Home

touroLiguei a televisão e um forte enjoo assolou de imediato o meu corpo. Eram 23h00 de quinta-feira e a RTP1 emitia em directo um espectáculo que desde logo despertou em mim um misto de sentimentos. Via-se uma arena replecta de gente emocionada a aplaudir, mas não se tratava de um jogo de futebol nem mesmo da encenação de um qualquer ritual medieval. No seio do êxtase de todas aquelas pessoas vislumbravam-se animais em sofrimento, torturados por homens armados, numa cerimónia a que chamam tourada. Talvez a desgraça alheia não apoquente a existência humana, mas e se o touro fosses tu?

Segundo os defensores das touradas, se os touros fossemos nós pouca diferença faria. Seria até um privilégio fazer parte de tão alegre festa no papel do corpulento animal, já que a sua robusta constituição física não permite que as bandarilhas cravadas no dorso lhe infrinjam qualquer tipo de dor. Para eles, mesmo colocando a remota hipótese de o touro realmente padecer de algum sofrimento, valeria sempre a pena suportá-lo pela honra que é participar numa secular tradição portuguesa como é a tourada, traço característico da nossa cultura e caracterizador do que é Portugal em pleno séc. XXI. E além disso os bichos aguentam, ai aguentam aguentam, tal como os portugueses aguentam tamanhas afrontas diárias.

É verdade que os touros suportam toda aquela carnificina e dão luta a toureiros e forcados até ao último instante, mas isto não significa que não se importem ou que gostem de ser sacrificados daquela forma. Tempos houve em que escravos eram chicoteados sem piedade e no dia seguinte colocados novamente a trabalhar. Talvez também eles tivessem bom corpo para aguentar a impetuosidade do castigo, mas se lhes perguntassem qual é a sensação que provoca o couro a fustigar a pele ferida a resposta seria óbvia para todos nós, e nem é preciso recuar 300 anos.

Consideremos então esta comparação, leve pelo facto de o chicote não provocar os mesmos danos que um arpão afiado, como base para uma reflexão sobre o fenómeno das touradas. O sofrimento infligido aos animais por esta prática é um dado adquirido e óbvio até aos olhos dos aficionados, e é esta a variável central de toda a discussão. A legislação portuguesa, através do Artigo 1.º da Lei 92/95 de 12 de Setembro relativo à Protecção dos Animais, decreta que “são proibidas todas as violências injustificadas contra animais, considerando-se como tais os actos consistentes em, sem necessidade, se infligir a morte, o sofrimento cruel e prolongado ou graves lesões a um animal.” Este princípio, mesmo que analisado por si só, deveria ser suficiente para proibir expressamente as touradas em território nacional, mas não o é. E não o é pelo simples facto de as nossas leis relativas a esta temática estarem mal construídas desde a sua raiz. O facto de haver legislação específica para a proibição da violência contra os animais edifica desde logo uma diferença estrutural entre a gravidade presente nos actos de causar sofrimento a um animal ou a um humano. Tal distinção não deveria existir em termos legais, já que tanto animais como humanos são seres sencientes capazes de sentir sensações tais como a dor, a felicidade, o medo ou a ansiedade, e toda a legislação deveria ser construída tendo por base esta condição de igualdade, punindo de igual forma aqueles que violentam seres humanos ou animais.

Não se trata aqui de retirar valor à vida humana, cuja protecção deve ser defendida em todas as instâncias, mas sim de deixar de encarar os animais como “coisas” para que a sociedade os possa passar a percepcionar tendo por base o princípio de dignidade que todos eles merecem. A superioridade cognitiva do Homem relativamente a todas as outras espécies vivas não lhe atribui o direito de as submeter práticas humilhantes e dolorosas, mas antes confere-lhe a responsabilidade e a obrigação de as proteger. Situados em 2013, urge a necessidade tomarmos consciência de princípios tão fundamentais como este e extinguirmos de uma vez por todas tradições absurdas que apenas enegrecem e envergonham a cultura de um país que se pode orgulhar de ter sido o primeiro do mundo a abolir a pena de morte.

Vejamos a realidade por este prisma para que saibamos valorizar com orgulho as virtudes do nosso extenso passado e possamos relegar para a guilhotina os podres de tudo aquilo que de desumano soubemos fazer ao longo de séculos. Não há tradição que por mais antiga que seja justifique a promoção consecutiva de atentados contra aqueles que connosco habitam este planeta. Até porque, no final das contas, e se o touro fosses tu?

GOSTOU DESTE ARTIGO? ENTÃO ENTRE EM https://www.facebook.com/palavrasaoposte, CLIQUE ‘GOSTO’ E ACOMPANHE OS ARTIGOS DIÁRIOS DO PALAVRAS AO POSTE! 

diogo-taborda-desenho-e1360007654750Diogo Taborda

4 thoughts on “E se o touro fosses tu?

  1. Acho que escreves bem , mas sem conhecimento de causa, e quando acontece isso normalmente acabamos por cair no ridículo, sou um defensor dos animais e aficionado desta cultura e arte(que muitos abominam) no entanto acho muita graça às incongruências por vocês apresentadas, eu pergunto se tiveres um bichinho voador de volta de ti durante a noite, e por acaso este te incomoda , o que fazes??Matas-o ou deixas-o viver?? Uma outra pergunta, gostas do circo??vais ou já foste ao circo? sabes o que é um touro de lide??sabes que tipo de alimentação e cuidados é necessário ter com estes touros??Acho bem que todos expressemos a nossa opinião mas pelo menos evitem falar sem saber, querem reclamar , protestar , barafustar ?? Vão para as seguranças sociais protestar contra a precariedade dos serviços, isso que realmente é o importante , já ninguém se preocupa…Fique bem

    • Todos os “cuidados” de que fala são providenciados aos touros com o simples intuito de alimentar o negócio das touradas, promovendo posteriormente a carnificina que se verifica nas arenas. A preocupação dos criadores é apenas que o animal esteja nas condições ideais para que possa dar luta a toureiros e forcados à medida que é massacrado consequentemente. Quanto ao circo estamos de acordo, este é mais um triste exemplo de como o homem em pleno séc. XXI continua a castigar e a humilhar os animais sem necessidade alguma. Já a questão do mosquito parece-me carente de pertinência. Não pode haver comparação entre um touro que é levado à força para uma praça onde lhe cravam bandarilhas no dorso e um “bichinho voador” que vem atacar alguém que pretende dormir: é a diferença entre atacar e ser atacado. Ser defensor de animais e apologista de touradas é uma incongruência clara que necessita de reflexão profunda por parte de quem assume tal posição. A cultura portuguesa tem na sua essência outras tantas coisas mais que não as touradas, e se “arte” é provocar sofrimento em animais então eu não faço parte dela.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s