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Como em tudo o que é e que já não é o que era – a vida é ser-se fatalmente mutável – também a tecnologia é, num certo sentimento de «Unheimliche» insondável, um boquiaberto anacronismo que, ao resguardo eterno do seu progresso científico, permanece promissor mesmo quando já pereceu frustrado nos seus mais virtuosos propósitos – quer isto dizer que a tecnologia, outrora esteio revolucionário de uma nova organização sócio-laboral, económica e política, é hoje não mais que um irreflectido esteio revolucionário de qualquer coisa há muito repetida. Concluído de modo mais conciso: a tecnologia é inovadoramente velha.

É na base deste paradoxo que se sustenta a minha percepção do fenómeno tecnológico: sempre novo e refrescante, sempre ultrapassado e frustrante. Vistos assim os prismas, é declaradamente fácil estontear uma boca aberta em honra da antítese sócio-tecnológica, qual choque de crenças onde a presumibilidade é abalada pela irrupção do seu outro antagónico, inexpectável: a nossa velha quotidiana– mas sempre nova! – tecnologia é afinal uma velharia frustrada, despropositada até, em muitos casos. E isto é uma novidade. Uma novidade que foi, subrepticiamente, enferrujando-se na familiaridade do uso, da repetição, da sistematização, da tal ode tecnológica que prometia inundar a vida para a redefinir em prol dos interesses e do bem-estar geral.

Existe na minha mente um eco longínquo mas bem audível ainda, arrumado no rápido volver dos anos, das ideologias, das preocupações, das temáticas e dos debates, deixado a mofar no esquecimento da sua própria premissa: «o progresso tecnológico virá para libertar o Homem de muitos dos fardos que o atormentam e que, a cargo da maquinaria inteligente, não mais o serão». Sei que pairava uma esperança inequívoca de que, um dia, a máquina complexa substituisse o Homem naquilo que de mais mecânico, repetitivo, desumano e alienador se fazia, e que, a esse mesmo ritmo, o lucro gerado pudesse ser repartido por quem de direito, (quem dá vida às empresas, fábricas industriais, linhas de montagem, escritórios, gabinetes e por aí adiante) em claro benefício da qualidade de vida, do tempo livre dispendido com a família, com a educação dos filhos, com as actividades lúdicas e o livre desenvolvimento do intelecto, que tanta falta faz para fazer engrenar uma democracia de massas. Seria a própria socialização a ganhar, pensava eu, para com os meus botões de adolescente.

Mas a tecnologia não serviu nenhum desses propósitos. Em vez disso, caiu vertiginosamente na banalidade irreflexa, reflexo somente do assimétrico, corrupto e despropositado uso a que foi condenada. O cenário é fácil de ilustrar com simples perguntas: qual o significativo e tangível progresso civilizacional directamente imputado à comercialização massiva – e dispendiosa – do novo «iPhone»? Ou do novo automóvel que atinge aqueloutros quilómetros por hora? Ou do tablet que permite carregar de modo versátil um computador touchscreen? Ou do míssil teleguiado que explode com a totalidade de uma aldeola em poucos segundos, percorrendo milhares de quilómetros? Muitos poderão ver muito, eu sinceramente vejo pouco. Pouco para a promessa paga, pouco para a fatura que a sociedade continua a pagar – saúde para alguns, (cada vez mais) educação para cada vez menos, desajustes económicos que abrem fossos enormes no seio da vida dita democrática, pobreza generalizada, condições de trabalho que retornam décadas atrás, precariedade avassaladora, aumento da carga horária de trabalho…muito há para apontar. No fundo, a questão é normativa. Sim, é certo que o Ferrari de hoje é bem mais veloz que o de outros tempos, que os computadores armazenam mais informação em minúsculos fragmentos de memória, que as fábricas produzem infinitamente mais que antigamente, que existem mais estradas – esburacadas é certo – e centros comerciais e metralhadoras que tossem balas às gargalhadas e guerras mais higienizadas e maior esperança média de vida.

Mas no fundo é uma questão normativa: tem sido o advento da tecnologia utilizado de modo equitativo e racional, em prol do bem-estar colectivo de uma sociedade rumo a um equlíbrio pacífico, tranquilo, intelectual, tolerante e humanamente emancipado? Não, certamente que não. Ou os iPhones não seriam montados freneticamente por empregados que desejam ardentemente saltar da janela das instalações – desumanas – onde trabalham, ganhando o suficiente para quase, quase, sobreviver como cães. Nem a saúde continuaria a ser uma área onde os vírus se propagam e testam insidiosamente nas populações e as curas se adiam devido a interesses económicos das imponentes farmacêuticas bilionárias. Nem a corrupção financeira se teria refinado, qual castelo inabalável de interesses particulares, em benefício de uma percentagem mínima da população mundial e em detrimento dos 99% que pagam a opulenta industrialização do roubo e do sorvimento imparável dos lucros, rumo a uma sociedade tão assimétrica como nunca. Nem o stress imperaria, ou o ritmo inquieto de uma modernidade cega surda-muda das suas questões mais prementes, nem o tempo escassearia como nunca também: filhos com pais sem tempo para serem pais, educações em cima dos joelhos, participação política nula e horários de trabalho que, afinal em vez de diminuirem aumentam, para espanto de uma sociedade que se ia livrar de grande parte da chatice do trabalho, libertando-se para funções mais sociais, mais associativas, mais incorporadas, mais ponderadas.

