e entusiastas, mais facilmente poderão cair no goto destes adeptos. Começando pelos velocistas, vem-me sempre à memória um tal de Carlitos, antigo médio-direito do Benfica. Os encarnados viviam uma fase negra na altura mas contavam com jogadores como Roger, Manuel Fernandes, Miguel ou até Simão Sabrosa. Ainda assim o jogador preferido de uma fervorosa adepta benfiquista (que por acaso é minha mãe) era este prodígio natural de Barcelos. O motivo? Claro está, porque “ele era muito raçudo”. O primeiro ano deste típico raçudo coincidiu com a última época de um dos mais adorados, e aqui com grande justiça, jogadores do Benfica: Karel Poborsky. O avançado checo, que encantou a ala direita do antigo Estádio da Luz durante três épocas e meia, foi um dos mais talentosos futebolistas estrangeiros que passaram por Portugal, mas era sobretudo a sua raça e determinação que encantavam os adeptos encarnados. Aqui, porém, com os números e a magia do seu futebol a justificar tamanha adoração.

De raçudos, carniceiros e caceteiros é também feita a história do FC Porto. Falar de Paulinho Santos, Jorge Costa e Bruno Alves (só para citar alguns), é recordar, e resumir, alguns dos principais valores do jogador-modelo dos azuis e brancos. A impetuosidade e a chamada “entrega ao jogo” destes atletas, tão características no dragão, são por isso muito apreciadas pelo adepto portista, ainda mais se esta aplicação e “agressividade no bom sentido” (seja lá o que isso for), forem demonstradas num jogo contra “os mouros encarnados” de Lisboa. Ainda assim, as cotoveladas e entradas por trás, já se sabe, gozam de outra capacidade interpretativa para os ares lá de cima, pelo que o prejuízo da equipa raramente atinge o limite, sequer, do cartão amarelo.

136147_galeria_sc_braga_v_sporting_liga_zon_sagres_j24_2012_13.jpgOutros há que jogam por outras cores futebolísticas menos privilegiadas. O verde, seja ela escuro ou mais para o claro, como o que agora vai estando ofuscado em Portugal e na Europa, nunca gozou da simpatia dos homens do apito. As entradas e cotoveladas, ainda para mais se forem disparatadas e sem nexo, são sinónimo de banho quente e prematuro. Rinaudo, médio-defensivo idolatrado pelos adeptos do Sporting, é um dos que mais gosta de abusar da sorte neste capítulo. Ao seu futebol anárquico e displicente, sem o mínimo de rigor e equilíbrio que a sua posição em campo a tanto obriga, o argentino adiciona uma generosa dose de combatividade – chamemos-lhe assim-, a que os sportinguistas gostam de chamar, como não poderia deixar de ser, “raça”, “garra” e outras coisas que tais. Está catalogado assim mais um jogador “raçudo”.

Da mesma opinião parece não partilhar o novo treinador dos leões, Leonardo Jardim, que aparenta não apreciar, vá-se lá saber porquê, o péssimo sentido posicional e táctico do “trinco” sul-americano. Ainda que jogadores como Adrien Silva e André Martins pareçam render o dobro com um miúdo como William Carvalho, que resguarda a zona defensiva e os liberta para o tipo de futebol que eles mais gostam de praticar, os tiffosi verde e brancos hão-de jurar amor eterno ao “capitão” Rinaudo. São os seus carrinhos, e a inevitável “raça” posta sobre o relvado, que ficam na retina. O resto pouco importa.

jose_antonio_reyesAssim como o que salta à vista no futebol do extremo espanhol Diego Capel são as suas poderosas arrancadas e cruzamentos venenosos, lançados por um afiado pé esquerdo. Muitas vezes inconsequente, quase sempre com as órbitas apontadas para o relvado, Capel é, e há-de continuar a ser, o jogador mais acarinhado pela massa associativa leonina (e não é por causa dos seus bonitos olhos verdes). A “raça” das suas incursões pelo ataque, passando por um, dois e três adversários-qual Paulo Futre-, é mais do que suficiente para justificar este amor correspondido. O jogador espanhol,  assim como outro andaluz que em tempos foi idolatrado na outra ponta da segunda circular  é um daqueles extremos  que tanto agradam aos amantes dos raçudos. Diego Capel, em Alvalade, e José Antonio Reyes, antes na Luz, sobressaem essencialmente com espaço, sem oposição, protagonizando cavalgadas e arrancadas e cruzamentos de encher o olho. O pior mesmo é voltar depois para trás e compensar as subidas dos laterais, ou até mesmo apoiá-los no processo defensivo. Mas isso, uma vez mais, torna-se  irrelevante aos olhos do raçudo-lover.

O futebol está cheio de jogadores talentosos e preponderantes para o tipo de jogo das suas equipas. Jogadores completos, competentes, e que cumprem com rigor TODAS as tarefas que as respectivas posições em campo exigem. A verdade, nua e crua, é que não é deles que eles e elas gostam mais. Por muito inteligentes e úteis que sejam, hão-de ser sempre os “raçudos” a gozar da sorte ao jogo…e ao amor (dos adeptos, claro).

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???????????????????????????????André Cunha Oliveira

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