Home

Na semana passada, regozijou-se a televisão pública, armando todos os artifícios da exultação, como convém, com a estreia de um estrangeiro formato de entrevista ao Primeiro-Ministro Pedro Passos Coelho. “O país pergunta”, que intitulava a entrevista, supostamente popular, aparentemente livre, deixava desde logo a nesga da porta aberta para que sorríssemos perante o perigo, e, o que não é melhor, deixava ainda entrever a falsa conclusão de um mal-arquitectado silogismo, e a enganadora, fatal promessa: a de que Passos responderia.

O formato que a RTP desenhou não é apenas um formato impossível; é também um formato nocivo. Primeiramente, é impossível porque, de facto, não chegou a acontecer. E é nocivo porque dá a falsa sensação do país ouvido, não mais nem menos do que o ditador que decide convocar eleições para desde logo as forjar. E se não aceitamos um caso, não podemos aceitar o outro.

A entrevista colectiva, de cidadãos anónimos, livremente inquirindo o seu Primeiro-Ministro, frente-a-frente, não teve lugar. Nem poderia ter tido. Por um lado, não se tratava absolutamente de cidadãos anónimos. O público, escolhido sem que se saiba por que critérios, por quem e como foi seleccionado ou, sequer, quando e onde, não servia, na arquibancada dos estúdios, de júri encurralando o Primeiro-Ministro, cercando-o, mas sim de presa, fácil e caçada na armadilha, servida em redor de Passos Coelho como se já fatiada nas travessas de um banquete — pago, sem dúvida, pelos contribuintes. Por outro, e apesar dos esforços da RTP, antes e depois do programa, por publicitar a igualdade entre os intervenientes, como quem anuncia a descida de um deus à terra, em gesto de inigualável benevolência, para dar satisfações aos seus súbditos, o pregão era por demais evidentemente impossível. Não apenas por Passos Coelho ser quem é, para o bem e para o mal uma das principais figuras nacionais — ou talvez mesmo a principal, que Cavaco, como figura, só conta se falarmos do museu de cera da Madame Tussauds –, mas também por toda a construção que se edificava, estanque e esterilizada, atmosfera controlada, ar condicionado ao redor do evento: os seguranças e assessores de Passos, as câmaras e assistentes de realização, a maquilhagem e os microfones, os jornalistas e os anotadores, a postura, os ângulos de filmagem e a ordem das intervenções, os nervos e os papéis… Não se tratava apenas de pôr dominador e dominados frente-a-frente, mas também de os colocar numa tribuna familiar para o Primeiro-Ministro, reinando no centro da selva atapetada e onde os passos, assim como o Passos, foram ensaiados por um plantel que poderia ombrear, ao menos em número, com uma equipa de futebol. Para os demais, os entrevistadores artificiais, jornalistas de geração espontânea, o evento não pode senão ter sido sentido como ringue e arena e ameaça.

O simulacro saiu, pois, triunfante como só ele poderia, e é aí que se radica todo o perigo desta entrevista-aparato. Passos sai do programa — verdadeiro programa, modelo muito bem computado e controlado por probabilidades certas — como se tivesse caminhado não por entre o Mar Vermelho mas no meio da rua, e sem afastar as vagas da população e os problemas que a atormentam. Nada pior: a encenação, a simulação, e tudo o que nela é performativo. Não se engane o leitor. Passos permanece tão afastado da realidade — algo que se notou em diversas respostas, como quando quis saber se uma professora ganhava 1000€ líquidos ou brutos e pareceu pacificado com o facto de tão avultada quantia ser bruta –. como até então, e talvez mais ainda, pois que a amostra que ali se lhe deu foi a realidade enlatada e aquecida no lume brando que domestica os corpos dóceis.

No formato circular do programa, poderemos ter apenas uma certeza: a centrifugadora foi posta a girar, na loucura da própria vertigem, e todos fomos arredados para a circunferência da mentira, colocados uma vez mais — e sempre — na órbita do sistema. E o sistema preserva-se sempre; não se põe à prova. Passos Coelho foi à televisão quando quis, nos moldes que definiu e aceitou, e com acesso ao enunciado do teste de antemão. A suspensão das relações de poder em cena era tão estólida esperança como quase patéticos foram os declarados truques com que Passos procurou empatia, perguntando e até se enganando no nome dos intervenientes, repetindo perguntas e fingindo desconhecimentos sobre matérias menores. Tudo, enfim, como se de um mau filme se tratasse. Passos não surpreendeu, e também isso não se esperava: não desarmou o tom de professor que ensina aos meninos que isto dos mercados, da dívida e do défice é coisa de adultos, muito complicada e maior do que todos nós, demorando-se com a exaustiva explicitação da matéria alvo de questão para se furtar à possibilidade do tempo lhe permitir responder seriamente.

Caso a próxima entrevista do género seja já patrocinada pela Bwin ou pela BetClick, não duvide o leitor por um momento em quem apostar. Regra de ouro: um político não vai à televisão se não souber que ao oponente pagaram, de uma forma ou de outra, para cair ao tapete no final do primeiro assalto.

GOSTOU DESTE ARTIGO? ENTÃO ENTRE EM https://www.facebook.com/palavrasaoposte, CLIQUE ‘GOSTO’ E ACOMPANHE OS ARTIGOS DIÁRIOS DO PALAVRAS AO POSTE! 

Hugo desenho 4sc2Hugo Picado de Almeida

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s