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Como por vezes acontece ao fim-de-semana, com os protagonistas nos relvados sintéticos do RGB das nossas televisões, com muitas bandeirinhas — sobretudo, é preciso que haja bandeirinhas, serpentinas e festarola — e jornalistas a rodo pelo país, esgrimindo microfones e brandindo perguntas, este domingo disputaram-se eleições. Ou um derby. Mas acho que foram eleições; tenho quase a certeza. Em todo o caso, é cada vez mais difícil distinguir as primeiras do segundo.

Os cânticos dos estádios penetraram nas sedes de campanha. Hinos panegíricos soam pelos salões, insultos resolutos e apupos hirsutos cruzam o ar como tiros de barba rija, slogans sem nexo vão de área a área, de costa a costa, sem verdadeiramente incomodar nem entusiasmar ninguém. De tudo isto, fica a clara sensação de que só falta a ocasional pancadaria entre adeptos para que a política se passe para o lado de cá da poética. Mas não se deixem levar pelo texto; afinal, sou um pacifista.

Como no futebol, assim na política. Os comentadores, facciosos da cor da gravata ao furor da bravata que encenam em defesa dos seus ídolos, nunca da bola mas sempre da carambola, da rosca, do ardil e do desdiz, justificam, muitas vezes a custo da inteligência e do bom-senso dos espectadores, que a equipa da casa nunca perde: o mérito dos uns e o demérito dos outros atirando socos num ringue de lama de onde não é senão razoável sair-se sujo.

O perigo de tudo isto, claro, é o da abstenção, do estádio vazio e do desporto sem adeptos. Porque este desporto não é desporto algum — ou senão para alguns –, mas sim milhões de vidas, dessas coisas que só se vivem uma vez e que merecem, ainda, algum respeito. É preciso, sobretudo, resistir à tentação de proclamar que os políticos são todos iguais. Não duvido de que há os quase impossíveis de destrinçar entre si, mas talvez seja como o Orwell sugeria: os políticos são todos iguais, mas há uns mais iguais do que outros.

É depois do jogo, porém, que tudo pode ficar mais interessante. Em equipa que ganha não se mexe, mas e na que perde? Se há algo em que o futebol podia dar bons ensinamentos à política é no tirar de ilações, no ir e vir de presidentes e treinadores e tudo o que tenha duas pernas para se pôr a mexer daqui para fora. Se o futebol nisso peca é por, por vezes, as tirar demasiado precipitadas. Já na política, nada parece justificar, para os intervenientes, que se tirem conclusões. Tudo se apresenta inconsequente, nada é o bastante para ter significado, nem mesmo uma goleada e os assobios dos adeptos e os lenços brancos ao redor do campo. Há sempre margem, sempre folga, milímetro a milímetro de segundos televisivos medidos como jardas num campo do outro futebol, o americano.

Senso-comum: é na equipa que perde que tudo pode colapsar, e que amiúde colapsa mesmo, mormente se a defesa diz que o ataque é perdulário e o ataque chama à defesa passador, se o capitão nunca quer ser substituído e se o treinador insiste que não há quem respeite a táctica. Mas no PSD parece que a “coesão interna é total”, como o garantiu Marco António Costa, à guisa do jogador que anuncia que no balneário todos estão solidários com o técnico. Acontece, porém, que no PSD a coesão tem uma forma curiosa de se dar. Por exemplo, assim: Aguiar Branco quer os membros do PSD que não apoiaram listas do partido expulsos. Um dos visados, Paulo Rangel, acusa o colega de ser soviético. São, uma vez mais, as idiossincrasias da primeira liga.

Mas não se ponha já o leitor a sorrir de si para consigo com as patacoadas que aqui aplico, porque afinal Marco António Costa reconhece que o PSD é, «por natureza, um partido tolerante». Não é que eu discorde, que não sou para aqui chamado. Quem discorda disso, porém, é também o próprio Marco António Costa, que explicou ao Público que «na “esmagadora maioria” dos casos de candidaturas contra o PSD, “o militante toma a iniciativa de suspender a sua inscrição”. “Quando assim não acontece, o Conselho de Jurisdição, nos termos dos estatutos, trata da questão”.»

Trocando por miúdos, nada de novo, nada de admirável. As coisas passam-se como na Alemanha nazi: o judeu toma iniciativa de pôr fim à vida. Quando assim não acontece, o Conselho de Jurisdição trata da questão. Ou como sob a alçada de Estaline: o dissidente toma iniciativa de não ser dissidente. Quando assim não acontece, o Conselho de Jurisdição trata da questão. Tolerância mais tolerante não há.

Agora é levantar a cabeça. A última palavra é do Mister. Vamos pensar já no próximo jogo. É pôr isto na voz do Passos e do Aguiar, do Marco António e do Rangel, entaramelar-lhes um pouco a fala e ir abanando a cabeça. É só preciso esperar mais umas jornadas até ao próximo derby.

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Hugo desenho 4sc2Hugo Picado de Almeida

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