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Começou este ano a UEFA Youth League, uma versão da Liga dos Campeões para juniores mas que ainda tem vários aspectos a limar. Não faz sentido, por exemplo, o paralelismo estabelecido entre seniores e juniores na elaboração da fase de grupos visto que, se por um lado é verdade que permite menos despesas aos clubes, por outro acaba por não premiar as melhores formações. Isto é, jogam na UEFA Youth League os clubes com equipas principais fortes. E isto faz com que importantes casas de Formação europeias, como são os casos do Sporting, PSV Eindhoven ou Inter de Milão, fiquem de fora do leque de participantes porque as equipas principais não conseguiram o apuramento para a prova milionária.

O caso do Benfica nem se enquadra neste quadro de uma certa ‘injustiça’ para com os miúdos, visto que os encarnados foram campeões nacionais no escalão júnior na última temporada. O mesmo se aplica ao FC Porto e à sua classificação final no último campeonato sub-19. Devia, aliás, ser essa a competição que em todos os países daria acesso à UEFA Youth League. E devia a fase de grupos ser sorteada de forma independente, porque os clubes cabeças-de-série no escalão sénior não são obrigatoriamente os mesmos com as melhores Formações.

Dito isto, vou ao que realmente interessa. E começo por dizer que para os responsáveis do Sport Lisboa e Benfica – leia-se dirigentes e equipa técnica – esta competição não está a começar propriamente bem. E não começou bem precisamente porque os miúdos têm estado bem demais… Confuso? Passo a explicar: na Luz existe esta ideia generalizada de que apostar na Formação é um risco desnecessário. E ao não se apostar nos frutos do Centro de Estágios do Seixal, o clube passa a ideia de ver nos jovens pouco talento para outros voos. São vários os exemplos de talentos promissores que passaram pelo Caixa Futebol Campus nos últimos anos e que acabaram por sair, sem que nunca lhes tenha sido dada uma oportunidade. Já uma vez neste espaço elogiei a evolução clara na formação de jovens futebolistas por parte do Benfica (https://palavrasaoposte.wordpress.com/2013/06/04/o-voo-das-jovens-aguias/). Os resultados nos mais variados escalões mostram-no. E agora, também fica evidente nas prestações da equipa sub-19 na UEFA Youth League ou do Benfica B na Liga2 Cabovisão. Mas vale a pena ter Formação só para se conquistar uns títulos jovens e para se dizer que ela existe?

O virtuoso Romário Baldé é um dos destaques nos sub-19

Na UEFA Youth League o registo, para já, é de dois jogos e outras tantas vitórias. Mais que os resultados (3-0 ao Anderlecht e 4-1 ao PSG), ficaram na retina as exibições contra as escolas belga e francesa, famosas pelos miúdos que fazem germinar ano após ano. E ficaram na retina uma mão cheia de jogadores que um dia, muito provavelmente num outro clube, brilharão. Os extremos Romário Baldé e Nuno Santos, os médio Estrela e Guzzo, o central João Nunes, o lateral esquerdo Rebocho… O jogo em Paris, transmitido apenas pela televisão oficial do PSG, valeu aos miúdos muitos elogios dos comentadores franceses, de certa forma surpreendidos pela qualidade de uma formação que tão poucos produtos tem dado à equipa principal do Benfica. Entre muitas outras coisas (francês não é o meu forte), o nome de Rui Costa surgiu por mais que uma vez. Possivelmente como exemplo único de peixe graúdo saído destas escolas nas últimas décadas.

No Benfica B, muito mudou na transição do ano passado para este. Também já aqui tinha falado, em tom crítico, sobre a estratégia adoptada pela estrutura encarnada para a equipa secundária (https://palavrasaoposte.wordpress.com/2013/02/19/um-benfica-sem-plano-b/). Felizmente, parece que este ano a aposta recai maioritariamente em jovens oriundos da formação (na maior parte dos casos no primeiro ano de sénior) ao invés dos desconhecidos provenientes das mais exóticas paragens. E, mais que os resultados, mudou o estilo de jogo da equipa. Hoje, vale muito mais a pena ver esta equipa jogar que a equipa sénior. Vale muito mais ir a um jogo no Seixal que ao Estádio da Luz.

