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A sociedade começou a gizar-se, talvez a maior ritmo — de locomotiva e no furor do vapor –, desde os séculos XVII e XVIII, com a revolução industrial, em direcção a estruturas mais estanques, de cabine pressurizada pelos aspersores da política, da economia produtiva, das fábricas e do trabalho ditado, no posto imutável da linha de montagem, e das próprias edificações sociais, inevitavelmente satelizadas em torno dessas mesmas esferas onde a massa se tornou a medida. De então até hoje, e apesar da muito recente ameaça que se lhe tem feito, é notória, e não há motivos que justifiquem o seu negar, a melhoria das condições de vida para a generalidade dos cidadãos, as conquistas e garantias do Estado Social, as mais salvaguardadas condições laborais, entre outros.

Mas se todas as conquistas que modelaram os nossos Estados europeus, ocidentais, até aos últimos anos, transformaram a nossa sociedade actual, inevitável e indubitavelmente em algo mais livre, justo e igualitário do que nos séculos precedentes ou quando comparada com as de outras coordenadas geográficas, ela não cessa de se revestir, porém, de sistemas e configurações que pesam sobre os cidadãos, no seu conjunto, que em diferentes graus os verga e aprisiona e oprime, deixando-os estarrecidos perante a diferença nas escalas de poder, que forçosamente traduzem uma impotência asténica impossível de ultrapassar. Como desejar sequer principiar a alteração de um sistema político? Como fazer frente a toda uma sorte de constrangimentos sociais, das pressões que comandam as nossas carreiras, vidas amorosas, familiares, etc.? Que hipótese de querer viver independente do actual sistema económico?

Hoje, todos gozamos do facto de sermos livres, todos desejamos fazer as escolhas que, como garra numa máquina de feira, nos agarrem e resgatem à multidão descolorida, ponto de vertigem onde a saturação dos corpos se consubstancia na des-saturação das emoções. Somos livres de viajar para onde quisermos, de fazermos o que quisermos, com quem quisermos, quando quisermos. Mas não são poucos os momentos das nossas vidas, esses objectos multiformes e variáveis nas suas réguas de tempo e espaço, em que experimentamos uma determinada desadequação entre o eu e o outro, entre o eu e a sociedade que me envolve. Porque as liberdades expressas esbarram amiúde naquilo que, para o bem e para o mal, se vai colando de geração em geração, diluindo-se nas tradições veladas de um povo.

Este artigo não se inscreve no desejo de aniquilar todos os códigos, nem sequer de prescrever normas ou indicar comportamentos a ninguém. O exercício de substituir um regime por outro regime interessa-me assinalavelmente pouco. O que proponho é um olhar para o existencialismo, e para ele enquanto saída, ou nem sequer isso; olhemos para ele, por agora, simplesmente como uma via de possibilidades sem trânsito.

Porque o existencialismo, ao contrário do que os seus críticos históricos, de comunistas a católicos, lhe apontam, não é uma teoria de pessimismo e apatia, mas uma filosofia de liberdade e desenvolvimento. Ao contrário do que os seus opositores tradicionais lhe condenam, o existencialismo não se atem ao individualismo e, muito menos, se pode confundir com qualquer forma de anarquia ou anti-solidariedade. Ao invés, o existencialismo é uma filosofia de responsabilidade e dirige-se à comunidade, ao outro. Considerando que o Homem não tem essência, isto é, que não é intrinsecamente nem bom nem mau, nem antes de nascer passível de caracterização por qualquer outro adjectivo, pois não é criação propositada de nenhum ser pensante, dotado de um programa, o Homem surge então inteiramente livre, para se tornar simplesmente aquilo em que vier a tornar-se, na confluência entre os seus desejos e as suas acções. Pode e deve desconfiar de tudo, das convenções às políticas, pois que nada o garante senão a si mesmo. Um existencialista não está nunca tranquilo, mas essa é a prova da sua liberdade. Não há signos dos quais partir. Tudo lhe é permitido. Sem amarras, sem preconceitos, sem limites, a não ser com os limites das suas próprias decisões. O existencialismo pressupõe a responsabilidade sobre o outro, porque escolher para mim não é indissociável da recomendação, directa ou indirectamente emergente, para virtualmente toda uma comunidade humana, habitando um espaço ou cultura partilhados.

