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parlamento2A realidade que todos nós conhecíamos foi hoje confirmada pelo Eurobarómetro: apenas 9 em cada 100 portugueses acreditam nos partidos políticos. A confiança dos cidadãos nas organizações que comandam o destino do país está a cair a pique por terras lusas, tendo o valor percentual decrescido para metade do registado em 2002. Portugal é já o sexto país europeu com índices mais reduzidos neste capítulo, mas quem conhece a realidade nacional apenas pode colocar uma questão: como é que ainda existem tantos portugueses a acreditar nos políticos?

Se efectuarmos uma conta com números redondos tendo em conta estes dados, verificamos que nos cerca de 10 milhões de indivíduos residentes em Portugal existem pelo menos 900 mil que confiam nos partidos políticos. Quase um milhão de pessoas que têm presente na sua consciência a ideia de que os políticos são indivíduos sérios, credíveis e honestos, capazes de fazer tudo por tudo, até mesmo abdicar do seu próprio conforto, pelo objectivo imperioso da promoção do bem-estar da população. Panorama tão fantasioso tem realmente o seu encanto, mas nem nos desenhos animados ele poderia existir; e como ninguém merece viver na mentira, pena é que falte alguém capaz de lhes dizer: “Não se iludam, meus filhos, os políticos são todos iguais”.

E são mesmo. O senso comum muitas vezes engana, mas neste caso até o mais ambíguo olhar sobre a esfera política nacional o tende a comprovar. Desde um primeiro-ministro que tira a licenciatura a um domingo e se envolve em arranjos para a construção de centros comerciais a um ministro termina a sua formatura sem colocar os pés na faculdade, tudo é possível por terras de Camões. Num país em que a Constituição parece ser encarada como um entrave à governação e a redução do défice sobrepõe-se aos princípios fundadores do estado social, a propagação da miséria pelo povo torna-se um factor sem importância perante princípios económico-financeiros pouco éticos que limitam e condicionam a vida de todos os portugueses.

De todos não, até porque no final das contas somos todos iguais mas há sempre uns mais iguais que outros. Acreditemos que por mais cruéis que os porcos possam ser, os humanos conseguem ser bem piores. A Assembleia da República é um local bem mais conspurcado que qualquer pocilga, habitado por feras assanhadas que mostram as garras perante as câmaras mas que na escuridão da noite unem esforços para caçarem em conjunto a mesma presa e depois sugarem-lhe o saboroso sangue da riqueza por ela produzida. E como os porcos não somos nós, é hábito dizer-se que para bom entendedor meia palavra basta.

A táctica de caça desta classe de predadores furtivos verifica-se não apenas através da incomportável carga fiscal que impõem à população e consequentes políticas de empobrecimento, mas também por via de estratégias muito mais requintadas. Ministros e Secretários de Estado que celebram negócios, concessões e Parcerias Público-Privadas duvidosas com empresas para as quais se transferem anos depois, obras públicas de milhões concedidas por ajuste directo em troca de financiamentos para campanhas eleitorais. Será assim nas Autárquicas que se avizinham, com os intermináveis comícios e cartazes propagandísticos espalhados por cada rua deste pequeno país, e talvez seja esse um dos motivos pelos quais as Câmaras e Juntas de Freguesia se apressam a asfaltar as ruas e colocar passeios e espaços verdes bem bonitinhos em vésperas de eleições. Depois seguem-se as promessas populistas, “mas não se iludam, meus filhos, que os políticos são todos iguais”.

Não adianta fazer separações entre esquerda e direita, a febre do poder é infalível e atinge todos do mesmo modo. Uma febre que é na verdade um desejo insaciável de enriquecer e para a qual não existe antidoto. Talvez a culpa seja da própria natureza humana, e é esse próprio traço característico que faz com que os portugueses não acreditem nos partidos. Hoje são 9%, amanhã serão provavelmente menos. Mas a farsa continua, e se qualquer político fosse confrontado com estas palavras de certeza que diria sem hesitar: “Mentiroso? Eu?”.

diogo-taborda-desenho-e1360007654750Diogo Taborda

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