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Tropeçando premeditadamente em entrevistas do filósofo esloveno Slavoj Zizek, senti fosforescer, pela argúcia tenebrosa do seu palavreado, alguns clarões de exímia luz sobre meu humilde negrume – que é da interpassividade? O conceito, cunhado por Robert Pfaller, aponta para o acto de delegar, noutro ente, o próprio acto em si bem como a decorrente fruição inerente à acção delegada. A explicar passo, recorrendo ao repetitivo mas tão sempre sagaz e certeiro exemplo de Zizek: o leitor senta-se no sofá, assistindo a uma série de comédia depois de um estafante dia; à medida que as piadas se vão sucedendo, o chamado «canned laughter» (gargalhadas artificiais) vai entoando o ritmo cómico – e alegre – que o leitor (neste caso tornado espectador) teria que ter mas que, com a mediação deste, não precisa de empenhar. Os risos falsos substituem a performatividade do espectador, que não precisa de se rir – a televisão reproduz a obra e ri-se de si mesma, poupando-nos ao trabalho de o fazer, através de um médium no qual delegamos a nossa passividade (neste caso, o acto de contemplar a série). Ou imagine então nova situação: o leitor quer visionar um documentário que lhe interessa; programa a gravação do mesmo e vai à sua vida, para voltar, mais tarde, e guardar a gravação na prateleira com a profunda satisfação de quem, aparentemente, viu de facto o dito documentário – como se o vídeo-gravador o tivesse visionado por si. Terceiro exemplo, para finalizar a ilustração: o leitor descarrega da internet um filme e, em vez de o ver, deixa-o pacificamente na pasta dos «downloads», como se o facto de o ter descarregado por si só o tornasse mais familiar ou, de certo modo, que o seu conteúdo já não tivesse segredos, ainda que restasse sem o visionamento do leitor – como se o computador o tivesse descodificado por nós simplesmente por tê-lo sacado.

Em todos os três casos apresentados, existe, apesar da mediação, uma sensação de saciamento causada pelo aparente fruir das coisas, ainda que tal passividade seja levada a cabo por outrém que não nós: seja no caso do «canned laughter», do vídeo-gravador ou do computador. No primeiro, assistimos à comédia e experienciamos a sensação de nos termos divertido tanto como se de risos próprios se tratassem; no segundo, acalma-nos a sensação de termos gravado o documentário que logo é catalogado como visto; no terceiro o mesmo se repete com o computador, que nos substitui na posse e no conteúdo do ficheiro fílmico. Dir-se-ia, em jeito de inaugural conclusão, que é a máquina ou o objecto a apreciar o fenómeno, o espectáculo, o acto prazeroso ou a acção envolvente, em vez de nós. Somos apartados da nossa passividade, desimpedidos da obrigação de nos divertirmos – em vez de sermos activos através do outro (desempenho de uma tarefa laboral específica sob mediação da máquina que nos substitui, por exemplo) passamos a ser passivos através do outro, ou seja, delegamos no outro o cariz fruitivo da nossa experiência. Existe no conceito de interpassividade uma demarcada sensação de falsa actividade que, suscitando variadas ramificações e derivações analíticas, a mim me despertou a seguinte questão: estaremos nós sobrecarregados com significâncias floridas dos mais reprodutíveis nadas, parafernálias imagéticas infindáveis, mediatizações metralhadas e conteúdos massivos que nos maçam e nos esgotam a habilidade de gozar?

Se contra a indulgência e em nosso próprio detrimento o fazemos, então certamente que a resposta será sim. Existe um transbordar performativo que exige delegação de passividade, e não só – somos a era desse «franchising» até na esfera cívica, social e política. A segunda questão que me nasceu foi: constituirá o aparelho político-económico contemporâneo ele mesmo uma complexa rede de mediações entrecruzadas, que relegam o cidadão para fora do fenómeno de fruição do processo democrático? Pensei. Estará esse mesmo processo «sequestrado» pela interpassividade delegada, onde a máquina operante nos substituiu enquanto cidadãos, progressivamente nos deslocando para longe do «espectáculo» participativo, produzindo o conteúdo e rindo da sua própria efectividade ostentatória? Suspirei de alívio, acometido pela fineza rotunda da hipótese – sim e sim, embora a resposta afirmativa à primeira questão não deva, em minha opinião, legitimar a segunda resposta afirmativa. Porque prioridades existem. Mas sem dúvida que o espectro político e económico, aparafusado na mediação oportunista da nossa delegação, ganhou-nos o totalitarismo da experiência cívica e da participação política. Essa realidade funciona para lá de nós, ou diria, mais precisamente, antes até de chegar até nós. A tal representatividade política, que aqui seria análoga à delegação, representa-se já somente a si mesma, fruindo do deleite tendo em conta o seu estrito bel-prazer. E o eleitorado, tendo em conta os 47% por cento de abstenção nas autárquicas, resta-se com a devida sensação de fruição.

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Bruno Cardoso desenhoBruno Falcão Cardoso

* O autor opta por escrever em desacordo com o Novo Acordo Ortográfico e em respeito para com a Língua Portuguesa.

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