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O flagelo do fogo é o grande sinistro de Verão, ano após ano, assistimos a um país fustigado pelas chamas de Norte a Sul, consumido até à raiz pelo seu pendor devastador, varrido no vento errático que desperta as acendalhas da tragédia – enquanto Portugal vai ardendo, num gerúndio brando de agonia cálida, aos bombeiros resta somente, tão frequentemente, a fatal e irreversível conjugação do pretérito. A morte semeia-se à deriva do sabor ululante dos braços flamejantes, que cercam caminhos, tolhem hipóteses, atentam moradias, roubam legados e calcificam memórias vivas. Enquanto tudo isto se repete e reflecte, quer na negligência estatal quer no total desrespeito pelas bravas vidas que se prostram em sacrifício perante tamanho esconjuro, o país vai-se assistindo impávido, inerte e comiserado, num choro governamental de crocodilo que no fim do deste ciclo infernal tudo esquecerá, somente para tudo ver e rever arder, um ano a nós adiante.

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Foto: Pedro Armestre/09.08.2010/AFP

Porque em profunda análise sê-lo-á pertinente deixar cair os imediatismos analíticos e rasgarmos directamente ao âmago da questão que se dá por resposta: o Estado português é o grande pirómano por detrás da catástrofe. Mais que a pontual insanidade hipnótica dos amantes do fogo, mais que os ímpetos sem freio de supostas vinganças ou de atentados económicos, mais que tudo – é o nosso Estado o pirómano do lume brando, responsável gerúndio pela acção pérfida de inacção que o caracteriza, hipócrita e conivente, sempre de luto mas tão sempre inconsequente. Enquanto as mortes de bombeiros se empilham na consciência do desastre, Portugal permanece um país ausente, qual Nero concordatário assistindo à impronunciável dança das labaredas, permitindo que a coragem voluntariosa dos voluntários se arrisque a ser suficiente para suster o ataque avassalador e desigual do fogo. Não é justo que se lancem bombeiros impreparados, com falta de meios e carências de coordenação estratégica, para uma arena dantesca que se pode tornar mortal ao virar do vento ou ao espirro ígneo de uma fagulha solitária: as matas portuguesas foram constantemente negligenciadas, estão devotadas a um abandono completo e a uma desertificação que faz fiel retrato de um país esquecido das suas metades, geograficamente assimétrico.

Fogo

Bombeiros lutam como podem

Os indómitos bombeiros enfrentam um cenário minado a cada Verão. Porque no decurso dos anos, tudo foi feito – ou desfeito – para que as contingências actuais os cerquem com o espectro da morte: as vigilâncias florestais foram extintas e os guardas despedidos progressivamente; as políticas de constrição infra-estrutural e sócio-económica sentenciaram os campos ao abandono, quando grande parte deles poderiam ser rentabilizados com proveitos agrícolas em vez de integrarem o largo deserto de desaproveito que os torna em áridas bombas-relógio prontas a deflagrar; a ausência de uma consciência cívica que, a priori, invista no controlo e limpeza das matas e na qualificação – mais que imperativa – das corporações de bombeiros que, apesar de autênticos heróis, limitam-se à condição incontornável de humanos, dando o máximo de si pela vida dos outros, mesmo quando esse máximo lhes excede – e leva – a sua própria vida; Portugal arde aquilo que incendeia, pela mão pirómana dos seus governos. Despreocupados, desatentos, desorganizados, que, no máximo, envergam um luto cínico e repetem, mecanicamente, uns lamentos condolentes às famílias dos perecidos em combate.

No fogo muito se revela. Da sua ancestral purificante conotação poderíamos vislumbrar, no seu deflagrar nacional, o resultado coxo e desproporcionado de políticas de desenvolvimento fracassadas, que atiraram o país para uma assimétrica e injusta distribuição de recursos, estruturas, qualificações, oportunidades e cuidados. Os resultados estão à vista, claros e fosforescentes como as chamas que suspiram contra os soldados da paz – campos abandonados na prisão do seu próprio isolamento, florestas descuidadas, localidades perdidas no filtro tirano do tempo, populações condenadas à negligência generosa dos fantasmas populachos, sentenciadas a penas solitárias de morte por decreto entorpecido da memória, onde escolas fecham e centros de saúde falecem em fila de espera, eterna.

O fogo é simplesmente um dos pecados de um Portugal mal gerido. Um reflexo lógico e fatal de um país que não se emoldurou todo, tendo deixado de parte grande parte de si, devota ao esquecimento. Os nossos governos têm sido os pirómanos do lume brando, que mata lentamente, bombeiro aqui bombeiro ali, na desresponsabilização da tragédia recorrente, ou não fossem as matas pertencentes ao Estado aquelas que mais ardem e mais se consomem – porque o Estado condenou tudo ao imemorial deus-dará. E são os bombeiros a morrer por isso.

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Bruno Cardoso desenhoBruno Falcão Cardoso

* O autor opta por escrever em desacordo com o Novo Acordo Ortográfico e em respeito para com a Língua Portuguesa.

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