Home

FC PORTO - BENFICA 29 JORNADA LIGA  2012/13Agora que a nova época futebolística rebate à porta, efervescendo ânsias e rejuvenescendo promessas de glória, o fim nunca esteve tão engolido pelo princípio: envolto na esperança da comoção do parto, o Benfica nasce para a vindoura temporada com um ambulante prenúncio de morte que, como um perfume de augúrio fatal, parece acompanhar a sina da equipa capitaneada por Jorge Jesus. O bizarro apogeu da derrota com que o Benfica se flagelou em Maio, ajoelhando-se repetidamente perante o infortúnio da lógica, impregnou a equipa e os adeptos de uma fragrância fantasmática que persegue a emotividade do futebol encarnado – existe, na reserva do inconsciente, uma perdição inultrapassável que viaja com aqueles que se prostraram no chão poucos meses atrás, consumidos pelo lume dos minutos entardecidos. Nem uma taça para contar outra história que não a tão-só, devastadora e árida derrota, que terraplenou a arquitectura ofensiva de Jesus e de um Benfica de futebol sensual dos golos para remembrança eterna. No fundo do poço do orgulho benfiquista jaz a iminência do dissabor, a relutância da decisão incerta, a adrenalina cautelosa do medo e a descrença na boa ventura. Se a equipa se feriu aquando das três mortes sucessivas, ainda mais intensamente morreu, aos poucos, por cada jogada esfuziante, golo brilhante ou vitória briosa que lhe ressurgiu na memória, ao tomar notícia do desastre de Maio. Tudo perdido no oblívio mar do sofrimento apaixonado. O relvado, as redes, os postes e a cal das áreas que o Benfica pisa, abana, ricocheteia e perpassa, têm memória de elefante: não se esquecem do desaire, da dor, da hipótese, do cenário, das baixas, do deserto final. Os próprios adeptos adivinham. O fim está para nascer.

622_8404ccad-67a4-3bf6-a476-292e816d5596

Pura desilusão

Todos pressentem – uns afligem-se outros desejam – que a presença das onze almas encarnadas dentro de campo será um azar que culminará com um desfecho logo a abrir, seja com um empate sensaborão ou com uma derrota escrutinada até ao osso da exaustão: o Benfica perdeu tanto em Maio que provavelmente essa dor será criancice quando comparada com a cratera pungente e visceral que foram as três mortes consecutivas sem taça. Isso, a par do fardo pernoitado da insegurança que espreita por cima do ombro, é o grande problema do Benfica – o facto de já ter experienciado o Inferno mais infernal que o Inferno pode a alguém reservar dentro de umas quatro linhas. Que há a perder agora? Um jogo, dois, um treinador, outro campeonato? Sim. O problema do Benfica foi ter perdido tudo e de adiante não poder perder nada. O problema do Benfica é estar cabisbaixo na alma, ressentido com a bola, sôfrego de aprovação mas tão dormente e macerado no espírito – e nas botas – que dificilmente conseguirá sofrer mais que aquilo que sofreu há tão pouco. Os adeptos reflectem na perfeição o temor de quem deseja o embate para se exorcizar à espera dos adiamentos: pediu-se a cabeça de Jesus no fim da época, o mesmo Jesus do futebol artístico. Quis-se, de alguma forma, expiar a memória da dor. Hoje, a escassos dias da nova saga, o clube carrega consigo, ainda, essa mesma dor aziaga que espreme dos movimentos em campo o sumo da aventura de outros tempos. Este Benfica secou, amargurado pela aridez da derrota com que foi espancado. Jesus sabe disso, pois também ele secou. Será preciso um exército de jogos roubados à tristeza para alegrar este Benfica.

No entanto, tudo se esgrime na mente. Nada se efectivou ainda, excepto o que se perdeu e nunca se poderá recuperar: as taças idas. No horizonte uma nova temporada se avizinha e tudo está por jogar, por escrever, por realizar; apesar disto, o peso psicossomático do drama benfiquista empurra o clube para as gravilhas da desgraça – os cânticos por um ausente e indisciplinado Cardozo mostraram bem o prazer masoquista com que os adeptos encarnados se chibataram perante a descrença à nascença deste novo desafio 2013/2014. A equipa, desprovida do paraguaio, era saudada com o hino ao ausente perturbador do balneário enquanto, atarantada, falhava golos e perdia o controlo do resultado: um incentivo retorcido, irónico e infantil dos adeptos presentes no estádio naquele dia. Por certo, também os fãs da águia perderam a alma e o fervor, algures nas batalhas perdidas de Maio. A exibição do Porto na Supertaça, frente a um Vitória de Guimarães alienado, entreabriu ainda mais a porta do desassossego: parece perdido antes do começo. Também porque muitas das fraquezas tácticas do Benfica não se vislumbram no rival:

artur

Artur suscita dúvidas. Foto: Miguel Barreira

Artur: A baliza do Benfica está em sobressalto. Apesar do bom historial de Artur em frente das redes encarnadas, o passado recente veio colocar sérias dúvidas quanto à sua concentração e regularidade. Os frangos acumularam-se, com ridículas falhas contra o Porto na primeira ronda e na segunda, contra o Estoril num jogo decisivo e, para não mencionar mais, na final da Taça. Com Oblak relegado por Jesus, o clube procura um novo guarda-redes, o que claramente coloca um ponto de interrogação na capacidade de Artur.

