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Amanhã é dia de eleições autárquicas. O país vai a votos para eleger os dirigentes locais dos próximos quatro anos e poucos serão os escolhidos dentro do vasto universo de candidatos. De Bragança a Vila Real de Santo António, milhões de portugueses pensam se devem ir votar, se vale a pena, em quem vão colocar a cruz, qual das possibilidades é a menos má. Outros já se decidiram a ficar no sofá lá de casa ou a ir para o café jogar uma cartada com os amigos, até porque São Pedro ameaça trazer chuva e não há nada mais incómodo do que ir até às urnas nestas condições. Se é dito que os políticos são todos farinha do mesmo saco talvez nós também o sejamos; mais de 35 anos de Democracia sob a governação improdutiva dos mesmos partidos e a resposta popular assenta cada vez mais no alheamento político, no conformismo e na resignação. Abstenção?

Confesso que só há meia dúzia de anos me comecei a interessar pela actividade política. Permaneço atento às acções protagonizadas pelos actores políticos pela influência que todas as suas decisões exercem sobre a vida das pessoas. Tenho uma opinião formada relativamente a esta poderosa classe muito semelhante à da grande maioria dos portugueses e fico incomodado com aquilo que vejo. O panorama global do país como é sabido não é animador, mas se fecharmos o angulo da nossa objectiva o cenário não se torna mais reluzente. Se nas autarquias há Isaltinos, Macários e Valentins, no micro-cosmos das juntas de freguesia muitos outros permanecem no anonimato. Apresento-vos então o caso que conheço.

Alfragide, uma pequena localidade situada no concelho da Amadora quase sempre conhecida pelo IKEA e pelo Centro Comercial Alegro. As autárquicas de 2009 ditaram a eleição de uma nova Presidente da Junta, desta feita uma senhora, e o mandato desenrolou-se com relativa serenidade. Uma serenidade quase entediante pela falta de obra cuja necessidade é passível de ser identificada por qualquer habitante local mas que a concretização não se chegou a verificar. Apenas um corte assombroso de uma grande parte das árvores presentes nos jardins, a colocação de corrimões em escadas de rua que sempre existiram, e um aglomerado de funcionários da Junta que todos os dias se concentram num qualquer local em amena cavaqueira. No último período do mandato o ritmo aumentou para inglês ver e as medidas multiplicaram-se: na escola primária a relva foi (finalmente) substituída por um piso duro e o degradado pavilhão desportivo da escola básica foi demolido para dar lugar a um parque de estacionamento. Mas a empreitada decisiva ainda estava para vir, a escassos meses do ato eleitoral, com a requalificação de uma rotunda já existente para colocar no mesmo local uma outra uns centímetros mais pequena, a destruição de passeios para calcetar outros alguns milímetros mais baixos, o alcatroar de passadeiras que a ninguém incomodavam; e assim se passaram largas semanas com tractores, camiões e de certo vários milhares gastos, enquanto a escassos metros dali os balneários do polidesportivo público estão entregues ao abandono e transformados na casa de vândalos e drogados.

Tal como a tantos outros, situações como esta revoltam-me e tiram-me a vontade de ir exercer o meu direito de voto. Apetece-me desprezar toda esta classe de políticos, amigos dos seus amigos e pouco amigos do seu povo, e esquecer-me que eles existem. Podia fazê-lo, mas não devo. Podia abster-me e nem colocar lá os pés, votar em branco ou até escrever uns insultos no simpático boletim, mas não o farei. Dizem-me que a abstenção é uma poderosa forma de protesto, que a possibilidade de os nossos governantes serem eleitos por uma franja de eleitoral constituída por menos de 50% dos cidadãos em idade para votar é vergonhoso para eles e descredibiliza-os perante a Opinião Pública. Tudo isto é verídico, mas ultrapassado o baque momentâneo da tradicional divulgação da enorme taxa de abstenção, os partidos do costume retomam os seus lugares no poder, o sistema prossegue o seu curso vestido de laranja ou rosa por mais quatro anos com os restantes atrelados, e o resto da história nós já conhecemos por experiência própria.

O protesto da abstenção é mudo e limita-se a fortalecer as instituições que há tantas décadas monopolizam o cenário político português. Da direita à esquerda, os partidos com representação parlamentar estão calejados pela insaciável sede de poder e moldaram um sistema à sua própria imagem e em seu próprio benefício, sustentado pelos fantasmas do voto útil e da abstenção. É a centralização de poder que atribui toda esta maléfica capacidade de acção aos partidos políticos lhes confere a impunidade para tomarem medidas tão prejudiciais para a população como as que temos assistido nos últimos anos.

Mas não nos queixemos, não os culpabilizemos, porque se eles lá estão é por culpa própria de todos os eleitores que neles votaram directa ou indirectamente, já que a abstenção ou o voto em branco apenas fortalecem os partidos mais votados. Se o cerne da questão está na excessiva centralização de poder sempre nas mesmas instituições e nas mesmas caras, talvez a solução seja descentralizar, votando nos partidos pequenos sem representação parlamentar. É claro que a grande maioria deles não possui estrutura nem capacidade para fazer melhor neste momento do que aqueles que já lá estão, mas se ganhassem uma crescente dimensão percentual nas eleições talvez pudessem construir as bases suficientes para fazerem frente a médio prazo aos dinossauros que habitam na Assembleia, nas Câmaras Municipais e nas Juntas de Freguesia. A nossa política necessita com urgência de uma lufada de ar fresco, de uma mudança de paradigma capaz de alterar a mentalidade global daqueles que governam os destinos do nosso país. E essa tempestade só pode ser provocada pelos próprios eleitores, através do exercício de um direito fundamental em qualquer sociedade democrática: o voto. E a mudança poderá começar já amanhã.

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One thought on “Autárquicas: um direito, um voto, uma tempestade

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