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Ponto prévio: os Estados Unidos da América raramente são bom exemplo de práticas. No entanto, volta e meia lá surgem os casos cujo modelo americano deveria ser, senão copiado, pelo menos tido como referência. O desporto a nível interno é um desses casos.

Finalizado o período de transferências no futebol europeu (ou soccer, como eles insistem chamar ao Desporto Rei), concluímos que nada mudou. Os mais fortes reforçam o seu poderio à custa de argumentos financeiros que só eles têm.

Por estranho que pareça, há muito mais justiça e, de certa forma, fair-play financeiro do outro lado do Atlântico. Lá também existe dinheiro e também são muitos os multi-milionários que investem no desporto, uns por paixão, outros por razões menos claras. Lá também existem os colossos desportivos, clubes com muitos adeptos e com um merchandising invejável a nível mundial. Mas os tubarões americanos – os LA Lakers na NBA ou os NY Yankees no Basebol – não podem comer todo o peixe graúdo. Veja-se o caso dos campeões da NBA: os Miami Heat, cheios de dinheiro para investir, juntaram o famoso Big Three composto por LeBron James, Dwyane Wade e Chris Bosh mas tiveram que completar o plantel com elementos que não são pagos a peso de ouro, de forma a não ultrapassarem o salary cap.

Os tectos salariais impostos às equipas americanas são um exemplo para a Europa, uma lição a aprender. Sobretudo quando tanto se fala em crise, tanto se fala em fair-play financeiro mas tão pouco se vê feito. Não que o dinheiro não tenha importância no desporto americano. O exemplo dos Heat, equipa com currículo relativamente modesto na história da NBA, mostra que também aí o cifrão é preponderante no que toca a formar uma equipa ganhadora. Mas a grande pátria do capitalismo moderno, o país onde manda quem tem, viu no desporto a necessidade de equilibrar os pratos da balança e de limitar o peso do dinheiro. Já os europeus continuam a assobiar para o ar, aceitando os caminhos de um mercado sem leis. “Fala-se de grandes transferências, mas o importante é se existe capacidade para pagá-las”, referiu Michel Platini, presidente da UEFA, a propósito do negócio Bale. Sem comentários…

O caso do futebol espanhol é paradigmático. Um país em crise conta com uma Liga cada vez mais bicéfala à custa da força do dinheiro (muitas vezes proveniente de bancos falidos ajudados pelo dinheiro dos contribuintes), estrangulando os clubes pequenos e médios (veja-se o exemplo das receitas televisivas). Aqui, Real Madrid e Barcelona habituaram-se a ser Reis. Mas nunca como agora. Depois do título conquistado em 2003-2004 pelo Valencia, mais ninguém se conseguiu intrometer na luta entre merengues e culés. Foram nove campeonatos, seis para o Barça e três para o Real Madrid. A história de La Liga tem outros momentos de domínio mas o fosso nunca foi tão grande. As distâncias pontuais mostram-no. Os plantéis mostram-no. E, sobretudo, os investimentos mostram-no. Só este ano, os dois clubes investiram mais de 150 milhões em dois jogadores: 100 milhões do Real por Gareth Bale e perto de 60 do Barcelona por Neymar. Os dois craques juntam-se a dois plantéis com vastíssimas soluções, do melhor que há no mercado. Juntam-se a alguns dos jogadores mais bem pagos do desporto a nível mundial. Sim, nos Estados Unidos também se fazem compras megalómanas, negócios com muitos zeros à direita. Mas a entrada de um elemento pago a preço de ouro obriga a um ajuste da folha salarial, o que normalmente implica a saída de outro com vencimento semelhante.

Em Espanha, Barcelona ou Real Madrid serão este ano campeões. É tão certo que dá para apostar uma orelha. Sê-lo-ão também no próximo ano. E no outro a seguir. Só com novas regras que incentivem a competitividade (como o caso do exemplo americano) poderemos voltar a ver Valencia, Atlético Madrid, Athletic Bilbao ou Deportivo conquistarem o caneco. A outra possibilidade para os clubes de dimensão mais reduzida passa por uma resposta também à base do dinheiro: a entrada de um multi-milionário, como vimos em Málaga com Al-Thani. Arriscado. E errado.

