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Sofro de síndrome de memória curta. Do pensamento apressado e atropelador. Da busca de informação abundante que nunca me satisfaz, nunca me chega, nunca me encontra. E é isso que me aproxima de vós. De vós, indivíduos, que sois filhos da lógica moderna de pensamento. Da logica irónica de pensamento, de quem vive de não pensar, mas de achar que pensa, sobre tudo e a todo o momento.

Presenciamos uma época em que o pensamento, como tudo o resto, é atribuído à importância dos agentes económicos, dos regimes políticos que lhes emprestam cor e do colectivo que lhes obedece, fielmente, enquanto promete revoluções que nunca vão existir. Mas há algo tão, ou mais, importante que isso, na definição da capacidade de pensar do colectivo moderno.

Existe um poder tão disseminado, imposto e preponderante, que é capaz de nos coordenar os pensamentos, enquanto os sincroniza com os nossos pares. Falo-vos dos media e do seu mais poderoso objecto: a sua agenda.

A agenda dos media é, quer queiramos quer não, o comandante da forma moderna de pensamento. Porque, não só define o tema dos nossos pensamentos, como os comanda em termos temporais. Não nos diz só sobre o que pensar, mas quando devemos fazê-lo. E, se num mundo global os temas se acumulam, os media facilitam-nos a tarefa. De forma clara ou imperceptível, apresentam-nos diariamente quais os temas que merecem ser reflectidos e até quando se investem estes de importância suficiente para que neles nos debatamos.

É uma situação confortável, convenhamos. Todos os dias temos novidades quentes nos jornais, televisão e internet. Basta ler os destaques e temos informação que sobre, para nos debatermos interiormente e para debatermos com os nossos pares. Não é preciso saber muito sobre nada. Apenas saber do que se fala. O senso do leitorado faz o resto. Porque amanhã haverá mais, haverá novidade. E o que lemos ou assistimos ontem já terá importância nula.

O que importa perceber na relação ambivalente entre os media e o seu público é onde reside a causa e a consequência. Somos nós, que influenciamos os media na sua definição de temas, baseada nas expectativas do seu alvo? Ou são os media, que nos criam as expectativas necessárias para recebermos a informação que veiculam?

Se este parece um tema demasiado teórico, é imprescindível encara-lo com o sentido prático de espectador, papel a que nos habituámos. A verdade é que não escolhemos, ou pouca oportunidade temos de o fazer, sobre os temas que nos interessam e sobre os quais nos queremos inteirar. Se a especialização dos canais de informação prometia a escolha especializada sobre o que queremos saber, o certo é que esta é tão redutora como ilusoriamente generalista. E, paralelamente, se prometíamos ser espectadores mais atentos e exigentes, fazemos a figura tola, como de «um burro a olhar para um palácio», na forma de encaramos os canais de informação.

Somos, na nossa capacidade de debate e reflexão, o que os media pretendem fazer sobre nós. Quais seres ocos e prontos a encher de informação processada, sob interesses do dito meio da informação. E, por isso, defendo o conceito de «mediapulação» (entenda-se, manipulação por via dos media).

Pensamos sobre os incêndios, quando as matas se destroem, mas, sobretudo, quando os media filmam o desespero crepitante. Quando o assunto é encerrado do lado mais poderoso, arrumamo-lo. Afinal, para o ano teremos que nos debater novamente e as imagens serão ainda mais emocionantes, com certeza. Criticamos a nossa equipa de futebol, quando os media nos abundam de informação decadente, em jeito de pressão irónica; quando as reportagens e intervenções chegam em jeito de julgamento e, já provaram, chegam a a ser capazes de derrubar instituições. Pensamos na crise, não porque a nossa carteira está vazia, dia após dia, mas porque os media nos mostram que não temos dinheiro, futuro ou carteira que aguente o estado global da economia.

E, assim, se desenvolveu a capacidade intelectual do ser moderno e profissionalmente especializado. Que acha que sabe tudo, mas que se esqueceu de descobrir o mais importante. Que é um ser influenciado, dia após dia, e que o permite de espírito benevolente, mas ilusoriamente crítico.

Escrevia Clara Ferreira Alves, há algumas semanas, no Expresso, sobre a morte da cultura literária: «A Europa definha do ponto de vista civilizacional, não por culpa da crise económica ou do crash financeiro mas porque escolheu deixar de pensar e de tolerar quem pense. A ignorância cultural é uma celebração dos novos media e um derivado da sociedade de informação e abundância. O shopping é a catedral e a biblioteca, é o gesto primordial existencialista. O homem como ser que permanentemente escolhe o que adquirir. A supremacia do trash».

Não podia estar mais de acordo. Mas brindo, a todos aqueles que me demonstram que as ovelhas podem sobressair do rebanho e que há ainda quem pense, no que quer e à hora que lhe convém.

Mara desenhoMara Guerra

* Autora do «Visão Curta» e colaboradora do «Palavras ao Poste»

One thought on “Sofremos de «mediapulação»

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