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Golo de Kelvin: desequilíbrio táctico evidente, algo crónico neste Benfica

Nunca carreguei a cruz com que Jesus irá ser crucificado – sempre emprestei o meu terço às suas limitações tácticas e sempre exasperei a minha novena à sua incongruência intelectual. Ponto final. Dito isto, e ficções cristãs à parte, permanece a minha única, simplória e basilar convicção: sou ateu mas vejo em Jesus um Judas pouco convincente. Jesus tem culpas, tem, e as imputabilidades são-lhe como cicatrizes de guerra depois de investidas enlouquecidas a cavalo de uma loucura ofensiva rumo a um estábulo em chamas: essa foi a metáfora cuspida de um Benfica frenético, avassalador no ataque e amnésico do que das suas costas se retrocedia. Essa é a identidade intrínseca da filosofia preconizada por Jesus: ataque incrementado, extremos irrequietos e ladinos, centrocampistas pendulares e uma defesa organicamente descompensada. Foi assim no título de 2009/2010, com ligeiras homeostases à mistura: a infinita versatilidade de Ramires, o fulgor explosivo de Coentrão e a classe altaneira do pequeno Saviola. Depois, a sede do pecado tornou-se vício, e o Benfica não mais tirou os olhos da baliza adversária. Enquanto isso, golos fustigavam e fustigam ainda, a defesa desequilibrada anexada a um meio campo desfraldado, despovoado e entregue ao pendor impulsivo das ofensivas argentinas. Simplificando: se o ataque não engrena, a defesa sofrerá dentro de instantes.

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Quem o suceder terá o onús de parar um Porto vitorioso

Mas Jesus é isso, gritos e rupturas, o descabelar da irritação, o fervor sanguinário das triangulações e o exaltar da autenticidade impetuosa. Continuo a condená-lo tacticamente pelo pecado central de isolar dois médios numa partitura deserta onde, em cada margem antagónica, quatro jogadores se restam, alinhando a defesa e o ataque sem uma ligação ígnea apropriada: o Benfica continua sem zona central que faça jus à qualidade técnica de Jesus. E é aqui que eu, depois de isentar o treinador amadorense, o culpo sem a mínima reserva – o seu vício táctico-suicída prolonga-se e eu desconfio que será esse o seu álibi para pôr termo à relação com o Benfica: «Não és tu, sou eu…», parece dizer Jesus a todo um universo benfiquista, sedento de rancor por arrotar, como um ardor gástrico que urge expelir, num exorcismo de frustração que aliviará a massa adepta da tragédia de Maio. Será a culpa toda de Jesus? Despedir Jesus será a panaceia mais justa e profiláctica para o desânimo encarnado? Todos acham que sim, eu acho que não. Quem se seguirá, alumiado pela chama benemérita da predestinação? Quem pegará o boi portista pelos cornos e o submeterá com as facilidades inerentes de um general geneticamente apadrinhado pela glória da vitória? Eu não sei. Suporto os erros de Jesus porque gosto do seu anacronismo antropológico, da sua garra futebolística, da sua simplicidade ansiosa e do seu visceral desejo de se sobrepor ao inimigo a todo o instante. É reconfortante vislumbrar o seu ímpeto descomedido, a sua obstinação técnica e a alma colada à exigência do trabalho: gosto, e faz tempo que não via um empenho desses à frente do banco encarnado. Suportei Jesus nas três mortes de Maio, suportá-lo-ei em novo campeonato perdido se assim houver oportunidade. Será a última barreira do meu lógico apoio, logicamente. Mas Jesus parece fazer por tomar para si todas as culpas do fracasso: «Não és tu, sou eu…» diz Jesus a Vieira, aos jogadores, enfim, a todos os benfiquistas.

