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Tivemos sorte. A contemporaneidade afigura-se-nos sempre como esse tempo apurado, refinado, ideal ou, pelo menos, o melhor até agora. Acreditamos viver no fim da História, na ponta do sucesso. Nunca tudo foi tão bom como o é agora, pensamos. E pensamo-lo, em parte e sem dúvida, porque a História transposta para as narrativas que mais vezes a trazem até nós, como a literatura e o cinema, se faz de batalhas, execuções, pilhagens, imundices várias e uma tão generosa como dolorosa ausência de analgésicos. Não procurando aqui uma apologia do passado, não deixa de me parecer relevante frisar que esse não era o dia-a-dia das gentes, e que tais acontecimentos não se sucediam na alta velocidade a que os episódios das nossas séries televisivas percorrem os carris da História.

Para quê afirmá-lo, então? Apenas para chegar ao ponto de poder defender que sim, que hoje viveremos certamente tempos melhores, mas onde tudo isso é ainda meramente relativo e onde tudo pode ainda faltar cumprir, e que querer o absoluto para caracterizar as actuais condições da vida talvez seja o ilógico racional de se ficar preso entre dois abismos: o risco de, crendo a linha de meta cruzada, deixar sob a linha de água tudo aquilo a que ainda importa lançar a mão, e também o risco de, para atingir o pico, crer necessário e legítimo cortar a corda, como se de lastro se tratasse, e lançar os demais alpinistas sobre o vazio.

Como John von Neumann disse um dia sobre a matemática, e como Ian Angell o aplicou aos fenómenos naturais do mundo, «nunca chegamos a compreender as coisas; apenas nos habituamos a elas.» Também isso o podemos dizer sobre os fenómenos da vida e da sociedade hoje. Para nós, tudo isto é cómodo, tudo isto é banal e familiar. Ao olhar determinados acontecimentos, penso amiúde na reacção que a eles teria, digamos, um homem marchando nas fileiras romanas ou uma dama da corte francesa no século XVII, e é para mim claro que ficariam aterrados, e talvez fugissem da cena como esses primeiros espectadores do cinema, que se diz terem fugido da sala perante a decerto apavorante visão do comboio dos irmãos Lumière em rápida aproximação.

Olhando em volta, hoje, e talvez podendo disso culpar a minha veia existencialista, sinto faltar atingir algo que se pode constituir engrenagem para suprir outras tantas ausências e desequilíbrios: a total liberdade para todos e o depositar da responsabilidade nas mãos das pessoas. Nada mais simples, nada tão óbvio. Vivemos hoje, ainda e muito, imersos no pânico em torno daquilo que os outros possam fazer. O desejo da normalização sempre teve travos de autoritarismo. Ansiamos, em diversos campos, por prescrever, como antibióticos de largo-espectro, todas as regras e usos e costumes pelos quais as populações devem alinhar. E tudo isso me parece feio e mau e destinado a desaparecer, como Boris Vian prescrevia para tudo aquilo que não fosse amor com uma mulher bonita ou a música do Duke Ellington. Concordando, creio porém que há mais duas ou três coisas que também merecem salvar-se, e uma é a possibilidade de todos fazerem aquilo que bem desejarem, de levarem a vida como bem entenderem, com quem lhes parecer mais apaixonante.

Afinal, como Baudrillard dizia, na sociedade do tudo-disponível em que hoje nos encontramos, estamos já depois da orgia, e não nos resta senão perguntar «O que é que fazes depois da orgia?», uma vez livres da própria liberdade, livres de todas as necessidades pela sua fácil satisfação. A cena adequa-se perfeitamente ao mundo dos objectos, ao consumo comercial de bens e serviços, e não duvido de que grupos haverá onde a orgia já terminou, mas no que às liberdades diz respeito, à total abertura ao campo de possibilidades e opções dos indivíduos, permanece em mim a dúvida: estaremos, de facto, depois da orgia?

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Hugo desenho 4sc2Hugo Picado de Almeida

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