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Aqui há uns tempos recebi um convite para um casamento, de uma prima da minha crida. Recebemos com entusiasmo a ideia, só que a boda era… Na Turquia!

Por essa altura ligava a televisão e só via turcos à batatada com os seus compatriotas da polícia na famosa (depois dos incidentes) praça Taksim. Confesso que fiquei assustado mas na mesma resolvi aceitar o convite, afinal ia haver comida de borla (o meu pai sempre me disse: “comer é na casa dos outros, na nossa é roubar!”), boa música e seria, sempre, uma oportunidade de conhecer uma cidade nova e rever os amigos. Aterrei com a minha crida na cidade euro-asiática e fui logo presentado pelo hospitalidade dos noivos que nos foram receber. Um casal composto por uma lusa-moçambicano-chilena e um turco que se conheceram em Inglaterra e vivem na Alemanha. Nunca mais me queixo da globalização! Não fosse ela, ia passar o resto da minha existência sem comer um kebab a sério e sem contactar com os magníficos pistáchios turcos – Trocava agora mesmo, sem pestanejar, a minha velha colecção do Action Man por uma embalagem daquele salgado dos deuses. Havia lá uma pastelaria excelente, mas nada que se compare com as nossas…

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Através do noivo, um amável e gentil gigante – fervoroso adepto do Fenerbahçe – fiquei a saber várias coisas sobre a cidade e a história de Istambul e da Turquia. Uma das poucas informações que tinha relativamente ao desporto era o famoso fanatismo dos adeptos turcos. O bom gigante saiu do aeroporto e para não defraudar as minhas expectativas deu uma volta maior antes de chegar ao hotel para que conhecêssemos melhor a cidade e…o estádio do Fenerbahçe. As nossas conversas desportivas decorreram sempre no meu terrível inglês (perdão a todos que sofreram para me entender), versaram o Sporting, Bruma (turcos têm muita curiosidade em relação ao jogador), futebol português, turco, desporto no geral e chegaram a uma frase muito curiosa: “Os turcos não gostam de desporto, os turcos gostam é de ser fanáticos!”– Inicialmente soou-me a exagero, mas depois de conversar com pessoas nas ruas e conviver com indivíduos diferentes, em diversos espaços, percebi que dificilmente alguém me faria uma descrição melhor. Uma situação que ilustra bem esta situação foi a minha chegada ao hotel, onde me perguntaram de onde vinha, respondi Portugal e do outro lado ouvi um entusiasmado: “Sporting Lisbon!!”

877x658Esta cena sucedeu-se diversas vezes e quando não ouvia, em primeiro lugar, Sporting Lisbon (o que era raro acontecer) ouvia Quaresma (um ídolo na Turquia), Manuel Fernandes, Braga, FC Porto, Benfica e Bruno Alves – a caminho da idolatria turca. O facto de associarem Portugal imediatamente ao Sporting, que até anda arredado dos grandes palcos, foi uma enorme surpresa que mais tarde se desfez: a maioria dos adeptos com que eu falava eram do Fenerbahçe (eu estava alojado perto de um bairro, na maioria, afecto ao clube canarinho) que não tendo ligação nenhuma ao FC Porto apreciavam o Sporting pelo simples facto de ser o eterno rival do Benfica, o seu ódio de estimação. Para quem não se lembra o Benfica eliminou os turcos nas meias-finais da última edição da Liga Europa. Os poucos adeptos do Galatasaray e Besiktas (ou Beskitas segundo uma amiga minha, supostamente, “fanática” pelo clube) devem ter motivos divergentes para simpatizar com a equipa de Alvalade: os primeiros ostentam também um leão como símbolo e estão na expectativa por Bruma; os segundos, o amor a Quaresma, símbolo da formação leonina. Fora estes dois pressupostos não encontro muitas razões para tanto conhecimento do universo verde e branco.

A primeira vez que senti na pele o fanatismo turco ocorreu quando estagiei na empresa que geria a página pessoal do Facebook dos três grandes. O Benfica preparava- se para defrontar o Trabzonspor, e nos dias que antecederam o confronto cerca de mil e poucos adeptos turcos fizeram gosto à página dos encarnados. O objectivo era simples: achincalhar o clube da Luz e alertar para a premente vitória da equipa de Trabzon, que como sabemos não sei veio a concretizar. Uma táctica que também já tinha afectado o FC Porto.

