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Depois de dois anos e meio tormentosos, de 30 meses de depressão e enfraquecimento económico, eis que Portugal volta a crescer. Surpreendidos perante tão inusitada notícia, os portugueses, os comentadores, os economistas e até os próprios políticos procuraram perceber exactamente o que é que isto significava. Porque o país continua em crise (e seria impossível dela sair de um dia para o outro), e porque não são três meses positivos no meio de um ciclo consecutivo  de resultados negativos que vão inverter esta tendência.

Nos partidos, da esquerda à direita, da oposição ao arco da governação, também nenhum pareceu saber muito bem o que dizer em resposta a estes dados económicos animadores. Se uns falam em “contentamento descontente”, face à continuada contracção do PIB português por comparação com o ano anterior, outros preferem sublinhar a evolução da economia e da produção de riqueza ao longo do presente ano. São os dois lados da moeda, ou as diferentes percepções do estado do copo, que para uns continua meio vazio, e para outros começa a estar meio cheio.

Receoso e consciente em relação ao que ainda está para vir até ao final do ano, com o fecho do orçamento para 2014 e as exigências da Troika de novos cortes na Administração Pública, o governo preferiu ser parco e comedido nas palavras, utilizando até à exaustão a palavra “prudência” nos discursos de reacção ao inédito crescimento económico.

Por outro lado, se há “alguém” que sabe muito bem como reagir a boas notícias, esse alguém é a Troika. Se a esquerda teve dúvidas em pôr em causa números que, apesar de tudo, não deixam mentir , e se a direita chegou a hesitar entre a euforia e o comedimento, para a Troika isso nunca foi sequer uma preocupação. Até porque a Troika não dialoga, impõe. Assim, cresça Portugal 1,1% ou 2,2%, a austeridade é para manter. Despedimentos, aumento da carga horária semanal e cortes nas pensões e reformas são medidas que nenhuma “boa nova” poderá fazer cair.

Aliás, é expectável  que a austeridade seja moda para continuar em Portugal para lá da recessão e da ocupação “FMI-BCE-UE”. Quando (se) o país estiver em pleno “boom económico”, com a economia e o PIB a crescerem sem parar, a Troika, que daqui não quererá arredar pé, cá estará para estragar a festa, desligar a música e apagar os foguetes.

Enquanto o crescimento real não chega, e o que subsiste é apenas sustentado por um abrandamento da curva descendente dos principais índices económicos, bem como do aumento  drástico das exportações, a verdade é que o único sinal de vida dado pela economia portuguesa nos últimos anos é registado num período em que Passos Coelho e a sua equipa estiveram  mais entretidos com as birras e os amuos dos seus membros mais mal comportados do que com a sua obstinada missão de cortar. Ao mesmo tempo que Paulo Portas punha o país a discutir a irrevogabilidade do seu “irrevogável”, e que Cavaco Silva, qual autor de telenovelas, procurava escrever o final mais imprevisível do último episódio da crise governativa, os portugueses foram assobiando para o lado e desfrutando do sol e do calor, bem como da ausência de comunicados (cortes) de Passos Coelho nas últimas semanas. E que bem que fizeram (e fazem).

 O silêncio do governo, claro, coincide igualmente com o período de campanha em vésperas de eleições autárquicas, e o crescimento do PIB no segundo trimestre do ano, nem de propósito, não poderia vir em melhor altura.

Assim, acabem-se as eleições e o Verão, despeçam-se os portugueses dos turistas e emigrantes que inundaram o país e cessem-se os contratos de trabalho temporário que ajudaram à queda do desemprego: Inverno é sinal de escuridão, frio é sinal de regresso aos cortes. A tal “prudência” evocada pelo executivo é tão clara como a água – uma manobra munida de calculismo que mais não é do que uma jogada de antecipação dessa mesma austeridade que também há-de regressar de férias.

Que é como quem diz, “nós tínhamos alertado para a fragilidade da economia, para o seu crescimento ainda muito ténue, e como tal estes cortes são absolutamente imprescindíveis para a consolidação das contas públicas” – sai uma aposta múltipla para este discurso lá para meados de Novembro, Dezembro.

É por isso este o ponto da discussão à volta do crescimento do PIB português. Sim, crescemos, e isso, por si só, é positivo. Desvalorizá-lo é tão ridículo quanto a conversa interesseira e chico-espertista da prudência e da moderação. Mas a pergunta impõe-se. “Sim, crescemos. E?…”

Importa realmente perceber que Passos Coelho não abandonará a austeridade nos próximos tempos, nem deixará de aplicar os cortes já pensados com a Troika neste e no próximo ano. E isso é mais do que suficiente para acreditar que o regresso da receita da catástrofe económica em que o país mergulhou, fará deste crescimento um fenómeno paranormal que tão cedo não se repetirá. E assim a economia voltará a tropeçar para aquele que é já o seu estado natural, o de recessão. Não que não devamos ficar contentes pela felicidade dos outros, mas e a nossa? Os reformados, por exemplo, que deixem de ser egoístas e concentrem-se no que é realmente importante para o país: as pensões desceram, mas o PIB cresceu. Façam o favor de se sentirem felizes.

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???????????????????????????????André Cunha Oliveira

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