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A blogosfera tem destas coisas: quando mais precisamos dela, dá-nos um chuto no rabo. Dei por mim a pesquisar à procura de um artigo que escrevi num blog pessoal há cerca de três anos, no qual antecipava um futuro extremamente risonho para a selecção belga de futebol. Uma nova fornada de jovens que deixava água na boca nos primeiros passos enquanto profissionais. Talvez por falta de actividade, o blogue já não existe, Eram poucos os que me acompanhavam nesse espaço – que teve pouco tempo de vida – mas esses não me deixam mentir.

E queria começar com esse artigo para fugir um pouco à onda tradicional de falar depois de ver acontecer. Seja qual for a temática em questão, torna-se muito fácil dar uma opinião depois da coisa se concretizar. “Foi uma excelente ideia rematar a 50 metros da baliza”, dizem quando a bola já está nas redes; “Foi uma péssima decisão eleger um político”, argumentam, depois de o ver atrapalhado no poder; “Há anos que estava mais que visto que esta Bélgica ia ser fortíssima”, defendem agora, quando o ovo já saiu do rabo da galinha, já está frito e bem acompanhado. Seria tão mais interessante se a generalidade dos nossos ‘paineleiros’ tivesse coragem para assumir compromissos no que dizem. Mas não. Luís Freitas Lobo, por exemplo, gosta de escrever sobre jovens promessas do futebol mundial nas últimas páginas d’A Bola. Lá, os artigos são sempre iguais: o jogador que deu nas vistas é “a nova estrela do futebol da Nova Caledónia. Mas…”. Sim, há sempre um “mas”. Assim, Luís Freitas Lobo tem sempre razão. O jogador tornou-se um craque, ele já tinha avisado. O jogador fracassou, lembram-se do “mas”? Um prognóstico falhado não vos torna menos competentes. Prognósticos no final do jogo? Não, obrigado.

A Bélgica garantiu, na passada sexta-feira, a presença no Mundial 2014. Não conseguia o apuramento para a fase final de uma grande prova desde 2002, quando caiu nos oitavos de final diante do futuro campeão mundial, o Brasil. E de repente, o Mundo acordou para a qualidade desta selecção. Mas a verdade é que há anos que o caso belga devia estar a ser acompanhado. São várias gerações seguidas com jogadores muito acima da média. Na fase de apuramento para o Euro 2012, a Bélgica já contava com um elenco muito forte, embora muitos dos craques estivessem ainda um pouco verdinhos. Ainda assim, havia obrigação de fazer muito mais que o terceiro lugar e os 15 pontos em 10 jogos, com empate no Azerbaijão incluído. Alguém escreveu na altura que a Bélgica, para a qualidade dos seus intervenientes, deveria ter feito muito mais? Não, mas deviam ter escrito.

thibaut-courtois-hairstyles1

A nível de guarda-redes, a Bélgica é das selecções melhor servidas da actualidade. Thibault Courtois, de 21 anos, joga no Atlético Madrid por empréstimo do Chelsea e é o dono da baliza belga. Mas a concorrência é fortíssima: Simon Mignolet (25 anos) chegou este ano ao Liverpool e vem confirmando o estatuto enquanto um dos melhores guarda-redes da Premier League; Koen Casteels (21 anos) é um dos mais promissores da Europa, sendo já titular na forte Liga Alemã ao serviço do Hoffenheim.