IMG_8878Vivi outros episódios que retratam fielmente a paixão dos turcos pelo seu clube. No dia que conheci as duas famílias na totalidade, o simpático pai do noivo, ao fim de alguns minutos de conversa já me tinha convidado para o Fenerbahçe-Arsenal (que o Fener, infelizmente, perdeu). Assim que o revi, atarefado a receber os convidados, no dia do casamento, a primeira coisa que me disse foi: “Bruno, nós perdemos hoje 3-2 contra uns tipos que subiram este ano de divisão”. – Este “nós” deu me a percepção de que me tinha tornado um fiel adepto do Fener e deixou-me preocupado com a “nossa” derrota. Uns dias depois, nos ilustres banhos turcos, um amável obeso maneta tentou chegar à fala comigo, em turco – Como todos os seus conterrâneos pensava que eu era um deles. Nada que me surpreendesse. Já tinha sido abordado em turco por diversas pessoas, até uma criança, no aeroporto, tentou chegar à fala comigo, provavelmente, em busca do paizinho perdido. A muito custo consegui manter uma conversação com o camarada dos banhos turcos que a única coisa que deve ter percebido da minha boca foi Sporting e Fenerbahçe. A segunda palavra foi o suficiente para ter um guia, imperceptível, mas atencioso no terceiro andar do hotel. Outra situação curiosa aconteceu no casamento. Um slideshow mostrava fotos do passado dos noivos e os convidados de forma pacata, assistiam. Até que surge uma foto do noivo, em família, em que todos estão equipados com a camisola do seu clube. Foi o estopim para o aplauso e alvoroço geral de um público, até então, bastante silencioso.

Tinha receio das convulsões sociais e do fanatismo turco, mas o que realmente me atemorizava era o excesso de familiares latinos que me acompanhavam no hotel. As conversas amigáveis em modo alto-falante, as gargalhadas à Fafá de Belém, crianças de madrugada a enfardar batatas fritas no jacuzzi, adolescentes a esvaziar diariamente mini-bares, eram coisas a mais para não temer a expulsão. A junção de moçambicanos, portugueses, chilenos, franceses, cubanos, colombianos, italianos e sul-africanos no mesmo espaço não poderia dar boa coisa. Até que surgiu um alemão que, pensei eu, iria organizar aquilo. Puro engano. O pobre germânico não teve pulso para controlar a “Modern Family” e acabou a sua primeira noite em solo turco cercado por 14 latinos aos berros dentro de um táxi de 8 lugares. Uma operação complicada e que contou com a preciosa ajuda de um especialista em segurança que qual cobrador tratou de encher até a exaustão a viatura. O outro especialista do ramo foi o último a entrar, ao fim de extenuantes 15 minutos.

DSC05523Contudo ao ouvir o preço decidiu regatear com o taxista turco: “100 paus (lyras turcas)!? Vamo lá descer!” – mais uma prova de que não há povo mais cigano do que o português… Se bem que o chileno anda lá perto. No bazar vi um turco praticamente em lágrimas depois de fechar negócio com esses candongueiros da América do Sul. O rapaz mesmo em situação de aperto não perdeu a simpatia e lacrimejando assumiu: “Foi um prazer negociar consigo” – Deve ser masoquista. Uma práctica que faz muito sucesso entre taxistas. Eles, assim como 90% dos turcos que residem em Istanbul, não falam, nem percebem, absolutamente nada de inglês. Nunca acertam os caminhos e não têm GPS (ou melhor, têm – estacionam o carro no meio da via e vão perguntar ao sábio vendedor de melões da beira da estrada) o que normalmente indigna os turistas, em especial os latinos, que reclamam e berram mas são sempre contra-atacados com um sorriso ou uma gargalhada. A isto é que eu chamo gostar de sofrer. No fundo também me senti um pouco masoquista, afinal andei demasiadas vezes de táxi e, acreditem, andar de táxi em Istambul é sofrer com o aroma da morte. Em cinco dias aconteceu de tudo: andar à grande na contra-mão; sentir as orelhas a voar com a razia de um camião; estacionar o carro no meio de um estrada cheia de curvas, para pedir informações; transformar uma viagem de 15 minutos, para um jantar, num tour de 45 minutos por um local longínquo, não muito distante da Bulgária. Todas as venturas e desventuras eram iniciadas com um papel com a morada e um abanar de cabeça do taxista confirmando o seu (des)conhecimento do destino. Depois vinha o descalabro total, que só era resolvido, a muito custo, com a intervenção divina do noivo por telemóvel, que lá explicava em turco a direcção final.

