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A globalização no mercado internacional originou, de forma generalizada, um desinvestimento na formação de atletas e a contratação massiva de estrangeiros, nos destinos onde o dinheiro abunda.

São poucos os países que preferem apostar em jogadores nacionais, contratados a outros clubes ou formados internamente quando há nas carteiras dinheiro fresco para reforços.

O caso mais gritante é o holandês. Ajax e PSV têm equipas talentosas maioritariamente formadas por elementos da formação ou contratados na Holanda, mas isso não lhes permite, como nas décadas de 70 ou 80, sonhar com algo mais do que apenas títulos internos. A concorrência a nível europeu é temível graças ao investimento externo. De registar também, as boas práticas alemãs na aposta em produtos germânicos, coisa que o Joni Francisco já aqui analisou de forma conclusiva. https://palavrasaoposte.wordpress.com/2013/03/05/formacao-leva-alemanha-ao-topo-do-futebol/

O que se passa no mercado russo é semelhante com a descrição que aqui faço do cenário internacional. Um clube inferior que queira tornar-se grande e evoluir gradualmente, precisa da formação e dos jovens talentos de Leste, mas necessita acima de tudo de um investidor com um livro de cheques abastado para pode competir com o poderio financeiro de clubes como o Zenit de São Petersburgo, financiado pela famosa companhia de gás russa, a Gazprom.

Anzhi-MakhachkalaFoi dentro destes parâmetros que surgiu o projecto do milionário Suleiman Kerimov no FC Anzhi Makhachkala, da região do Daguestão. Este investidor comprou o emblema nascido em 1991 e sem grande tradição no futebol com a ideia de transformá-lo num novo Shakhtar Donetsk. O emblema ucraniano também foi comprado por um milionário, mas a diferença é que este é um fanático de sempre pelo Shakhtar e criou um projecto consistente. Hoje o emblema de Donetsk tem há muitos anos um treinador consagrado, um plantel composto por elementos da formação, jovens e elementos consagrados, contratados em mercados de leste – com maior facilidade de adaptação ao rigor ucraniano – diversos craques brasileiros e é um clube vencedor que entusiasma os seus adeptos, com infra-estruturas de primeiro mundo e com a sustentabilidade que lhe permitirá sobreviver ao futuro.

Kerimov, num primeiro momento tinha a ideia de investir cerca de 200 milhões de euros no clube para criar infra-estruturas de treino e um estádio de topo nesta região russa. Contudo os atletas do clube vivem e treinam em Moscovo e apenas se deslocam a Makhachkala para disputar os jogos em casa. Tudo por uma questão de segurança já que o Daguestão é das regiões mais temíveis e perigosas da Europa e do mundo, onde proliferam as organizações terroristas e extremistas islâmicos.

Um primeiro ponto negativo no projecto, já que a cidade afasta, involuntariamente, os jogadores dos adeptos, a verdadeira essência da paixão pelo futebol. Sem esta relação a interacção entre as pessoas que passam a mensagem do clube, de geração em geração, não existe. Por muito que o emblema queira crescer dificilmente vai um dia ser grande.

Kerimov não pensou nisso e muito menos pensou em montar um 11 forte e equilibrado, com boas alternativas de banco que misturasse craques estrangeiros com o que de melhor produz a Rússia.

Para começar contratou 4 brasileiros: o defesa central João Carlos, o médio centro Jucilei, o ponta de lança Diego Tardelli e o famoso Roberto Carlos, que mais tarde seria treinador adjunto e director desportivo do clube. Em seguida investiu em três homens para o lado esquerdo do ataque: o marroquino Mbark Boussoufa, o russo Yuri Zhirkov e o húngaro Balázs Dzsudzsák. Para a defesa chegou o internacional congolês Christopher Samba e para ser o homem golo, ninguém menos do que Samuel Eto’o. Um dos melhores avançados do mundo, que passou a ser o futebolista mais bem pago do planeta com um salário na casa dos 20 milhões de euros, por ano. Cerca de 80 milhões de euros foi o valor despendido para contratar todos estes elementos. Um valor exorbitante para formar uma equipa com alguns craques mas tremendamente desequilibrada. A equipa russa iniciou a era milionária, sabendo que não poderia ter mais do que 6 (actualmente já são 7) estrangeiros por jogo em campo. Sendo que o plantel foi construído quase todo virado para o ataque, mas precisamente para a esquerda, o Anzhi tornou-se nos primeiros anos, uma espécie de Real Madrid galáctico que tinha Pavóns na defesa e Zidanes no ataque.