O acto de escolher para si é sempre um acto de implícita associação de ideias e modos de pensar ao outro. Como o coloca Sartre, tomar uma má atitude e justificá-la perante um “se todos fizessem o mesmo” com a chapada resposta de “todos não fazem o mesmo que eu” não é senão prova de má-fé e da ausência de responsabilidade na acção.

Se sou partidário do existencialismo, se sou um humanista, procuro que as minhas acções o reflictam, e nesse sentido, a forma como ajo sobre quem me rodeia, sobre a minha comunidade, transpira necessariamente esse ideal e opera-se sobre esse ensemble de pessoas e acontecimentos. E é necessário que cada um sinta a sua responsabilidade sobre o outro. Não há acção sem reacção, e devemos estar prontos para aceitar as consequências e efeitos dos nossos actos. E os outros, agindo de acordo com os seus princípios, desejos, vontades, acabam por me enlevar igualmente na forma como vão poetizando o mundo. Sartre dá-nos o exemplo do casamento ou da monogamia. Praticando-os, os indivíduos vão, no acto de escolherem para si, construindo para toda a sociedade uma tradição, uma lógica dominante de fazer as coisas. Tão simples quanto isso.

Muito mais haveria a dizer e esclarecer, é certo, pois que a teoria é rica em camadas e implicações, mas não existe uma pretensão académica neste espaço, pelo que concluo: se há algo que o existencialismo prescreve é a possibilidade de que cada um prescreva para si mesmo os modos que o farão feliz, as acções que permitam a cada sujeito realizar-se, satisfazer-se, sem constrangimentos que não os de uma responsabilidade comum. Cada um deve confiar nos seus instintos, pois nada no exterior aponta destinos ou conspirações cósmicas, nem nenhuma moral alheia pode dar resposta às nossas dúvidas. Essa é a angústia da liberdade, mas ser livre é sempre melhor do que tudo o resto.

Talvez um dos grandes problemas nesta Era da Liberdade, afinal, seja que todos temos receio de escolher livremente. Talvez um dos problemas seja que nos dirijamos em demasia às opções que os outros tomam por sentirmos ameaçada a legitimidade das nossas próprias escolhas.

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Hugo desenho 4sc2Hugo Picado de Almeida

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2 thoughts on “Uma hipótese de liberdade

  1. .

    Anarquismo

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    Anarquismo (literalmente “sem poder”)

    Movimento político que defende uma organização social baseada em consensos e na cooperação de indivíduos livres e autónomos, mas onde à partida sejam abolidas entre eles todas as formas de poder. A Anarquia seria assim uma sociedade sem poder, dado que os indivíduos de uma dada sociedade, se auto-organizariam de tal forma que garantiriam que todos teriam em todas as circunstâncias a mesma capacidade de decisão. Esta sociedade, objecto de inúmeras configurações, apresenta-se como uma “Utopia” (algo sem tempo ou espaço determinado). É um ideal a atingir.

    As origens do anarquismo, entroncam directamente na concepção individualista dos direitos naturais defendida por John Locke. A sociedade para este filósofo inglês era o resultado de um contrato voluntário acordado entre individuos iguais em direito e em deveres. No entanto foi só a partir do final do século XVIII que o anarquismo se veio a estruturar como uma corrente política autónoma, com seguidores em toda a parte do mundo. Entre os seus teóricos contam-se pensadores tão diversos como William Godwin (1773-1836), P.J.Proudhon (1809-1865), Bakunine (1814-1870), Kropotkin (1842-1921) ou o português Silva Mendes.

