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Habituei-me a ver o derby de Manchester como um jogo entre duas equipas desiguais e bastante desniveladas pela diferença de qualidade dos seus intervenientes. Uma espécie de David contra Golias transposta para o futebol. O jogo que vi no domingo passado, no Etihad Stadium, foi mais do mesmo. Só que os papéis inverteram-se. O Golias veste agora de azul celeste e o David surge encarnado na equipa de Moyes… que por acaso é mesmo David.

Moyes, também ele escocês (naquela que talvez seja a única semelhança com o compatriota Ferguson), chegou a Manchester com um enorme ponto de interrogação sobre a cabeça. O antigo técnico do Everton fez um trabalho meritório em Liverpool, colocando habitualmente os toffees em lugar europeu. Mas nos vários anos à frente do clube foi criando um perfil de técnico receoso quando defrontava adversários teoricamente mais fortes. Sempre que enfrenta o Golias, esquece o David que tem em si. O registo manifestamente modesto de Moyes frente aos grandes de Inglaterra espelha um certo desconforto nesses jogos. Seria este o perfil ideal para liderar um clube como o United?

Decorrida meia dezena de jornadas da Premier League, as interrogações adensaram-se. O Manchester United segue no 8.º lugar, com o mesmo número de pontos (7) que o 12.º. E nos dois jogos contra os rivais directos, tivemos o mesmo Moyes e os mesmos resultados de sempre: empate caseiro contra o Chelsea e agora a derrota expressiva (1-4) no terreno do grande rival Manchester City. Mais que os resultados, ficam as exibições. Equipa amorfa e sem ideias, posicionamento demasiado defensivo e entrega da posse de bola ao adversário. Se o Chelsea não soube aproveitar uma excelente ocasião para vencer em Old Trafford, o City não perdeu oportunidade para voltar a esmagar o grande rival.

Sim, Ferguson ainda fez pior em 2011 quando foi trucidado em casa pelo City (1-6). Mas convém enquadrar os resultados: em 2011, o United perdia em casa mas quedava-se no segundo lugar da tabela e jogava um futebol bem mais agradável, tendo apenas perdido o campeonato devido à péssima ponta final e ao golo tardio de Agüero nos últimos segundos do jogo contra o Queens Park Rangers; este ano, a derrota coloca o United a 5 pontos do duo londrino da frente e, pior que isso, espelha um registo exibicional medíocre que tem pautado os primeiros tempos de Moyes à frente da equipa.

Sir Alex Ferguson habituou-nos aos seus milagres. O’Shea só foi jogador nas suas mãos. Fletcher, Park Ji-Sung ou o sprinter Valencia quase pareciam galácticos depois do toque de midas do intratável ex-técnico escocês. A nível táctico, Ferguson não se destacava pela originalidade (antes pelo contrário). Mas essas debilidades e a aparente falta de qualidade de alguns dos jogadores à sua disposição não o impediram de ser campeão vezes sem conta e bi-campeão europeu. À sua maneira, dava a volta à coisa. Algo que, aparentemente, Moyes não tem capacidade para fazer.

O sucessor de Ferguson chegou a Manchester e optou por não fazer grandes cortes com o passado. Percebe-se a ideia de não desvalorizar um passado recente tão recheado de títulos. Mas se David Moyes não tem o antídoto para fazer de uma táctica ultrapassada (4-4-2) uma estratégia vencedora, então a mudança é necessária. Até porque tem jogadores de qualidade no plantel que permitem a adopção de outros modelos. O japonês Kagawa, por exemplo, desespera por uma oportunidade na posição ’10’ que não existe no 4-4-2 que era de Ferguson e agora é de Moyes. Um meio campo com Carrick e Fellaini mais recuados e Kagawa como vértice mais ofensivo serviria muito bem o ataque composto por Rooney, Van Persie e Young, Nani, Zaha ou Welbeck.

Outra realidade – esta sem grandes responsabilidades a atribuir a David Moyes – é a falta de investimento do clube para esta temporada (responsabilidade para os proprietários que parecem mais interessados em arrecadar para os bolsos os sucessivos recordes de receitas). A aquisição (um pouco inflaccionada) de Fellaini no último dia da janela de transferências não esconde a frustração de um sem-número de oportunidades de mercado perdidas. Mesmo com o belga, a zona central do meio campo parece frágil e com intervenientes em número insuficiente. Mais ainda se o United passar a jogar com os tais três jogadores nessa zona. A defesa não convence, sendo que Moyes muito insistiu em Baines para a esquerda. E o ataque é Van Persie, um Rooney ainda contrariado e… todo um deserto.

Cinco pontos de atraso à quinta jornada da Premier League são recuperáveis. Mas para tal o United tem que jogar mais, muito mais. Duas derrotas e um empate em cinco jogos não surgem por simples acaso. Mesmo que os mais optimistas se centrem na história para estar ao lado de Moyes – sete dos treze títulos na Premier League conquistados pelo clube aconteceram com inícios semelhantes; Sir Alex Ferguson estreou-se em dérbis perdendo 5-1 contra os citizens. O novo técnico do United tinha obrigação de já ter feito mais nesta fase e de ter a sua equipa a jogar um futebol mais convincente. Afinal de contas, tem o plantel que foi campeão o ano passado, ao qual juntou Fellaini, Zaha e o jovem Varela. O City assume-se como grande favorito à conquista da Premier. Substituir Mancini por Pellegrini parece ter sido acertado e as exibições, depois de uma pré-época periclitante, são incomparavelmente melhores do que no tempo do técnico italiano. No outro Golias de Manchester, o David parece insuficiente.

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joni_desenhoJoni Francisco

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