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Ontem, quarta-feira 21 de Agosto, chegou-nos da Síria a notícia de um massacre perpetrado pelo governo de Bashar Al-Assad por meio de armas químicas. Os governos ocidentais e as Nações Unidas desdobraram-se nas habituais condenações palavrosas, algo que fazem, aliás, desde 2012, quando começaram a surgir rumores sobre o teste de armas químicas pelo governo sírio contra as forças rebeldes. De facto, o momento do ataque não foi irreflectido. Um ano antes, a 21 de Agosto de 2012, Barack Obama declarou que o uso ou a movimentação de armas químicas na Síria marcaria o cruzar de um “linha vermelha” que obrigaria os EUA a equacionar a sua intervenção no país. Esta é a resposta em tom de desafio de Assad, alguém que uma e outra vez tem demonstrado total desprezo pelos direitos humanos, pela vida do povo que governa, mas que tem escapado impune enquanto todos desviam o olhar, enquanto todos dão uma no cravo e outra na ferradura sem de facto atingir o que quer que seja por meio das suas palavras vãs e vazias ameaças, e se entretêm a fazer apenas as contas do petróleo.

Porque a matemática que hoje interessa não é senão essa. As contas não são as dos cerca de 90 mil mortos que se estima já causados desde o início da guerra civil no país, e certamente não são também os 1300 mortos resultantes do ataque de ontem, com recurso a gás sarin, na região de Ghutta, nos arredores de Damasco. A equação que Obama anunciou em 2012 poderá permanecer com um resultado incógnito por força das mesmas circunstâncias que têm permitido que sucessivos crimes contra a humanidade sejam cometidos naquele país desde 2011.

O que os acontecimentos de ontem trazem de novo são as imagens. São as imagens ora dos corpos, aparentemente incólumes, mas que sufocam, ora dos corpos já serenos, sem feridas nem sangue, mas mortos ainda assim. Não acredito que uma imagem valha mais do que mil palavras; até porque, como o diz Walter Ong, se assim fosse, não seria precisa uma frase para o afirmar, mas há um inabalável poder na visão de crianças e adultos, homens e mulheres, alinhados, inertes, envoltos em plástico branco atado nas extremidades, com um número chapado na testa.

Creio, porém, que a imagem não foi tudo o que nos assombrou ontem. O dia 21 de Agosto de 2013 ficar-nos-á mais pela noção de que um novo estado de coisas foi alcançado. Não que tenha sido o primeiro ataque químico, mas por ser um ataque perpetrado por um governo numa época em que, Guerra Fria generalizada, os armamentos químicos e nucleares atestam o poder das nações, mas tacitamente se espera acordo sobre a sua não-utilização. Assad deu uma chapada de realismo ao mundo, obrigando-o a abandonar os onirismos que se vão mantendo na calmaria do quotidiano, e mostra que, como afinal sempre soubemos, há grande incoerência, e pitada de loucura, nas posições que as grandes potências tomam sobre os armamentos que possuem e decidem possuir.

Um pouco como das centrais nucleares, enormes edifícios serenos e contidos, como monumentos de uma época, dos quais Baudrillard dizia que o perigo não é tanto a sua explosão mas sobretudo o “verniz técnico”, os modelos de controlo e segurança que dela irradiam, das paredes de betão ao arame farpado, aos postos de controlo nas entradas, às câmaras de vigilância e às áreas de protecção do complexo, aos procedimentos de segurança, etc. Assim é com a existência das armas nucleares e químicas fechadas a sete chaves na escuridão e secretismo dos seus silos. Mas como acontece com as centrais, existe a promessa velada da sua explosão, a latência do seu uso.

O meio é a mensagem, e ainda que tentem convencer-nos do contrário, as armas destinam-se a matar e a destruir. Mais tarde ou mais cedo. De uma forma ou de outra.

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Hugo desenho 4sc2Hugo Picado de Almeida

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