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A política é solo onde floresce a mentira e onde grassa um salva-te como puderes que é como sésamo para a ocorrência dos acontecimentos mais esdrúxulos e das mais propositadas coincidências extravagantes, normalmente sob a forma de nomeações e convites refinadamente errados, armadilhados à partida na estupidez amblíope daqueles que para chegaram ao topo da pirâmide prometeram favores a cada degrau. A frequência com que recentemente tais nomeações têm acontecido não pode senão provar algo que já faz tempo vínhamos a dizer: muito poucos são os indivíduos sérios que hoje se interessam pela política. Porque a política, em Portugal, é também esse sítio onde a credibilidade vai para morrer.

Mais do que acontece à Alice do outro lado do espelho, onde nada é aquilo que se espera, em Portugal tudo pode ser uma coisa e o seu contrário, e tudo isso, como último tiro certeiro que afunda o porta-aviões, não é senão o esperado. O swap, entre nós,  não é apenas financeiro, mas sobretudo político. Maria Luís Albuquerque fez o swap de Secretária de Estado do Tesouro para Ministra das Finanças, e concomitantemente fez também o swap mental, ético: deixou de saber destes lesivos contratos, deixou de dizer a verdade, perdeu a credibilidade e a possibilidade de ser Governo, mas porque tudo é assim tão simples, eis que consegue novo swap, o racional, e desafiando o senso-comum e qualquer lógica descomprometida, mesmo à vista de todos, lá se mantém como se nada fosse. Porque em Portugal é sempre também assim: os cães ladram, a caravana passa, e nós continuamos a repetir a proverbial sabedoria sem que nada, de facto, se passe. Tudo swapa, mas nada muda.

Mas os swaps swapam sempre. Joaquim Pais Jorge, Secretário de Estado do Tesouro que fez o swap com Maria Luís Albuquerque — ela que o nomeou uma vez apontada Ministra das Finanças –, tinha já feito o swap entre altos cargos de diferentes empresas, e seguiu a dica da sua mestre: Joaquim Pais Jorge, Director do Citigroup em Portugal desde 1999 e Senior Credit Officer desde 2005, meteu os pés pelas mãos quando alguém notou que o Secretário de Estado do Tesouro hoje forçado a demitir-se tinha chefiado a equipa do Citigroup que procurou contratar com o Governo de José Sócrates swaps destinados a ocultar a dívida pública e, assim, a artificialmente reduzir o défice português. Mas o swap é motor de movimento perpétuo, imparável, e força centrífuga que tudo coloca em sua órbita. Os swaps não swapam nem indiscriminadamente nem por mero acaso: antes de fazer o swap para Secretária de Estado do Tesouro, Maria Luís Albuquerque coordenou o Núcleo de Emissões e Mercados do Instituto de Gestão da Tesouraria e do Crédito Público (IGCP), oportunamente a instituição responsável pelo acompanhamento e supervisão deste género de operações financeiras, durante a negociação dos swaps por parte da equipa de Joaquim Pais Jorge. Ninguém swapa por coincidência; isso é o swing.

Mas afinal, para quê o espanto, caro leitor? Tudo e todos neste Governo swapam sem que nada swape verdadeiramente. Swapa-se o Portas dos Negócios Estrangeiros para Vice-Primeiro-Ministro, e nada muda realmente. Swapa-se o Gaspar pela Maria Albuquerque e a austeridade não se detém — os mercados, de resto, não o permitiriam de outro modo. Swapa-se o Álvaro, swapam-se os secretários. Pode até swapar-se o Passos pelo Seguro, o Cavaco e o restante cortejo, e a sensação prevalecente é a de que muito pouco mudará fora dos telejornais, nas ruas e nas casas de cada um dos portugueses que o que desejaria seria swapar todo o ensemble desgovernativo, degenerativo. Maria Luís Albuquerque, por exemplo, foi um dia professora de Pedro Passos Coelho; hoje é sua discípula. Nos swaps, quem perde é sempre o outro. Entre nós, tudo fica em casa. Esta é boa imagem da forma como a alta política em Portugal vai funcionando: a eito, por amizades, por fortuiticidades, por coincidências espácio-temporais na definição de tonalidades políticas, por tropeções entre os que dão notas e aqueles que as recebem.

Mas tudo isso importa pouco, porque a qualquer momento tudo swapa, tudo muda. O que o vento levou, o vento pode trazer. Se não trouxer, lá estará um swap pronto a ser activado e a reduzir o prejuízo deste que apostou. Quem o há-de pagar serão os mesmos de sempre; aqueles que não swapam.

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Hugo desenho 4sc2Hugo Picado de Almeida

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