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Caro Jorge,

Permite-me que te trate assim, neste jeito pessoal e desprovido de formalidades. Penso que no Benfica a simplicidade de relações deveria marcar a diferença e que um adepto se pode dirigir ao seu treinador desta forma. Não por falta de respeito, mas porque te prefiro ver como um amigo, tal a familiaridade que sinto com a tua personagem. É que já lá vão quatro anos a ver-te no banco, com esse jeito peculiar de comandar e essa forma autêntica de conferenciares connosco.

Lembro-me perfeitamente, do final da época de 2008/2009, quando o Benfica anunciou a tua contratação. Estava eu farta de tentar falar em espanhol com o Quique Flores (que se encontrava mais preocupado em “sacar” a irmã do Fehér, do que em entender as verdadeiras necessidades da equipa), quando recebi a novidade feliz, de passar a ter um treinador português, uma escolha fiável e por mim ansiada. Paralelamente, foi bom “roubar” ao Sporting de Braga (clube pelo qual não tenho especial apreço) o melhor treinador em activo no campeonato português, na época. Já me havias conquistado quando defendias o azul, em Belém, mas marcaste a diferença como aposta encarnada, quebrando uma certa tendência errante na escolha de técnicos, que se vinha fazendo há algumas épocas, para os lados da Luz.

Não fosses tu apenas uma crença minha, tornaste-te rapidamente numa confirmação para todos nós, benfiquistas, ao festejar um campeonato na tua época de estreia. O Benfica tinha mudado e encontrado o seu rumo. Era mesmo de ti que precisávamos. E, por isso, o troféu ganho em 2009/2010 é tão importante para a minha memória encarnada. Por isso, e porque foi o último.

Penso que é altura de te agradecer. Sim, quero agradecer-te. Foste, sem dúvida, o melhor treinador da história do meu Benfica. Não estou a exagerar, nem sequer a afirmar que foste o melhor técnico da história do clube. Existe uma realidade paralela e complementar, para além da história dos registos e dos troféus de um clube. E essa, é a história de cada um de nós, adeptos, que sentimos um clube e o apoiamos. Cada um, com as suas crenças e preferências, vai construindo o seu Benfica. O Benfica do seu tempo e não do tempo dos outros, que o contam e pintam a preto e branco.

O que quero que retenhas, caro Jorge, é que me identifiquei contigo. De todas as figuras que presenciei no banco, foste, sem sombra de dúvida, aquela que mais me fez acreditar. Primeiro, porque me apresentaste o conceito de continuidade e, com isso, a hipótese de construir um Benfica mais estável e sólido. Estava habituada a ver um espectáculo massacrante e ridículo, que era o da estreia constante de treinadores condenados ao insucesso. Depois, porque começámos a desbravar alguns caminhos que eu desconhecia. Falo-te do palco europeu e das prestações honrosas que íamos acumulando. Isso fez-me depositar em ti, e nos pupilos que ias comandando, esperanças de troféus e ânsias de comemorações. Imaginava-te a comemorar, connosco, uma década de sucessos.

Imaginava-te. Já não imagino mais.

Não quero que encares este desabafo como apenas mais um, como tantos que te deves ter habituado a ouvir. Porque este não é apenas um desabafo de um adepto. É um desabafo de um adepto que te apoiou, incessantemente, quando a maioria preferia ver-te pelas costas. Um desabafo de quem sempre defendeu a tua continuidade, em prol do bom futebol e em défice de vitórias. Que aguentou a tua teimosia em escolhas claramente erradas e, mesmo assim, fechou os olhos. E te defendeu, mesmo quando sabia que os outros estavam certos e que podias não ser assim tão essencial.

Depositei demasiado em ti. E é por isso que me sinto apta para te pedir, de teimosa para teimoso: faz as malas. Parte.

Se a vida é feita de ciclos, a vida nos clubes é ainda mais. É preciso coragem e reconhecer quando virar a página, quando deixamos de ser importantes e quando é necessário partir. É doloroso. A sensação de que podíamos dar mais, de que se continuássemos existiriam melhoras. Mas, afastando-nos das eventualidades, e aproximando-nos da realidade, o teu tempo acabou. Chega de tentar mostrar que tens razão. Que sabes o que fazer, porque as consequências começam a pesar. Não nos faças carregar os maus resultados da tua teimosia.

O jogo com o PSG, da última quarta-feira, vai ficar marcado na minha história pessoal. Foi o dia em que caiu sobre os meus ombros a cegueira que tinha em relação às tuas capacidades. A convicção de que só existias tu, como ser capaz de nos levar às vitórias. Porque sempre que pensava na tua saída, pensava no teu substituto. Aprendi, tarde demais, que mais importante que a próxima cara, é vermo-nos livre da tua.

Desculpa a frieza. Sentirei saudades da tua cabeleira, do teu maxilar imparável ao som da chewing gum e do teu charme linguístico e intelectual. Tenho medo do futuro do Benfica sem um substituto à altura. Tenho medo que voltemos à colecção de técnicos incapacitados. Mas, por agora, tenho mais medo do nosso futuro contigo.

Para terminar, aproprio-me das palavras proferidas, há dias, por aquele que podia ser o teu actual presidente, Rui Rangel: «O Jorge Jesus é um belíssimo treinador, mas o seu prazo de validade terminou na época transacta. Agrava-se mais o problema porque não há atitude. O problema não está em perder, mas o que temos assistido é que não tem havido garra. Além de haver opções que denotam algum desnorte e que o próprio Jorge Jesus perdeu chama e alma em relação ao Benfica».

Reflecte sobre tudo isto. Fico a aguardar, impacientemente, pela revelação da tua sensatez. Em prol de todos nós. Em prol do Benfica.

Atenciosamente,

Mara Guerra

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Mara desenhoMara Guerra

* Autora do «Visão Curta» e colaboradora do «Palavras ao Poste»

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One thought on “Carta aberta a Jorge Jesus

  1. Belo texto fadado já de saudade de alguém que ainda não partiu. Bonita homenagem a quem, em 3 anos, acendeu a chama a chama imensa apagada no coração dos adeptos. Experimento a estranha sensação de que a orquestra desafina e a culpa não é do maestro…Memórias de jogos, a perder tudo no fim, como num bailado imenso e, em êxtase, o bailarino cai no seu ultimo movimento…Guardo sempre as imagens até esse momento.

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