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Fariña: Aterrou em Lisboa e descolou para o Dubai

Jesus tem culpas, como já aqui escalpelizei. Mas num rol de cúmplices facilmente incriminados, está longe de ser peça isolada do descalabro actual. Vieira tem sido um timoneiro ausente, periclitante na tomada de decisões e opaco no que toca à política de contratações, que tem sido, diga-se, pouco mais que desastrosa: Pizzi vem e vai por seis milhões, Fariña custa os olhos da cara e pisga-se sem fazer escala na Luz, o irmão sérvio do Matic vem e traz o irmão – igualmente sérvio – de Markovic consigo, aos quais se juntam mais uns quantos extremos ao barulho, só para irritar o esquecido Djaló, que figura como quinquagésima escolha para a lateral direita. Não acreditam? Talvez seja culpa do esquecimento: lembram-se do novato Rojas, o paraguaio? Nunca lhe vi sequer a cara, mas sei que paira algures pela Luz. Eles são tantos que eu já perdi a conta: estas são, certamente, negociatas de Vieira, como o caso Roberto atesta sem mácula nem dúvida. A direcção do Benfica tem criado mais-valias suficientes para, com calculismo, renovar os seus activos e ter capacidade negocial para contratar jogadores com créditos firmados, como fez com Salvio ou Garay, mas ultimamente enveredou pela contratação aleatória e avulsa de extremos, sem critério táctico nenhum e sem salvaguardar um meio campo enfraquecido e uma defesa sem laterais à altura: Cortez só pode ser anedota. A um plantel virado do avesso Vieira junta-lhe a desfaçatez insípida com que encara o dever de florescer e integrar jovens portugueses da academia no plantel principal: onde anda Cancelo? E Cavaleiro? E Rosa, o que mereceu para cair irremediavelmente no esquecimento? Não acredito na simplória explicação de que Jesus os negligencia – e se o faz, deveria ser o presidente a impor condições mais benéficas para que a academia veja os seus frutos desabrocharem. É ele que tem o poder de traçar as linhas com que a instituição que comanda se cose ou deixa de cozer. E sejamos francos, este Benfica tem-se cozido em lume brando, e como o meu colega e amigo Joni Francisco disse ontem neste espaço, foi no caldeirão dos Barreiros que a águia foi finalmente cozinhada. Jesus perdeu e tem perdido, mas eu reconheço-lhe o engenho: apesar de discordar da filosofia de jogo, embalo-me com a magia que já vi inculcar no futebol encarnado. Mas o seu domínio necessita de um presidente próximo, que agarre nas rédeas da complementaridade e não fuja às responsabilidades administrativas e estratégicas da equipa. E Vieira tem fugido.

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Cardozo rebelou-se contra o treinador que o consagrou

Todos, sem excepção, têm o ónus da culpa nas suas costas. Dos jogadores ao treinador, deste ao director desportivo, e da Carraça ida ao presidente Vieira. O Benfica tem um plantel desequilibrado e repleto de anomalias tácticas, ainda que esteja polvilhado por talento mágico. Coisas boas acontecem, hinos goleadores e passes de rasgar a respiração, e tudo sob a batuta de Jesus, que faz pouco tempo era um herói e hoje está prestes a ser crucificado não como o seu homónimo ancestral, mas como um manchado Judas que traiu a estética hipnótica do ataque sul-americano, que afinal não carbura com os gritos de um Jesus que faz poucos meses comandava essa mesma ofensiva com laivos de genialidade consensual. A corda, como sempre, partirá do lado simplista, ainda que os erros sistémicos estejam e continuarão a estar por corrigir. Mas Jesus faz por terminar mais cedo a relação com o Benfica, insistindo em erros só seus, perseguindo o azar relapso e enfiando a teoria na ilógica do lapso, onde não há táctica que resista: «Não és tu, sou eu…» diz Jesus enquanto insiste num 4-2-4 suicida, que apesar de brilhar faz perder. Vieira quererá acabar o casamento, mais tarde ou mais cedo, mas Jesus parece antecipar-se à contenda. Os erros tácticos e a conversa da treta são o pretexto teatral, a deixa ideal: «se há alguém que deve ser culpado, serei eu, mais ninguém». Pois caro Jesus, a continuar assim, poucos lembrar-se-ão da tua parcelada culpa. Seguirás sim, o teu caminho, eventualmente, com a responsabilização total do fracasso deste Benfica. Injustamente.

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Bruno Cardoso desenhoBruno Falcão Cardoso

* O autor opta por escrever em desacordo com o Novo Acordo Ortográfico e em respeito para com a Língua Portuguesa.

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