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Quando há uma pausa numa conversa e o silêncio se instala entre todos, os russos dizem: «nasceu um polícia».

Este é, talvez, sentimento partilhado por todos os povos que experimentaram regimes totalitários; não importa a tonalidade ou as coordenadas políticas dos seus governantes. Mas este é também, porém, anacrónico testemunho de um tempo que já não volta, onde as barreiras eram analógicas, as fronteiras puramente físicas, geopolíticas, e quem algemava e coarctava eram, de facto, os polícias.

Hoje, os silêncios são mais feitos por agentes económicos do que por agentes fardados. Tal é o caso dos livros, ou da cultura, em termos mais latos. Talvez não haja, sequer, necessidade de ou razão para uma geoeconomia cultural, mas é óbvio o pairar ameaçador de uma oligarquia artística sobre os meios da criação.

O país fez fila para ir à Ajuda ver os gigantones da Joana Vasconcelos. E fez bem, ou fez melhor do que nada, mas não se dá o caso de a arte – então a contemporânea − subitamente ter caído no goto da populaça. A comunicação social extasiou-se com a estatística, que sempre lhe foi querida, e desenhou parangonas exultantes com o recorde da exposição temporária individual mais vista de sempre. A Joana Vasconcelos talvez esteja até muito bem, mas é a prova maior de que, para fazer arte, – e disso poder viver – a arte é a parte que menos conta. O trunfo, afinal, é o mesmo de sempre: o investimento – financeiro, publicitário; um e outro são, em boa verdade, faces da mesma moeda. Porque a artista pode até convencer-se de que, como disse, a sua exposição foi um sucesso porque os portugueses se identificam com os materiais usados – isto é, com os tachos e panelas, com as rendas e os ferros-de-engomar −, mas a verdade é que os portugueses se identificam muito com o que vêem na televisão, e tivesse o Berardo, ou pior, o Estado Português financiado qualquer artista com metade da verba com que preencheu o cheque para esta exposição ou para levar o cacilheiro azulejado a Veneza, ou que ao menos lhes apoiasse iniciativas com um anúncio metralheiro no horário nobre da televisão pública, e muito teria a arte em Portugal a ganhar. A Joana e a sua quinquilharia ampliada estão muito bem, são-me até algo indiferentes, e não me interessa debater se ela é arte ou não. Tendo a ser da opinião, como o escrevi um dia, que a arte é tudo aquilo que tem um título e um autor, mesmo aquilo que se intitula sem título e que é assinado por um anónimo.

O ponto pelo qual bato o pé é o critério pelo qual o Estado faz a sua escolha. O que permite escolher a Joana, uma e outra vez, para a Bienal de Veneza, para Versailles, para o Palácio da Ajuda, a não ser o dinheiro envolvido e a promessa do lucro? Afinal, quantos artistas de renome não há em Portugal? E quantos artistas anónimos ou pouco mais do que isso, de enorme valor, não existem no país? Como escolher? Ou mais, porquê escolher? É na escolha, no investimento, que reside parte do seu valor, e o percurso da Joana Vasconcelos não prova senão isso. É o mercado da arte, onde a palavra-chave já deixou de ser a arte.

O Estado fala na portugalidade das peças da Joana, que ajudam a promover o país no estrangeiro. Pode até ser verdade, mas esse é o pior argumento que poderia ser dado, porque é o mais nocivo modo de pensar a arte, porque a despe de tudo quanto ela deve ser (exceptuando-se, no limite, a Bienal de Veneza): assim se torna a arte subserviente, como hoje tudo o resto, aos requisitos da economia. Assim se amordaça a arte, assim se esvazia o seu interesse, valor, e se consegue transformá-la em mera propaganda. Mas sempre foi esse o objectivo.

É talvez verdade que a democracia muito fez pela arte, mas como a tantos outros níveis, a democracia, por se acreditar já cumprida, escusa-se agora a perpetuar a sua missão. Um dos problemas da democracia, sabemo-lo hoje, é afinal o facto de, proclamando-se em vigor, nos alimentar a ilusão de que todos podemos ser iguais e aquilo que quisermos; a ilusão, enfim, de que não vivemos em ditadura económica. As condições para isso estão criadas à partida, mas sempre foi mais fácil fazer um livro proibido escapar ao olhar de um polícia do que convencer um Governo que acha que a Cultura não merece sequer um Ministério a apoiar os artistas do seu país. Mas isso não espanta, nem poderia espantar, num Governo que despreza a generalidade dos seus cidadãos e cuja sobranceria se revela nas adjudicações directas, selvagens. Afinal, elas sempre foram menos sinal da qualidade do agente do que prova dos poderes que se transmitem, como vírus, em sucessões de apertos-de-mão nos passos-perdidos-do-poder.

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Hugo desenho 4sc2Hugo Picado de Almeida

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One thought on “É a arte, senhor polícia! Se for depressa ainda a apanha!

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