PFC+CSKA+Moskva+v+FC+Anzhi+Makhachkala+Russian+X2sfiK1ZeBMlA equipa russa só equilibrou o seu grupo de trabalho com a chegada do experiente treinador Guus Hiddink. O holandês, na última época, alcança o 3º lugar da liga, a final da Taça russa e chega aos 16 avos-de-final da Liga Europa. O clube russo começa a formar uma, verdadeira, equipa forte com nomes de peso do futebol do país e craques internacionais. Chegam ao Daguestão o médio francês Lass Diarra, o número 10 brasileiro Willian – grande figura do Shakhtar Donetsk, o central Ewerton (ex Sporting de Braga), o ponta de lança Lacina Traoré – que havia brilhado no país ao serviço do Kuban Krasnodar, os jovens talentos russos Arseniy Logashov, Aleksei Ionov, Aleksandr Kokorin e o consagrado capitão da equipa nacional: Igor Denisov.

Em todas estas contratações, foram gastos aproximadamente 110 milhões de euros. Em Janeiro de 2012 o Anzhi abriu a primeira academia de futebol do Daguestão e em 2013 o seu novo estádio, com capacidade para 30.000 lugares ficou finalmente pronto. Quando o plantel estava mais homogéneo e consolidado, as infra-estruturas do clube a evoluir para um patamar de excelência, surpreendentemente, Guus Hiddink decidiu abandonar o clube. Um mês após ter renovado o seu contrato. O seu adjunto Rene Meuleensten é o escolhido para a sucessão e apenas 16 dias depois é despido para a entrada do russo Gadzhi Gadzhiyev.

É nesse instante que se dá o momento de viragem no clube. Kerimov insatisfeito com a entrada negativa da equipa no campeonato decide colocar o clube em saldos e vender todas as suas estrelas. O projecto agora passa por apostar em jovens russos e baratos.

E se os jovens também não corresponderem? O projecto passa por abandonar o clube? Vender o estádio? Fechar a Academia?

Quando um clube tem muito dinheiro pode e deve contratar craques. Contudo tem de montar uma base entre bons jogadores locais ou com conhecimento do futebol local e craques de fora, sem gastar tudo de qualquer maneira. Isso tem sido feito por exemplo no Mónaco, onde a maioria dos reforços se conhece ou estão familiarizados com a Liga Francesa. Este projecto Anzhi, começou torto, foi aos eixos e tem tudo para acabar mal. Assim como todos os emblemas que têm investidores ao leme com o único propósito de estragar alguns dos seus muitos euros numa brincadeira milionária. Os clubes não podem estar dependentes dos caprichos de indivíduos que não sentem o emblema, não vibram como um comum adepto e não preparam um projecto com cabeça tronco e membros, como Suleiman Kerimov ou o xeque Abdullah Al-Thani, proprietário do Málaga.

Suleyman-Kerimov-AnzhiPor isso o Anzhi não é, e dificilmente será, um projecto vencedor. Kerimov foi ligeiramente empurrado por Putin para colocar o dinheiro que ganhou de forma suspeita, na região que o viu nascer. A forma que o empresário encontrou foi através do Anzhi. Já enterrou na casa dos 300 milhões de euros no Daguestão e não tarda deve abandonar o barco se o clube afundar. A estranha opção de vender as principais estrelas da equipa – algumas contratadas semanas antes – e de reduzir drasticamente o orçamento do clube, supostamente porque teve problemas de saúde ao assistir a mais um desaire do Anzhi, coincidiu com outra notícia interessante. Poucas semanas depois desta reestruturação veio a público um negócio de milhões que não correu de feição a Kerimov. O empresário é procurado pela Interpol que tem um mandato de prisão internacional e caso seja condenado por ficar até 10 anos detido. O russo faz parte do conjunto de proprietários da Uralkali, uma empresa de fertilizantes. Kerimov é acusado de abuso de poder e autoridade oficial pelo seu envolvimento com a Companhia de Potássio da Bielorrússia.

Não creio que este desinvestimento urgente no Anzhi se deva apenas a ligeiros maus resultados. Suponho que quem constrói um estádio, uma academia e investe mais de 300 milhões de euros em cerca de três anos, consegue aguentar mais do que 4/5 jornadas para ter resultados positivos com o clube…

De qualquer forma, esta história só mostra o quanto é perigoso para um clube de futebol estar nas mãos de um investidor que apenas vê o clube como uma rampa de lançamento popular, uma forma de se divertir ou ainda de ganhar dinheiro em negócios paralelos. De um momento para o outro um novo negócio tem de ser feito e um emblema que rapidamente sobe também pode desabar.

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SONY DSCBruno Gomes

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