cort

Cortez tarda em afinar. Foto: Virgílio Rodrigues, Global Imagens

Laterais: Aqui reside um dos mais graves problemas do Benfica, incompreensivelmente relegado para segundo plano pela direcção técnica do clube. Tanto na lateral direita como na esquerda, o Benfica carece de jogadores dinâmicos nas tarefas defensivas, que saibam mais que subir no terreno desenfreadamente, deixando clareiras para Matic dobrar em apuros. Maxi sobe demais e defende de forma medíocre, enquanto que Melgarejo não tem, simplesmente, rotina consolidada de lateral. Cortez é mais do mesmo: incerto, desleixado a defender e impreparado para dar segurança ao flanco.

matic

E se Matic sair? Foto: Gustavo Bom/Global Imagens

Meio campo: No meio campo está o segredo da derrota. Um clube que luta em várias frentes, que se desgasta e que necessita, devido ao seu pendor atacante, de um meio campo sólido que ampare os ímpetos dos extremos e da dupla de avançados que empenha, não pode nunca enfrentar uma época com Matic e Enzo (um extremo adaptado a centrocampista) perdidos no meio de quatro defesas e quatro atacantes. O 4-2-4 suicida que Jesus elaborou no ano passado foi a chave lógica do infortúnio: não há equipa que se sustente apenas com belo e imparável futebol de ataque. O Benfica da época transacta, ou submetia o adversário com o seu futebol espampanante, ou era submetido, pelos buracos que deixava nas suas costas e pelas insuficiências da sua táctica desequilibrada. Nesta pré-época, o planeamento parece ter mudado mas são ainda gritantes as carências posicionais – Matic não tem substituto na posição de trinco e Enzo apenas conta com Amorim para o secundar nas tarefas exigentes de um «box-to-box», onde o português nem sequer se sente muito à vontade. Fará Jesus do seu meio campo um triângulo mais seguro e manipulador, completado com Djuricic, o vértice criativo que libertará Matic e Enzo para tarefas menos arriscadas, onde até os laterais beneficiarão com as suas dobras mais atentas?

car

Fica ou vai? Foto: Hugo Correia/Reuters

Ataque: A novela do paraguaio arrasta-se e enreda-se a um nível ininteligível, abrindo brechas na organização administrativa do clube e prolongando incertezas que colocam em xeque o treinador e a sua autoridade. A saída de Cardozo poderá ser o desenrolar de uma amarra que deixará o Benfica mais sólido no centro do terreno, jogando apenas com um avançado (completo, como se exige a um avançado que jogue sozinho) e permitindo deslocar uma peça para o meio campo, equilibrando a equipa. Lima é a opção mais óbvia, já que Rodrigo e Markovic actuam melhor como noves. Ainda assim, existe uma certa indefinição táctica que necessita de ser aprendida e treinada para que o ataque (o avançado, secundado por Gaitán e Salvio, à partida) possa resultar de modo eficaz e mecânico.

Tacticamente inferior, o Benfica precisa de se convalescer e reerguer para ombrear com o consolidado rival azul e branco. No espírito e na disposição em campo, na alma dorida e no golo encorajador. Mas essa vitória interior requer uma imensidão de vitórias arrancadas à memória esquartejada do sonho, que à beira de se concretizar, se esfumou em guinadas de sangue, suor e lágrimas, e uma mão cheia de nadas. Mas há quem, ao ver a época vindoura atracar, saiba que o fim está prestes a nascer. Que o medo do fim de uma era (a de Jesus) possa ser, também, o exorcismo do horripilante mês de Maio. A nova época atraca, e eu, ansioso de descrença, prevejo que 2013/2014 chegará, no seu fim, a bom Porto…

GOSTOU DESTE ARTIGO? ENTÃO ENTRE EM https://www.facebook.com/palavrasaoposte, CLIQUE ‘GOSTO’ E ACOMPANHE OS ARTIGOS DIÁRIOS DO PALAVRAS AO POSTE!

Bruno Cardoso desenhoBruno Falcão Cardoso

* O autor opta por escrever em desacordo com o Novo Acordo Ortográfico e em respeito para com a Língua Portuguesa.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s