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O extraordinário, num carro, não é tanto o acto de parar. O princípio da travagem é básico; é o princípio do choque, atrito levado ao limite. O acto de travar é análogo ao de se estampar contra um muro de cimento; aliás, é este segundo, mas higienizado, despido de perigos e, mais importante, reproduzível, reutilizável, já que os muros de cimento raramente perdoam quem quer que se meta a dialogar com eles demasiado de perto. O fantástico nos carros é, sim, a capacidade de se porem em marcha, de transformarem o chassis adormecido, morto pesado, em jaguar rugidor. Da inércia ao movimento num trago de gasolina.

Em contra-pé, e a contragosto, devo porém anunciar que este não será um artigo sobre a proeza do movimento automóvel, não será um elogio da mecânica moderna, mas versará, sim, algumas particularidades da sua imobilização.

Todos os veículos param, mais tarde ou mais cedo, num sítio ou noutro, por acidente ou pelo seu parqueamento a preceito. Claro está que há, pelo menos, uma terceira opção a considerar: a paragem desregrada, atabalhoada, em total desrespeito pelas regras do código e pelas outras, mais importantes, do bom-senso. De há uns anos para cá, surgiu nova moda em Portugal, e moda de origens sombrias, lá para os fundos da mente, onde o pensamento não habita: o estacionamento em plena faixa exterior das rotundas.

Todos sabemos que as rotundas, como os bebés, vêm de França, mas duvido que moda assim tão atamancada venha da Gália organizada, que de mediterrânica tem apenas o rodapé do seu território planificado, e onde Porsches e Ferraris se passeiam nas marginais de Biarritz sem que lhes possa passar pela cabeça atravancar uma qualquer rotunda.

As rotundas cumprem o objectivo de fazer mais bem fluir o tráfego, mas aquilo com que não contavam é que a auto-determinação dos sujeitos fosse ao ponto de não apenas as vazar de propósito como ainda de as subverter, fazendo perigar aquilo que já de si não era simples: afinal, como tantos outros dispositivos, elas encerram em si uma acção complexa para que o funcionamento geral do sistema seja mais simples, mais fluido. O problema, porém, é bem mais espinhoso do que à primeira poderia parecer, e filia-se numa determinada escola automobilística que tem ganhado adeptos, ao menos no nosso país. O trânsito, na maioria das nossas grandes cidades, não é fácil, e em boa parte das situações não é fácil porque temos apenas disponíveis metade das faixas de rodagem que construímos. São frequentes as ruas em que uma das vias foi, qual tácito acordo entre os condutores e o pavimento, convertida em estacionamento selvagem, segunda-fila permanente e por vezes sem sequer a primeira estar lá. Aceito que em muitas zonas da cidade talvez não haja alternativa, porque a própria política de estacionamento é bárbara, e a EMEL limita-se, regra geral, em parquimetrar todo o centímetro despido na pele da cidade, totalmente alheia às características da zona e do próprio piso, numa postura de cobrador do fraque, puramente mercantil, totalmente estrangeira às necessidades de estacionamento da cidade e dos seus cidadãos. Isso não dá, porém, a nenhum condutor, o direito de responder, tomando de assalto os exteriores das rotundas, onde os postezinhos e os mecos e os moedeiros da EMEL não podem chegar.

Estacionar um carro no meio de uma rotunda não tem desculpa, e é tão mau quanto deixar o lixo à porta do vizinho, e se o carro for grande – ou a rotunda pequena −, pode até ombrear com o próprio acto de assassinar o filho do vizinho, com o assaltar-lhe a garrafeira ou com o raptar-lhe a mulher. Estacionar um carro no meio de uma rotunda é tradução babeliana do desprezo perante toda a sociedade, e isso não se muda com códigos nem leis ou autuações.

Até lá, podem desenhar rotundas e turbo-rotundas, que de pouco ou nada elas servirão. As coisas, no final do dia, são aquilo que os indivíduos fazem delas, e enquanto, como o meu tio diz, cada condutor pensar que, estando sentado no seu carro, está sentado na sua sala lá de casa, as ruas continuarão a ser essa montra de ideias peregrinas, diorama de desastres – e pior do que montras, onde não há vidro que mantenha a loucura de um lado e a sanidade do outro.

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Hugo desenho 4sc2Hugo Picado de Almeida

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