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No último sábado o treinador português Diamantino Miranda regressou a Portugal. O ex-internacional português foi obrigado a abandonar o cargo de treinador do Clube de Desportos da Costa do Sol por ter sido expulso de Moçambique pelo governo moçambicano.

 O seu visto de trabalho foi revogado devido às polémicas declarações que proferiu depois da derrota da sua equipa frente ao Vilankulos. Indignado com a arbitragem e numa discussão em off com um jornalista, Diamantino terá dito: «Todos aqui são ladrões. Vocês são todos uma cambada de ladrões, você e outros jornalistas são pagos por um prato de sopa. Este país não é sério.»

Não sou um fã de Diamantino. Não o conheço e não me agrada nada a forma agressiva como por vezes aborda os temas. Contudo, ninguém pode negar: é um tipo frontal que diz o que pensa, mesmo quando não parece pensar muito sobre o assunto. É inegável que as suas declarações possuem um elevado caracter de verdade. Qualquer cego que acompanhe o Moçambola consegue perceber que as arbitragens não são propriamente normais, coisa que em Portugal se comprova nos campos e no Youtube. Não é preciso ser nenhum génio para perceber que os jornalistas moçambicanos não são propriamente os mais isentos do mundo. A sua expulsão do país vem dar-lhe razão, quando diz que o país não é sério. Um país que faz das declarações de um treinador de futebol assunto de estado mas ignora barões da droga e políticos que enriquecem a vender bananas e capulanas, é tudo menos sério.

E ainda menos sério se torna quando o Governo classifica as declarações do treinador da seguinte forma: «A dignidade, autoestima e a imagem de Moçambique e dos moçambicanos ficaram abaladas com as palavras de Diamantino Miranda, por isso é que este é, desde já, um assunto de Estado e não meramente desportivo».

Diamantino foi grosseiro. Estava há dois anos em Moçambique e já deveria saber que no regime em que está inserido há certas coisas, que publicamente não se dizem. Se tivesse proferido essas palavras num tom diferente, talvez hoje ainda estivesse em Maputo. Mas a verdade é que não mentiu. Simplesmente não vive num país onde se possa expressar e ser punido de forma justa. O treinador errou e merecia uma punição do seu clube, da Federação Moçambicana de Futebol ou da Liga Moçambicana de Futebol – Nunca do governo do país. Esta punição esvazia os poderes das entidades desportivas de Moçambique, revela total falta de democracia e ainda denota uma gritante prepotência governamental. Eu pergunto aos elementos governamentais que abordaram as fatídicas declarações como será que se sentem os moçambicanos na sua dignidade e auto-estima sabendo que coisas tão elementares como educação ou saneamento básico não existem, enquanto os seus ricos governantes se preocupam com as declarações de um treinador de futebol?

Era óptimo que o combate à corrupção também fosse tratado com esta celeridade. Melhor ainda seria se os gulosos que governam o destino do povo resolvessem as suas divergências partidárias e colocassem ponto final no diferendo político que os separa. Mas enfim, parece haver outras prioridades.

Moçambique tem sido entulhado com portugueses que pensam que vão descobrir África e têm comportamentos deploráveis no país que os acolhe. Diamantino é só o bode expiatório de uma luta que não lhe diz respeito. O Governo limita-se a fazer dele um exemplo para aqueles imbecis que abandonam Portugal com a ideia de que vão “recolonizar” Moçambique.

Uma atitude desconexa e que vem ao de cima, também porque o tratamento que as entidades que representam Portugal em Moçambique dispensam aos moçambicanos, não é propriamente famoso. O governo moçambicano quis ser exemplar, mas deu um mau exemplo, mais um de muitos, aliás. Imaginemos que a situação de Diamantino se passava em Portugal a um treinador moçambicano. No final das contas era extraditado para o seu país – como reagiriam imprensa e estado moçambicano? Provavelmente acusando Portugal de abuso de poder e descriminação a um estrangeiro num país anti-democrático.