Um dos pontos fracos está na defesa: a lateral direita. Durante a fase de apuramento foi Toby Alderweireld (24 anos, Atlético Madrid), central de origem, quem ocupou o lugar, dando mais segurança defensiva do que ajuda no ataque. Mas para o centro da defesa, as soluções são muitas e de qualidade. Vincent Kompany (27) é o elo mais forte, assumindo-se como um dos melhores centrais da actualidade no futebol mundial, apesar dos diversos problemas físicos. Difícil é escolher quem o acompanha no sector central. Thomas Vermaelen (27) foi o que mais vezes ocupou o lugar, apesar de atravessar uma fase menos positiva ao serviço do Arsenal. Mas o experiente Van Buyten (35) pode ser o escolhido para a fase final do Mundial, se chegar lá bem fisicamente e com jogos nas pernas ao serviço do FC Bayern. Lombaerts, de 28 anos e que faz dupla de centrais no Zenit com o português Neto, também tem qualidade mas não deverá ter grandes aspirações a um lugar no onze. A qualidade central é tanta que Jan Vertonghen (26) foi deslocado para a lateral esquerda, posição que conhece bem e que desempenha com qualidade.

O meio campo assusta qualquer opositor. Axel Witsel (24) tem sido quase sempre o elemento mais recuado num meio campo a três. Teve perto de si o gigante Fellaini (26), agora no Manchester United, sobrando o jovem irreverente De Bruyne (22) com liberdade de acção. Foram os três médios com mais minutos na fase de apuramento mas o portista Defour (25) acabou a contenda a titular ao lado de Witsel, libertando mais Fellaini e dando mais segurança à equipa. E ainda há Moussa Dembelé (26), que no Tottenham actua mais no meio campo mas que na selecção costuma ocupar uma posição mais adiantada no terreno. Não será fácil escolher…

Kevin-De-Bruyne-et-Eden-Hazard

Menos fácil será optar pelos elementos do trio atacante. A estrela Eden Hazard (22) parece ser o único com lugar reservado no onze para o Mundial. A esquerda do ataque será sua se estiver fisicamente apto. Até poderemos ter um meio campo mais coeso, libertando De Bruyne ou Dembelé para o outro lado do ataque.

Os virtuosos Nacer Chadli (24, Tottenham) e Dries Mertens (26, Napoli) tiveram semelhante número de minutos no apuramento e são sérios candidatos à direita do ataque. Para uma estratégia mais ofensiva há ainda Kévin Mirallas (26 anos, Everton), que participou em muitos jogos da fase de apuramento, quase sempre saindo do banco. E que dizer de Zakaria Bakkali que aos 17 anos já brilha no PSV Eindhoven e que é, nos dias que correm, um dos mais promissores futebolistas do Mundo? Ele e o luso-belga Ferreira Carrasco (20 anos, Monaco) vão despontando nos clubes e têm legítimas aspirações a um lugar no lote dos 23. Para o eixo do ataque, dois galos para um poleiro: Christian Benteke (22), do Aston Villa e Romelu Lukaku (20 anos), agora no Everton por empréstimo do Chelsea. Se começasse hoje o Mundial, Benteke partiria em vantagem. Veio de uma temporada fantástica ao serviço dos Villans e começou a nova época igualmente em grande forma. Mas Lukaku tem muitos meses pela frente, como titular de um sempre consistente Everton, para mostrar que é ele a melhor solução. No meio de tanta qualidade, nem vale a pena falar de Jelle Vossen (24, Genk) ou De Camargo (30, Standard Liége).

Já agora, para completar o elenco, só falta Adnan Januzaj (18 anos, Manchester United) optar mesmo pela nacionalidade belga.

Admito que nas previsões que fiz há três anos, alguns tiros saíram ao lado. Anthony Vanden Borre era uma jovem promessa do futebol europeu e, mesmo com um primeiro fracasso em Itália, ainda acreditava que estava ali o lateral direito do futuro. Parece que me enganei e que perdeu o comboio, regressando à Bélgica onde se tornou num jogador apenas mediano. Para a lateral esquerda também apontava Pocognoli como um futuro lateral de topo mas também ele não deu o salto. Continua no radar da selecção mas, a não ser que se assuma de vez como lateral de qualidade no seu novo clube, o Hannover, vai ver o Mundial no banco… ou na televisão.