Na Alemanha também impera a lei do dinheiro, apesar de vários clubes terem conseguido o título nos últimos quinze anos. Mas aí, as regras são um pouco diferentes, nomeadamente no que diz respeito à possibilidade de endividamento dos clubes e até à entrada de investidores estrangeiros. O FC Bayern é, de longe, quem mais tem mas sobretudo porque gera receitas enormes. E tem uma política interna de contratações que o torna mais forte e que enfraquece os rivais (a compra de Götze e de Lewandowski (?) mostra-o). Uma luta desigual que, por ora, vai sendo heroicamente rebatida pelo Borussia de Klopp. Mas, até quando?

Em França, a luta será cada vez mais entre PSG e Monaco. E em Inglaterra, o dinheiro também desvirtuou a competição. Este ano, foram os clubes da Liga Inglesa os que mais investiram. O próprio Arsenal de Wenger, que há uns dias defendi aqui como exemplo de resistência à tentação de ganhar a todo o custo, acabou por gastar perto de 50 milhões de euros em Mesut Özil no último dia do mercado. E parece que mais tem para investir já em Dezembro. É utópico pensar que se pode ganhar uma competição como a Premier nos moldes actuais sem investir muito. Wenger percebeu-o mas continuará a defender um modelo mais justo.

Uma palavra, já agora, para o campeonato português. Um caso diferente, onde apenas três clubes se habituaram a lutar pelos títulos. As limitações orçamentais, nomeadamente ao nível de aquisições e de salários, são também aqui uma urgência, espelhada nos passivos dos clubes. Se por um lado é evidente que um campeonato mais equilibrado seria benéfico, todos sabemos que não existem condições para tal. Um Belenenses ou um Boavista poderão sempre aparecer, de muitos em muitos anos. Para que os clubes não-grandes se tornassem crónicos candidatos ao título, as regulamentações teriam que nivelar a competição muito por baixo. Tectos salariais muito apertados e pouquíssima margem para investimento. Em suma, a extinção da força dos clubes portugueses na Europa. Outra coisa é a defesa de um modelo mais homogéneo nas receitas, a começar desde logo pelas transmissões. Esse sim é o caminho.

O modelo americano não é perfeito. Mas tem sido bem sucedido. Desde a temporada 2000-2001, nove clubes diferentes conquistaram o Super Bowl da NFL, seis o da NBA e nove o título americano de baseball. A chave de sucesso parece mais saída da União Europeia do que dos Estados Unidos: um regulador forte que assegura a competitividade e um equilíbrio nos gastos. O próprio processo do draft tem um pouco de Robin Hood, retirando privilégios aos mais ricos e aos mais fortes, permitindo que os clubes com menor dimensão escolham primeiro os novos talentos que surgem nas college teams.

Cabe à UEFA, presidida por um Michel Platini ainda indiferente a esta problemática, implementar regras a nível europeu, até porque se estas forem introduzidas a nível interno trarão desvantagens aos clubes do país em questão nas competições europeias. Para começar, com limites de investimento e tectos salariais mais rígidos em ligas como a inglesa, a espanhola ou a alemã. Em Inglaterra já se caminha para uma limitação nos prejuízos anuais dos clubes, não permitindo que os gastos fiquem demasiado acima das receitas. Os tectos salariais estão também sobre a mesa mas há uma natural preocupação sobre os efeitos que o aperto do cinto podem trazer aos clubes nos jogos internacionais.

Platini tem a palavra. Muito tem dito contra os clubes prevaricadores (casos de corrupção, por exemplo) e muito tem falado em fair-play financeiro. Já os actos têm sido poucos e insignificantes. Uma actuação no campo financeiro seria um contributo tão importante para o futebol como aquela brilhante prestação no Europeu de 1984…

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joni_desenhoJoni Francisco

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2 thoughts on “O raro exemplo americano

  1. Joni Francisco,

    Gostei muito do teu artigo, mas gostava que abordasses mais profundamente algumas questões:

    1 – o marketing associado às grandes contratações do Real e do Barcelona, e possível associação a duas das grandes marcas desportivas do momento: Adidas (Messi, Bale e Real Madrid) e Nike (Ronaldo, Neymar e Barcelona).