Ivan Cavaleiro vai mostrando qualidade na equipa B

Muitos dos que integram a equipa B não terão a carreira que um dia se esperou deles. Mas há outros cuja qualidade não engana. Mais cedo ou mais tarde, estarão a brilhar em importantes palcos. Bernardo Silva, Ivan Cavaleiro e João Cancelo são os expoentes máximos. Três jogadores que já deviam treinar regularmente com a equipa principal e que deveriam ter oportunidades já esta temporada. Mas para isso, seria importante não ter um plantel principal com perto de 30 jogadores. Para as faixas ofensivas, Salvio, Gaitán, Markovic, Sulejmani, Ola John e Enzo Pérez estão à frente de Ivan Cavaleiro. Mesmo que uns estejam lesionados e outros pouco mostrem. Mesmo que um deles seja adaptado quando é evidente que faz manifestamente mais falta no miolo que na faixa. Se Ivan Cavaleiro não teve oportunidade com a onda de lesões que assombrou os extremos do clube encarnado, é difícil acreditar que venha a ter alguma vez durante esta temporada. Se Bernardo Silva nem sequer é visto como uma possibilidade para colmatar a falta de criatividade do meio campo encarnado enquanto Djuricic não mostra o que vale, que esperanças pode ter? Se João Cancelo não tem uma oportunidade quando Maxi Pereira parece um lateral de distrital e André Almeida vai alternando exibições razoáveis com outras pouco conseguidas…

Hoje, ninguém pede que estes jovens entrem directamente para o onze titular encarnado. Talvez se um dia tivéssemos a oportunidade de vê-los jogar uns minutos na equipa principal, as opiniões poderiam mudar. Mas a mentalidade existente é a de que um jovem português nunca está preparado, pode sempre falhar. Tenha ele 17 ou 21 anos. Já para os sérvios, brasileiros ou argentinos olha-se para a qualidade (e nalguns casos vê-se muito mal) e não para a data de nascimento. O jovem português pode falhar e comprometer o resultado da equipa. O lateral odiado no Brasil merece uma oportunidade. O lateral proveniente do Lille que quase não sabia o que era uma bola está muito mais preparado, certamente não falhará.

Adnan Januzaj estreou-se a titular pelo Manchester United e marcou os dois golos da vitória

Ainda este fim de semana nos trouxe um caso internacional em que a aposta sem medo num jovem de 18 anos (Adnan Januzaj) valeu ao gigante Manchester United três pontos preciosos na luta pelo título inglês. Bastou-lhe uma oportunidade a titular para agarrar um lugar em definitivo na equipa. Também em Inglaterra, o Arsenal apostou no jovem alemão Gnabry, de 18 anos, depois deste brilhar na primeira jornada da UEFA Youth Cup e nas reservas do clube londrino. O extremo também não deixou passar o comboio, já participou nalguns jogos e já marcou.

E desengane-se quem pensa que é só no Benfica que acontece isto. Regra geral, os treinadores portugueses são medrosos. A Formação só serve, salvo raras excepções, para se recorrer quando deixa de haver dinheiro ou quem coloque jogadores estrangeiros nos clubes. No Dragão, por exemplo, as coisas não são mais fáceis para os jovens. E lá, como no Benfica, também há qualidade na Formação. O lateral Rafa, ou os médios Tomás Podstawski e Tozé que o digam. Serve isto para vos contar uma outra história. Há uma semana passei pelo Seixal para assistir ao Benfica B-Moreirense. Por lá encontrei Rui Jorge, seleccionador nacional de sub-21. No final do jogo, alguém se aproximou do jovem técnico e perguntou-lhe se miúdos como Bernardo Silva ou Fábio Cardoso não estavam já prontos para a sua equipa. “São de outra geração, ainda são novinhos”, respondeu Rui Jorge. Moral da história: o primeiro critério de escolha é a idade, não a qualidade. Entre um jogador talentoso de 19 anos e um razoável de 21, é o segundo quem acaba convocado.

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