benteke-and-lukaku

Com um número de habitantes pouco superior ao de Portugal, a Bélgica assume-se hoje como uma das selecções mais fortes do Mundo do futebol. Sem exagero, diga-se. Não vale a pena andar com rodeios e não admitir que são candidatos ao título. Com este elenco, menos que uns quartos de final será sempre um fracasso. E quem chega aos quartos, tem legítimas aspirações a levar o caneco para casa. E não vamos cair na tentação de dizer que têm jogadores para chegar ao topo mas que lhes falta experiência nas grandes provas. Não é verdade. Já aqui neste espaço apontei a Colômbia como uma das selecções a seguir atentamente no Mundial (https://palavrasaoposte.wordpress.com/2013/02/12/a-melhor-colombia-da-historia/), podendo ser uma das surpresas da competição. Mas esta Bélgica não pode partir para o Brasil só com o objectivo de dar nas vistas. Quase não tem pontos fracos e conseguia fazer duas selecções capazes de conseguir o apuramento sem grandes dificuldades. Agora, está nas mãos dos jogadores e de Marc Wilmots, que foi um craque dentro de campo e que está a fazer um trabalho notável à frente do seu País.

Mas o que está por detrás desta geração dourada no futebol belga? Não, não foi a sorte nem o acaso. A Bélgica é conhecida pela excelente formação, isso não é de hoje. Mas a verdade é que atravessou um grande poço geracional, sem grandes figuras de destaque durante largos anos. A Federação local não se conformou e reforçou a aposta em infra-estruturas e em apoios aos clubes. A Jupiler League, liga local, é hoje de terceiro plano europeu mas ali não se olha à idade. É das ligas que mais jovens lança todos os anos e mesmo os grandes clubes locais, como o Anderlecht, o Standard Liége ou o Genk, têm uma grande base de jogadores oriundos das suas camadas jovens, que são por sinal muito boas. A perda de atractividade da Liga Belga e a falta de condições para investir em estrangeiros contribuiu muito fortemente para a criação desta onda de novos talentos. E teve ainda um contributo importante o facto de algumas das peças-chave terem deixado o País e a mediana Liga Belga muito cedo. Vermaelen, Vertonghen ou Alderweireld são frutos da escola do Ajax; Hazard saiu cedo para França, juntando-se ao Lille; Kompany fez o mesmo, só que para os alemães do Hamburg. Já para não falar do contributo de um leque cada vez mais multicultural, com jogadores com ascendência do Congo, Martinica, Marrocos ou Mali.

Ainda faltam alguns meses até ao Mundial. Quem sabe se alguém não chuta uma pedra e de lá debaixo sai mais um jovem talento. Já que o vento está favorável, basta ajeitar as velas.

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joni_desenhoJoni Francisco

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One thought on “Os pequenos belgas já são homenzinhos

  1. Joni, parabéns pelo artigo! Aliás, dá gosto vir aqui ao vosso blog ler os vossos artigos.

    Quanto ao texto, gostaria de acrescentar duas coisinhas. Uma é um lateral direito que os belgas têm e que até tem descendência portuguesa/angolana, o Luís Cavanda que joga na Lazio de Roma, no “calcio” italiano. É um poço de energia e tem uma estampa física de central, mas uma mobilidade e velocidade muito elevada. Depois em termos técnicos, não se atrapalha e demonstra gostar de avançar no terreno com ela nos pés.

    A segunda é o tipo que não o tem convocado e que a meu ver, apesar dos excelentes resultados, tem amarrado a equipa em termos do que ela poderá dar ainda mais e no bom futebol que nos poderá oferecer.

    Até pode ser uma forma de Willmots defender um pouco a equipa, equilibrando-a exageradamente. Mas, fica a sensação que podem fazer mais e melhor. Têm praticamente dois jogadores com o mesmo nível para a mesma posição.

    Deixo-vos um link para uma apresentação sobre o trabalho que se fez na Bélgica no futebol. Algo que também já foi feito na França, na Espanha, na Alemanha e que se está a fazer na Inglaterra:

    http://www.slideshare.net/MaxRogers2/the-belgium-vision-on-youth-development

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