As suas ofensivas declarações são estupidamente fortes, mas há detalhes importantes a reter. Não basta extraditá-lo, convêm aprender algo com esta situação. As declarações do treinador deviam ser bem estudadas, já que se as pessoas se vendem por um simples prato de sopa ou têm prazer em vender-se ou manifesta necessidade. E quem conhece, minimamente, Moçambique sabe as grandes carências por que o povo passa. Não ficava mal a quem de direito analisar este tipo de privações para que, seja em que sector for, os profissionais não trabalhem cercados por uma nuvem negra de suspeição.

Diamantino esteve terrivelmente mal. Espero que tenha aprendido a lição e pense bem antes de abrir a boca novamente. Moçambique é vista pela comunidade internacional como um mercado em expansão pronto para acolher o progresso. Esta tomada de decisão do governo demonstra um sentido arcaico da liberdade de expressão, esperemos que o Estado evolua e realmente se preocupe com o povo moçambicano. Esse sim, deveria ser a prioridade governamental.

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SONY DSCBruno Gomes

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7 thoughts on “Fora da Lei

  1. Eu já sabia que ias abordar este assunto e é um assunto com muitas abordagens possíveis devido ás suas especificidades e ao alarido todo que criou, que já falamos em privado. Apesar de concordar em grande parte das coisas contigo e é uma punição excessiva e chega a ser ridícula até para as pessoas aqui em Maputo ao ponto de estarem jogadores, adeptos e outros civis no aeroporto a despedirem se do Diamantino.
    Contudo, ao analisar o que se passou para tirarmos essas conclusões todas temos que analisar também o país a sua estabilidade a sua evolução e á sua cultura. É fácil para nós europeus que temos uma cultura democrática perfeitamente estável que se foi desenvolvendo ao longo de séculos até chegar aos ponto que estamos hoje. Desse prisma não podes esperar de um continente que na sua grande parte não tem países independentes á mais de um século que apresente o mesmo nível democrático de países que nasceram á séculos atrás com base já nesses princípios.

    Não estou contudo a desculpar o governo moçambicano nem nada do gênero nem o tenho que fazer, não me cabe a mim nem a nenhum de nós apenas estou a tentar dizer que o assunto não é tão linear quanto isso e que o regime é controlador sempre se soube tu viveste cá e tiveste essa experiência mas também sabes que são coisas com que temos que aprender a viver e ir mudando aos poucos porque a evolução é assim. Não me deixa feliz, nem a mim nem a ninguém mas não foi preciso vir o Diamantino para isto acontecer. Acontece cada vez menos mas sempre aconteceu ele foi apenas um caso mais mediático por ser português e treinador de futebol. Muito bom artigo e muito polémico.

  2. Obrigado aos dois pelos comentários. Acho que disseste tudo Marcos. Não podia estar mais de acordo com todo o teu comentário. O que realmente me entristece nesta história é que quem tem estas tomadas de decisões são pessoas que até devido à sua formação profissional e pessoal deveriam dar um exemplo ao resto do povo. Sendo um caso mediático, tinha tudo para servir de exemplo positivo. E isso não acontece já que esta decisão só vem alimentar uma guerra mesquinha e fazer-nos pensar que estamos a analisar um caso de há 15 ou 20 anos atrás. Mas é como disseste: “Acontece cada vez menos”.

  3. Oi Bruno! Estava a torçer para que o teu artigo desta semana fosse sobre este tema. Não podia concordar mais contigo quando dizes para imaginamos a situação inversa de um treinador Moçambicano em PT.
    Esta foi uma atitude muito infeliz por parte do governo Moçambicano que na minha opinião tem não tem mostrado a mesma “coragem” para resolver as seríssimas situações que afligem ao povo de Samora Machel… Quanto ao Daimantino, também concordo que fez declarações “estupidamente fortes” e não seria nada mau ser mais diplomático no futuro… Talvez ligar ao Mourinho de vez enquanto para discutirem a qualidade dos jornalistas no plano internacional!!!! ☺

    • Acertaste na mosca eheh concordo com tudo menos com a parte do Mourinho. Acho que ele e o Diamantino não teriam muito assunto. O Special One era capaz de dizer o mesmo que o Diamantino em outras palavras e seria levada em ombros pelo proprio governo ehehe

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