IMG_8889O único dia em que o taxista não se enganou foi, felizmente, o do casamento. Pelo simples facto da boda se realizar na sede social do Fenerbahçe! O noivo também tentou convidar o Alex, ex-internacional brasileiro que é um Deus para os adeptos dos canarinhos, mas a noiva já não foi na cantiga. O local do casamento estava, como toda a cidade, rodeado por bandeiras da Turquia (o povo é muito patriótico), do Fenerbahçe e, curiosamente, do Galatasaray. O pai do noivo lá me explicou porquê: “Esse lado é deles. Aqui a rivalidade está em todo o lado!” – Até na casa do próprio senhor, já que a esposa resiste aos seus subornos constantes e apoia incondicionalmente o seu Gala em detrimento do Fener familiar. Uma família, no geral, fervorosa do Fenerbahçe e agora também do Sporting, graças a uma simpática troca de galhardetes que fez de mim adepto do emblema de Meireles e Bruno Alves.

O casamento correu bem e foi validado, apesar de uma gaffe de uma das testemunhas, que em vez de sim, acabou por dizer o seu nome. Algo divertido mas que na minha óptica, de advogado picareta (ao estilo Bebiano Gomes), pode invalidar o matrimónio mesmo que eles tenham casado com sucesso e eu não tenha nada a ver com isso.
A noiva estava uma Grace Kelly em potência e ponderei fugir com ela. Mas depois o taxista ia-se perder, tinha de ligar ao noivo para pedir indicações e eu não gosto de dar trabalho às pessoas. Optei por ficar na festa e levar em frente o MACT – Movimento Apita o Comboio na Turquia. Comprei a música no Itunes (devo ser a única pessoa que algum dia o fez) e a secretária geral do movimento lá convenceu o DJ de que aquilo é que era um som da pesada. O maquinista foi o alemão, que na dianteira da fila fartou-se de recolher passageiros e ajudou a transformar, assim como todos os convidados, o movimento num tremendo sucesso. Casamento com portugueses sem “Apita o Comboio” é como ir a Roma e não ver o Papa.

imageAntes de abandonar a Turquia decidi fechar um negócio para o eixo defensivo leonino. Na altura Ilori, Rojo e Dier sofriam com mazelas físicas e Maurício era uma incógnita. Optei por um jogador experiente, com 28 anos, perfil de líder, fisicamente intimidante, que sabe usar o seu 1,95 nas bolas paradas e impor o cabedal nas disputas com os adversários. Conhecido como o “Pinheiro de Istambul”, apaixonou-se pela história do Sporting e antes do final do mercado vai aterrar na Portela a troco de provas diárias de gastronomia nacional. Um indivíduo profissional e que chega a custo zero, num negócio barato onde prevalece o amor à camisola.

Despedi-me da Turquia como entrei, falando de futebol: “Boa sorte para o Sporting” – disse-me o rapaz do hotel.

Na altura retribui com o mesmo desejo para o seu (nosso) Fenerbahçe. Hoje deixo o meu agradecimento geral, a todos os que fizeram parte desta aventura, e ao país em especial: Teşekkürler Türkiye!

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SONY DSCBruno Gomes

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6 thoughts on “Fanáticos por ser fanáticos

  1. Puxa Bruno…que fantástica história…eu estive nesse casamento…foi fantástico e a forma como o descreves…ainda ficou mais fantástico! abraço!

    • Eu espero bem que não. Afinal os jornais turcos são bastante sensacionalistas e este ano já venderam o Cardozo, por exemplo, ao Fenerhabçe umas 37 vezes. Mas no fundo acho que ele vai mesmo para o Galatasaray. Já se viu que os sanguessungas que gerem a carreira dele querem dinheiro à força toda e a partir de janeiro ele pode sair de graça, logo temos de tentar ficar com alguns euritos…

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