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babete benficaLi algures, e há muitos anos, que escrevemos melhor quando escrevemos sobre o que nos é pessoal. Quando a racionalidade dá espaço para que o coração tenha os seus próprios pensamentos. Quando o sentimento se tenta transformar em palavras e tudo se torna revelador, sobretudo para quem escreve. Portanto, este é um artigo egoísta. Não que vos costume escrever sobre algo que não sinta. Mas porque tento, agora, ser menos comedida e mais exposta, a quem me possa ler. Porque disso necessito e, para tal, me sirvo de vós e deste espaço.

Vem aí um novo benfiquista. Não vos revelo o nome de nenhum reforço de última hora, não antevejo o nome do novo dono do banco do Benfica e não tento fazer história e relatar o caso do primeiro sportinguista a converter-se ao encarnado. Mas posso vos assegurar que vem aí, certamente, um novo benfiquista. Falo-vos do meu filho, Tomás, cujo nascimento está previsto para Dezembro, mesmo antes da habitual paragem do campeonato (Não, o parto não foi planeado, para que eu não perca nenhum jogo da liga).

Tendo já a gestação o seu tempo avançado, e já habituada que estou a que as hormonas comandem a minha vida, posso falar-vos abertamente sobre o que é passar de contar a vida em jornadas para passar a conta-la em semanas. Sim, se antes regia de alguma forma obcecada a minha vida pela espera da próxima jornada do campeonato, passo agora a contar os mesmos sete dias, mas para que a minha gravidez avance uma semana. A grande diferença é saber se, ao fim dos mesmos sete dias, em vez de apenas o Benfica ganhar pontos, eu, simultaneamente, também ganhei quilos na balança. Cada um pelo seu objectivo.

Não pretendo ser maçadora, dissertando sobre sentimentos maternos. Basta-me dizer que estou mais feliz do que se o Benfica tivesse ganho a Liga Europa há quatro meses. Bem sei que não existirá comparação no sentimento vivido quando se gera um filho. Mas, acreditem, há quatro meses, eu julgava que o pico da minha vida terrena feliz era ver o Luisão levantar a taça europeia, só ultrapassado com o sonho longínquo de ganhar uma Liga dos Campeões. Portanto, e comparações à parte, estou feliz.

Mas porque insisto em trazer o tema da minha gravidez para o universo futebolístico? Porque o sentimento dita que se façam comparações inúteis e ridículas, para que este possa ser demonstrado na sua máxima intensidade. E porque por mais inúteis e ridículas que possam parecer as comparações, há sempre algo de verdadeiro nelas. Se não, reparem, se eu vivia obcecada com a bola em campo, imaginem o que é viver com uma bola de futebol na zona do abdómen. E imaginem o que é andar tão mal disposta durante semanas, que o enjoo supera o que senti a última vez que o Benfica jogou no Dragão. Pois é. A gravidez é tramada. Mas a gravidez de uma benfiquista tende a ser muito pior. Com a azia a duplicar.

Segundo o calendário da maternidade, quando se deu o mês fatídico de Maio, mês das comemorações da Nossa Senhora de Fátima e da população portuguesa anti-benfiquista, eu já estava grávida, embora não tivesse disso conhecimento. Significa que perdi um campeonato, um troféu europeu, mas ganhei um filho. E pensar assim deixa-me, emocionalmente, equilibrada. Porque o primeiro verbo associado ao estado de gravidez deveria ser o de relativizar. Tudo se relativiza, perante a realidade de irmos ter um filho. Reparem que ainda não toquei no assunto do derby de ontem, que seria o tema natural deste artigo. É sinal que assisti à partida de uma forma tão calma quanto estranha. E o único reparo que pretendo fazer em relação ao assunto é que, não tivesse eu já escolhido o nome Tomás, e me tivessem oferecido fraldas, babetes e afins com este nome inscrito, e o nome do puto teria sido definido ontem: Lazar Markovic.

Como qualquer fanático de Futebol, colecciono um novo sonho. E, como qualquer mãe, gostava que o meu filho concretizasse os sonhos que eu, pessoalmente, não consigo atingir. Portanto, e sem rodeios, tinha um gosto especial em criar o futuro lateral-esquerdo encarnado. Acreditem que é fácil, mesmo com o bebé ainda na barriga, começar a tentar planear todo um futuro, em que a personagem principal já não somos nós, mas o novo ser que passará a comandar tudo, qual Leonardo Jardim a comandar os putos em Alvalade. E, portanto, vou acalentar o sonho de ter uma criança saudável, benfiquista e com um pezinho abençoado. Não que tivesse um particular gosto em que ele tivesse o mesmo número de neurónios da maioria dos futebolistas, mas porque sei que eu faria um melhor papel de Dolores, mais do que a própria mãe do CR7. São intuições. E intuições não se explicam.

Quem sabe se o destino não me prega uma partida e, ao em vez de um atleta, eu tive o prazer de conceber um Bill Gates. Ninguém sai chateado. Desde que o puto não se tente emancipar e me diga um dia que é do Sporting. Aí, não saberei como agir. Mas, se as mães dos grandes criminosos lhes juram amor incondicional, penso que amarei sempre o Tomás, mesmo de verde e branco. Afinal, antes ser mãe de um sportinguista, do que ser mãe do futuro Vale e Azevedo.

Em tempos de contestação benfiquista pelo seu órgão presidencial e pelo seu comando técnico, gosto, como dizia há pouco, de relativizar. E prefiro pensar numa eventual crise encarnada, sob o prisma da minha condição actual de grávida. Desta forma, penso muitas vezes se Jorge Jesus ainda estará no banco quando o Tomás nascer, qual serão resultado do próximo campeonato quando ele completar o seu primeiro semestre, ou qual será o jogo em que o levarei, pela primeira vez, à Catedral. São pensamentos que me fazem sorrir, mas, sobretudo, que me fazem relativizar a fragilidade actual da minha equipa.

A viver num turbilhão de dúvidas, não sei como será o Tomás, não sei se serei boa mãe, se ele será futebolista ou se, sequer, gostará de futebol ou do vermelho. Paralelamente, não consigo antever o futuro do Benfica, do seu treinador, ou da equipa que se agora forma. Mas, da incerteza da dúvida, resta-me apenas um consolo em jeito de certeza: Para já, os pontapés do Tomás têm sido os mais emocionantes a que assisti neste início de época. Mesmo depois do golo de ontem do Markovic.

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Mara desenhoMara Guerra

* Autora do «Visão Curta» e colaboradora do «Palavras ao Poste»

One thought on “Vem aí um novo benfiquista

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