Home

No início, era 1888. A 4 de Setembro, George Eastman registava a sua patente para a primeira máquina fotográfica e filme Kodak, que viria a inscrever-se na fila das invenções que revolucionaram o mundo. Também em 1888, Van Gogh pintava o quadro Pôr-do-sol em Mont Majour, obra esta semana descoberta e autenticada pelo museu que ostenta o nome do pintor holandês. E nesse pequeno intervalo, histórico, de uma mão-cheia de semanas no ano de 1888, encerrava-se uma batalha que, ainda hoje, é muito a nossa. Da Holanda, efectiva terra de liberdades, hoje como no século XVII, aos EUA, terra de oportunidades, vai a mesma distância que separa a fotografia de Eastman da pintura de Van Gogh. Passo a explicar.

A pintura retrata, mas não vigia. A sua força documental será, no máximo, aparente, fiando-se na boa vontade do espectador que olha o quadro com olhos de arqueólogo ávido, e nunca sobrevive no seu solipsismo emoldurado. Se a fotografia hoje já permite mentir, a pintura, já o vemos, está tão próxima da ilusão, da ficção, como o cotovelo do Bruno Alves da cara do Neymar na madrugada passada. Permitam-me o argumento e uma tal disposição dos pólos em antagonismo. Se a pintura fosse verdadeiro documento, não a deixavam entrar nas salas dos tribunais, como ademais não o permitem a qualquer outro aparelho de gravação. A pintura não faz prova. Por seu turno, a fotografia foi mais feita para vigiar do que para representar. E se ela surgiu das mãos de quem pintava, face à necessidade de capturar – o termo não é inocente – a realidade a velocidade impossível para a pintura – por outras palavras, captar antes que a realidade desaparecesse −, a história dos seus usos, desde a sua invenção, sempre esteve mais perto da guerra e da prisão e do hospital do que das galerias e museus. Esse é, para ela, evento recente. Da espionagem ao estudo da fisionomia de criminosos e loucos, entre século XIX e ao menos boa parte do século XX, quase nem o próprio real ombreava com o estatuto documental  atribuído à fotografia.

Menos de 100 anos depois de Eastman, com a fotografia a dar lugar ao cinema e ambos cedendo espaço à vigilância pelo ecrã, e depois de Orwell, em 1949, ter publicado o seu marcante 1984, a Apple prometia que 1984 não seria como 1984. Empurrando para a borda do prato o inteligente golpe publicitário, era vã como um saco ao vento a promessa de Steve Jobs. A promessa, funcional, é certo, mas sobretudo estética do Macintosh, dificilmente libertaria alguém. Contentava-se em tornar-nos presos vestidos em riscas de cores diferentes, mas presos ainda assim. Julgou a Apple que vestir-nos em pijamas diferenciados nos faria esquecer as grades e as paredes demasiado próximas umas das outras. Talvez tivesse razão, mas a reivindicação era, no seu cerne, dourado ardil.

De facto, não poucos foram os casos em que Steve Jobs se viu, ele próprio, apelidado de Big Brother, nomeadamente por mais ou menos autoritárias proibições de conteúdo nos seus produtos e na sua app store. Se tudo ficasse por aí, porém, talvez poucos fossem os motivos de queixa. Aquilo de que, as mais das vezes, não nos damos conta é da porta que a Apple abriu e que, como fogo sobre gasolina, alastrou ao Facebook e ao Google e à Microsoft e, bem assim, a todos aqueles de entre nós cujas mãos passam de teclado em teclado, acompanhados 24/7 de programas agora sempre ligados, sempre assinalando a nossa posição no mundo e na vida, dando conta das nossas acções, estados de espírito, etc.

A Apple pode até dizer-nos Think Different e prometer-nos que 1984 não será como 1984, e a Google pode repetir – repetir até acreditar − no seu Don’t Be Evil, mas tudo, hoje, das apps às redes sociais, gravita em torno de uma certa ideia de transparência radical de que Zuckerberg, afinal, sempre foi partidário: a ideia de que tudo será mais seguro quanto mais público tudo em nós for.

Nos últimos meses, rebentaram os escândalos da vigilância. Por Edward Snowden, a NSA e o seu programa de vigilância alargada, mundial, o PRISM, ficaram expostos à luz do dia. E-mails, mensagens telefónicas, chamadas, fotografias, conversas de Skype… Do ponto de vista tecnológico, nenhum entrave se põe aos serviços secretos de informação, e cedo se percebeu que as malhas da rede não tinham apenas dimensão para apanhar os peixes mais graúdos do terrorismo internacional. Como na pesca de mar, na informática também se apanham os cidadãos anónimos – menos anónimos, então −, e com a mesma singela facilidade se vigiam governos estrangeiros. Depois dos EUA, em França revelaram-se as mesmas práticas, e se a técnica o permite, podemos estar seguros da insegurança da equação: daqui em diante, de que todos somos potenciais alvos de vigilância. «One Nation under CCTV.»

McLuhan alvitrava, certeiro, que o meio é a mensagem, mas é necessário pôr a hipótese — nem que seja para efeitos de choque e desafio — de que a nossa conversão em servomecanismos obedeça aos diferentes graus do nosso compromisso ou submissão. Ultimamente, acredito que poucos ou nenhuns serão os refúgios resistentes às radiações gama da rede, pois que a rede não é imbecil, e essa arquitectura material obedece aos seus ulteriores propósitos. Não é possível escapar à queda na rede, seja pelo ir ao multibanco, entrar num centro comercial, usar uma auto-estrada, abrir uma app. A rede, como a seita na música do Rui Veloso, tem um radar que apanha tudo no ar. E é disso que se reveste a sua totalidade, a realidade particular das partículas que compõem e habitam toda a hiper-realidade que somos e onde nos deslocamos e da qual já não é possível, nem mesmo recomendável, escapar.

O comboio corre atrás e nós não saímos da linha — sobretudo, é preciso que não nos apanhem fora-da-linha, ou da lei. Acabaremos, talvez, encostados à parede, mas enquanto o nariz da locomotiva não nos roça os fundilhos das calças, há decisões que ainda podemos tomar, informações que podemos esconder das malhas piscatórias do Zuckerberg e da restante famiglia, dos governos e dos seus serviços de informação e segurança, mas também uns dos outros, porque as fronteiras são conceito hoje sem sentido, e as definições de privacidade são muralhas de algodão para quem desejar deitá-las abaixo.

Converteram-nos em voyeurs, em polícias uns dos outros, e nós encontrámos prazer na missão. Era essa, afinal, a única forma de a suportar. «A polícia inclui tudo.», disse-nos um dia Foucault, e tinha razão. «No mundo virtual, somos todos criaturas iguais.», tentou Bill Gates fazer-nos crer, mas estava errado.

De algum modo, não esqueço nunca uma frase dita por uma das personagens principais da série televisiva Sob Suspeita, que aqui parafraseio: Os serviços de vigilância sempre tentaram obter informações variadas sobre os indivíduos, até que perceberam que as pessoas estavam dispostas a fornecer essas informações, e muito mais. Criaram-se assim as redes sociais.

Não há motivos para espanto nem para desconfiar da razoabilidade da asserção. A ficção é muitas vezes mais honesta do que o real.

GOSTOU DESTE ARTIGO? ENTÃO ENTRE EM https://www.facebook.com/palavrasaoposte, CLIQUE ‘GOSTO’ E ACOMPANHE OS ARTIGOS DIÁRIOS DO PALAVRAS AO POSTE! 

Hugo desenho 4sc2Hugo Picado de Almeida

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s