    2 – a influência do universo das transmissões televisivas das maiores ligas europeias: Espanha (para toda a América Latina) e Inglaterra (para todos os países do antigo império inglês); pois acho um factor decisivo para o rápido crescimento e organização das demais ligas.

    3 – falar no investimento no jogador nacional, sobretudo nos campeonatos espanhol e alemão, com grandes consequências a nível de selecção, apesar do investimento financeiro em jogadores estrangeiros de enorme qualidade, por oposição ao desinvestimento do jogador nacional em prol de jogadores estrangeiros de qualidade duvidosa em Portugal.

    4 – como é possível os clubes portugueses apresentarem resultados financeiros paupérrimos e com garantias televisivas irrisórias, conseguirem, ano após ano, crédito nas instituições bancárias nacionais para investir em contratações? E ninguém pergunta nada? Ninguém vê nada?

    5 – não acho que seja muito correcto comparar a organização do futebol europeu com a do futebol americano, pela simples razão de que no futebol americano são apenas aquelas equipas profissionais e não há subidas de divisão na liga profissional, o que torna tudo mais simples. Mas, percebo a tua ideia da gestão e aproximar a competitividade entre clubes.

    6 – a UEFA e, sobretudo, a FIFA é uma grande agência de interesses. Quanto mais dinheiro circular entre eles, melhor. Quanto mais desse dinheiro circular sem controlo aparente, melhor ainda, pois mais facilmente muitos lá dentro se poderão aproveitar. Há muita gente a ter viagens e despesas pagas, fazendo muito pouco… apenas mostrando vassalagem.

    7 – como diria o outro ‘fair-play financeiro’ é um treta! É-o, porque qualquer bom gestor. com ajuda de um qualquer bom contabilista poderá mascarar muitos custos para rubricas que passem incólume aos critérios “rigorosos” desse “fair-play”. A ideia é boa, mas o tempo que estão a demorar a aplicar, e a escrita desta por alguns escritórios de advogados conhecidos, levará a muitos pedidos de pareceres e muitas “portas-do-cavalo”.

  2. Caro PP, antes de mais obrigado pelo elogio e pelo contributo para o debate.
    Vou tentar ser sucinto nas respostas (que não passam de opiniões):
    Os pontos 1 e 2 são pertinentes e podem perfeitamente ser alvo de análise num outro artigo. O dinheiro parece existir e, de facto, tem as origens mais diversas, desde receitas naturais dos clubes até a sugar daddys. Este artigo não critica a existência do dinheiro ou das receitas ou das parcerias com marcas. Apenas serve para mostrar uma indústria cada vez mais descaracterizada e dominada pelos fortes e ricos. Daí o exemplo americano, onde existe dinheiro, existem grandes receitas de transmissões, existem grandes contratos equipas/marcas e jogadores/marcas, etc. mas mesmo assim se considerou necessário colocar um travão aos gastos.
    O ponto 3 é-me muito querido e já o analisei aqui no Palavras ao Poste, nomeadamente no artigo sobre a grande aposta da Alemanha na Formação.
    Sobre o ponto 4, tenho a mesma dúvida 😀 Não te consigo dar uma resposta, também gostava de saber…
    O ponto 5 concordo inteiramente contigo e, como refiro no texto, o modelo americano não consegue (nem pode) ser implementado na Europa em copy+paste. Mas que existem linhas chave que devem ser seguidas, parece evidente.
    Ponto 6, novamente de acordo a 100%, uma matéria na qual não quis entrar neste artigo. Preferi centrar-me nos factos e deixar para uma outra ocasião a opinião sobre essas instituições.
    Ponto 7: O fair-play financeiro é uma autêntica treta, é certo. Mas mostra também que pelo menos alguém está preocupado com o caminho que esta indústria está a seguir. Se é a forma ideal de responder aos problemas? Não! Até porque já foram identificadas muitas fragilidades nas propostas que permitiriam a entrada de dinheiro exterior de outras formas. Vou acreditar que é apenas um primeiro passo para algo maior.

    Uma vez mais obrigado. Abraço

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