    A intervenção política dos anarquistas, pouco inclinados à constituição de grandes organizações, embora muito dispersa tem historicamente, tem-se centrado na defesa de seis ideias fundamentais:

    1. Direitos Fundamentais dos Indivíduos. Os anarquistas, como os liberais foram os primeiros retirar das ideias de John Locke profundas implicações politicas. Em primeiro lugar a ideia da primazia do indivíduo face à sociedade. Em segundo, a ideia de que todo o indivíduo é único e possui um conjunto de direitos naturais que não podem ser posto em causa por nenhum tipo de sociedade que exista ou venha a ser criada.

    2. Acção Directa. Recusando por princípio o sistema de representação, os anarquistas afirmam o valor da acção directa do indivíduo na realidade social. Este conceito foi interpretado no final do século XIX/princípios do século XX, por alguns anarquistas, como uma forma de actuação política, cometendo assassinatos de figuras políticas que diziam simbolizarem tudo aquilo que reprovavam ( a célebre propaganda por factos).

    3. Crítica dos Preconceitos Ideológicos e Morais. Uma das suas facetas mais conhecidas pela sua crítica irreverente à sociedade. Com a sua crítica demolidora dos preconceitos sociais pretendem destruir todas as condicionantes mentais que possam impedir o indivíduo de ser livre e de se assumir como tal.

    4. Educação Libertária. Os anarquistas viram na educação um processo de emancipação dos indivíduos, acreditando que por esta via podiam lançar as bases de um nova sociedade.

    5. Auto-organização. Embora recusem qualquer forma de poder, a maioria dos anarquistas não recusa a constituição de organizações. Estas devem contudo ser o resultado de uma acção consciente e voluntária dos seus membros, mantendo entre eles uma total igualdade de forma a impedir a formação de relações de poder (dirigentes/dirigidos, representantes/representados, etc). É por esta razão que tendem desconfiar ou combater, as grandes organizações porque nelas a maioria dos indivíduos tendem a ser afastados dos processos de decisão. Os anarquistas estão desde o século XIX ligados à criação de sociedades mutualistas, cooperativas, associações de trabalhadores (sindicatos e confederações, etc), ateneus, colónias e experiências auto-gestionárias. Em todas estas formas de organização procuram em pequena ou grande escala ensaiar a sociedade que preconizam.

    6. Sociedade Global. Um dos seus grandes ideais foi sempre a constituição de uma sociedade planetária que permitisse a livre circulação de pessoas ou o fim das guerras entre países. É neste sentido que alguns anarquistas, como P. Kropotkin, viram no desenvolvimento das tecnologias de comunicação e informação um meio que poderia conduzir ao advento da Anarquia.

    A defesa destas ideias tem caracterizado o movimento anarquista internacional, ao longo dos seus duzentos anos de existência.

    Carlos Fontes

    Convém rectificar noção de anarquia.

    • Caro Flávio Marques,

      Antes de mais, quero agradecer-lhe a participação e a qualidade do seu contributo.

      Quando, no meu artigo, fiz a referência à anarquia, foi sobretudo no sentido em que a crítica ao existencialismo a considera. Não pretendi discutir os fundamentos da anarquia nem tecer sobre ela qualquer juízo de valor. Usei-a de forma superficial, é certo, na forma comum a que se lhe referem as críticas, mas o objectivo, como pôde compreender, não era o de defender a anarquia e sim o de versar sobre o existencialismo. E, afinal, todo o texto é uma moldura, e por cada ponto que se escolhe abordar, um outro fica, necessariamente, fora de enquadramento, sob pena de qualquer argumento ou direcção textual se tornar impossível, pelas várias estrada secundárias a que se torna necessário atender, como que para blindar toda e cada palavra.

      Mais uma vez, agradeço a sua participação neste espaço. Esperamos continuar a contar com a sua leitura e, sempre que tal desejar, os seus comentários.

      Cumprimentos,
      Hugo Almeida.

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