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O tempo, é sabido, não passa da mesma forma para todos. Por exemplo, dois anos de trabalho pouco ou nada valem para um comum funcionário; já para um deputado, e nem falemos de um Ministro, dois anos recheiam-se de proveitosos prémios e bonificações e reformas adocicadas – que digo eu?; reformas diabéticas. Mas é verão e o Sol doura-nos as costas, pelo que deixemos a política para os que permanecem nas redacções atrás dos pivots de televisão.

Caro leitor, aqui prometo que não lhe estragarei o dia de praia, depositando-lhe aos pés refastelados na areia, entre o açúcar de uma bola de Berlim e as gotas pingadas de uma refrescante mini, um político em calções de banho.

Tornemos ao tempo, não o atmosférico mas o outro. O tempo não passa por todos de acordo com o mesmo molde, pois que o tempo é coisa que não existe. Na Natureza há rotinas, existe a circularidade ritual da natureza, os ciclos em que vida e morte, perda e proveito, colheita e sementeira, incêndio e renascimento se enovelam, substituindo-se uns aos outros num rolar permanente, imparável. Para a Natureza, uns morrem e outros nascem; dá-lhe igual. Nós somos lineares. Cada um de nós nasce e, um dia, acaba por vestir o paletó de madeira, ou por ir comer o capim pela raiz – detenho-me aqui com os dentes arreganhados, lutando contra mim mesmo, pois que este género de metáforas é coisa que me atrai. É difícil, para quem é mortal, ver o tempo de modo não linear. O tempo dos Homens, como o perspectivamos hoje, é herança da História e dos registos escritos. Como nos ensinou o filósofo Vilém Flusser, a escrita, que nos deu a História, deu-nos também a linearidade do tempo, a noção de que a vida é como o texto: corre sempre na mesma direcção, imparável, irrepetível. A forma como encaramos as diferentes fases da nossa vida, com os seus diferentes considerandos e objectivos, é boa prova disso.

Não deixa, portanto, de ser curioso que os nossos relógios, esses em quem confiamos para marcar o tempo que a Natureza desconhece, o tempo linear pelo qual organizamos as nossas vidas, sejam sempre circulares, de funcionamento cíclico no girar dos ponteiros, como a Natureza que eles desconhecem e ante a qual pretendem distanciar-se. Nietzsche teria razão ao divisar o conceito de eterno retorno, segundo o qual a realidade, única mas de faces complementares, não teria opção senão repetir-se nos seus acontecimentos, eternamente. Mas é preciso não cair na tentação de ver neste retorno a cíclica repetição da Natureza. Para os Homens, o retorno é de outro género, e estará sobretudo inscrito na teimosa permanência necessária que faz da nossa espécie sobrevivente obstinada e bem sucedida num mundo onde coisas tendem a extinguir-se. É preciso produzir, produzir tudo. O nosso ser é, talvez, indissociável do nosso ter. Seremos aquilo que fizermos, dizem-nos, e talvez um dia, quando já não andarmos por aí, os prédios e os objectos, e sobretudo o lixo e o desperdício, na cidade ou nas praias, sejam a prova maior da nossa anterior existência, das nossas passagens, de onde já não estamos.

Mas não deixe o leitor que este meu artigo, próprio de quem esta semana se atrasou na decisão do tema a abordar, acabe por recordá-lo de que as férias têm um fim e de que o regresso ao trabalho está aí ao virar do mês. Nietzsche tinha razão, mas Flusser também: perspectivamos o tempo e a vida de forma linear. Pode até ser que tenha de voltar ao trabalho proximamente, mas o que está adiante é sempre novo, é sempre diferente. De facto, nada se repete.

Hugo desenho 4sc2Hugo Picado de Almeida

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