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“Cristiano Ronaldo em festa no Algarve”. “Turistas fogem dos mosquitos”. “Lutador de Wresting assume ser gay”. “Correm nus para salvar tigres”. “Turistas urinam na rua e agridem militar”. “Ex-namorado já é de novo milionário”. “Mulher conduziu 300 quilómetros a dormir”. “Espanca filha em frente à polícia”. “É moda usar arnês para passear cão”. “Casais que têm sexo com frequência ganham mais”. Poderiam ser cenas de uma qualquer telenovela mexicana de baixa qualidade, mas estes eram na verdade alguns dos títulos das notícias presentes no site do Correio da Manhã no dia de ontem. Tanta futilidade acabou por me servir de inspiração, e aqui estamos nós para falar um pouco de uma enorme tristeza que tanto anima as gentes da nossa nação; é disto que o meu povo gosta.

Para quem não sabe, o Correio da Manhã é o jornal diário mais vendido em território nacional. Segundo dados oficiais, o volume das suas tiragens ascendeu aos 300 mil exemplares só nos primeiros 4 meses de 2013, valor apenas superado pelo periódico semanal gratuito Dica da Semana e pelas revistas de fofoquices Maria e TV 7 Dias. Estes números são desde logo preocupantes por reflectirem as preferências de portugueses que parecem estar cada vez mais interessados na vida dos famosos e menos atentos às questões que realmente interessam, mas nem é isso que mais me incomoda. O que me parece mais problemático é que um órgão de comunicação que se apresenta ao público como sendo de informação generalista na prática não passe de um antro de banalidades sensacionalistas, fúteis e muitas vezes falsas.

Trata-se portanto, se quisermos abreviar, de uma fraude. Quero crer que as pessoas que se dão ao trabalho de comprar um jornal o fazem com o intuito de se manterem informadas, e a verdade é que se optam pelo Correio da Manhã esse propósito acaba por não ser satisfeito. O futebolista que vai à discoteca, o lutador que assume a homossexualidade, as turistas que urinam na rua ou a mulher que, por mais impossível que pareça, consegue conduzir 300 quilómetros em estado de sono profundo são ocorrências cuja divulgação em nada contribui para a consolidação de uma Opinião Pública informada e conhecedora da realidade em que está inserida. Os cidadãos necessitam de saber o que verdadeiramente se passa no país e no mundo, precisam de ter a perfeita noção do ambiente que os rodeia e dos acontecimentos que influenciam as suas vidas para agirem em conformidade com as suas obrigações e cumprirem os seus deveres sociais, e nada disto é adquirido pelo preço que custa o CM.

Burlado num primeiro momento, o leitor do prestigiado matutino vermelho e branco acaba por se deixar seduzir pelos conteúdos nele apresentados, e talvez até o volte a comprar no dia seguinte. Nessa altura já saberá o que vai encontrar e é exactamente isso que o atrai, contribuindo para o seu  aumento de vendas e consequente extermínio gradual dos poucos jornais portugueses que ainda merecem o estatuto de quality papers. Aos poucos, a tendência vai-se generalizando e chegará o momento em que esta tipologia de pseudo-informação será a única disponibilizada em massa para o consumo do público, para prejuízo de todos nós.

O mal não está portanto apenas na falta de ética do Correio da Manhã, mas também na conduta dos próprios indivíduos que alimentam esse sistema. Envergarmos por um caminho de auto-desresponsabilização não é o caminho certo porque a culpa reside em cada um de nós, mas a transparência e a honestidade devem ser valores fundamentais no trilhar do caminho rumo ao desenvolvimento social. É por isso que as revistas de coscuvilhices não têm problemas em assumir tal estatuto, e é pelo mesmo motivo que o Correio da Manhã, se estiver decidido em enveredar por uma linha editorial semelhante a publicações como a Maria ou a TV 7 Dias, deveria ter a sensatez de assumir tal posicionamento, alterar de vez o seu formato e parar de vender gato por lebre ao veicular uma informação que apenas entretém e em nada informa.

É urgente deslocalizar o jornalismo para órgãos de comunicação social que tenham a consciência da importante função social que desempenham e que zelem pelo seu cumprimento efectivo, para bem da Democracia, da verdade e da manutenção da liberdade que o ser humano tanto preza. E esta mudança tem que ser promovida, em primeira instância, pelo comportamento de cada um de nós.

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Diogo Taborda  

One thought on “Correio da futilidade

  1. Enquanto não tivermos professores nas escolas capazes de ajudarem os alunos a crescerem por dentro, não passaremos desta apagada e vil tristeza.

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