É óbvio que existem e existiram imensas mudanças no paradigma de vida, artefactos que mudaram a percepção, que ajudaram e trouxeram o vento parcimonioso da comodidade, da interligação, da comunicação massiva, como esta que me medeia agora. Mas, numa análise geral sustentada no princípio da justiça social e do almejado progresso civilizacional, com direitos e igualdades a par, o processo tecnológico de ponta frustrou-se em cumprir o seu papel – de mediador – democratizante nas nossas vidas no mundo global:

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Ìndices de pobreza nos EUA regrediu a níveis de há 3 décadas atrás

– A produção em massa baixou os preços mas diminuiu em muito a qualidade (lembre-se a obsolescência programada…) dos produtos, além de ter sido a base de um lucro desmedido que, em vez de se imiscuir no proveito – justamente tributado – colectivo da sociedade, beneficiou as cada vez mais gordas contas de empresários e gestores gananciosos que, dos milhões e milhões de lucro, guardam quase tudo para si, não raras vezes despedindo força laboral simultaneamente. O poder inquestionavelmente totalitário das multinacionais é um sintoma claro da tirania financeira apoiada na retórica do «baixo custo a todo o custo».

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Desemprego em Portugal: 4,8% em 1990…

– O desemprego galopante bate recordes nunca antes vistos, e Portugal é um caso flagrante. As horas extraordinárias proliferam e a carga horária aumenta, apesar de sermos mais produtivos hoje do que no passado: supreendente, numa sociedade altamente mergulhada no fenómeno tecnológico? Além disso, a precaridade é exponencial e as condições de vida vão regredindo a tempos pensados idos, onde a tecnologia de ponta ainda era uma adolescente.

– O sector da saúde regride no âmbito de um Estado cada vez menos social e menos solidário, um pouco por toda a Europa, no velho continente das luzes. Apesar dos progressos científicos na área dos cuidados médicos, o seu acesso é cada vez mais vedado ao poder da carteira de cada um. Em Portugal, por exemplo, vive-se mais tempo, é certo, mas com menos qualidade de vida.

fonte AQUASTAT

O consumo de água é um luxo em certos países…

– No sector do Ambiente, a ganância personifica fidedignamente o falhanço do pressuposto democratizante da tecnologia: o petróleo é usado até à sua última gota, enquanto que energias renováveis altamente proveitosas e baratas são adiadas permanentemente devido ao lucro sedento das grandes corporações que dominam a economia mundial. Muitos outros casos poderiam ser aqui dados como exemplos, ou não caminhássemos nós para o abismo ecológico.

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Disparidade brutal entre produtividade laboral e salário no Japão

O mundo é hoje um sítio cada vez mais desigual, desajustado, assimétrico e desequilibrado no seu todo. Coabitamos com escravos que são explorados e mal-tratados na procura de diamantes para comercialização, (como em Angola) coabitamos com a fome que mata um continente inteiro lentamente, coabitamos com a tecnologia comprada a 500 euros feita por chineses desfalecidos que preferem morrer a trabalhar como vermes, coabitamos com ataques militares que nos seus custos perfazem triliões de euros (com quantos euros se mata a fome do planeta?) e milhares de mortos, coabitamos espectáculos de futebol onde as vedetas chutam bolas feitas por crianças indonésias que, para comprar a tal bola que manufacturam dezenas de vezes por dia, teriam de trabalhar quatro ou cinco meses. A tecnologia é sempre nova mas o seu reflexo é sempre velho. Aliás, ele é anterior a ela e chama-se desigualdade gritante.

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África subsaariana quase duplica índice de pobreza em 30 anos

O fenómeno progressista da proliferação da tecnologia prometia mas foi usurpado pelos mecanismos de poder do capital, que moldou a busca e a realização tecnológica e científica dos seus parâmetros e dos seus propósitos. A esperança de uma democratização auxiliada pelo poder reprodutível da tecnologia foi gorada e os seus resultados positivos são uma mera aparência cujo desiquilibrio mundial é prova provada, mas não tanto veiculada como necessário: basta consultar os índices per capita de vários países, comparando-os e comparando também o desperdício anual de bens e os consumos estupidamente díspares entre populações de diferentes partes do globo. Porque nos convecemos que a tecnologia, por si só, traria mais democracia. Mentira. Tal como na Economia – que é feito da mão invisível, Greenspan? – e na política, uma consciência colectiva, racional e equitativa deve existir. Mas como em tudo, o capital falou mais alto – é a velha história da novidade condenada a ser não mais que um velho hábito disfarçado de novo. E todos sabemos que os velhos hábitos, por si próprios, morrem nunca.

Bruno Cardoso desenhoBruno Falcão Cardoso

* O autor opta por escrever em desacordo com o Novo Acordo Ortográfico e em respeito para com a Língua Portuguesa.

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2 thoughts on “A velha nova da tecnologia

  1. Mais importante que a discussão à volta do “novo meio”, é a percepção de que a tecnologia sempre foi, e assim continuará, a ser feita à custa dos mais fracos e da definição de um mundo desigual que importa reter. “A tecnologia é sempre nova mas o seu reflexo é sempre velho”. Grande artigo.

  2. Nem mais André, é precisamente esse o ponto do tema. As desigualdades que demonstro e as disparidades civilizacionais tentam chegar a essa conclusão – é exactamente como dizes.

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