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Aqui jazem, sobre as águas mornas e pacíficas do mar mediterrâneo, milhares e milhares de almas inocentes sacrificadas, pobres foragidos saídos de África e do Médio Oriente à procura, não de melhores condições de vida, antes isso fosse, mas apenas de sobreviver, somente um tecto e a segurança que as chamas e o sangue derramados nos seus países origem não lhe podem oferecer.

Aqui, na pacata ilha italiana de Lampedusa, uma aldeia de 6 mil habitantes, grita-se a plenos pulmões o desespero e a revolta, a angústia de ver semana após semana o extermínio silenciado da imigração odiada e dissimulada pela União Europeia.

O cheiro a morte, das cada vez menos menos claras águas mediterrânicas, prolifera junto do número infinito de cadáveres que se vão afundando tragédia após tragédia. “A globalização da indiferença”, assim definida pelo Papa Francisco, é no fundo a banalização do massacre a que a Europa vai assistindo impávida e serena há mais de 20 anos, e do qual já resultaram mais de 17 mil mortos.

Porta de entrada dos homens e mulheres à procura do sonho europeu desde 1994, a ilha de Lampedusa tem sido a morgue da imigração europeia, o símbolo máximo da indiferença do continente perante o fenómeno. Numa das últimas tragédias, por sinal a maior dos últimos anos, foram mais de 300, a maioria mulheres e crianças, as vítimas mortais que não conseguiram resistir depois de horas e horas a fio enclausuradas numa embarcação miserável onde viajaram mais de 500 imigrantes e que acabou por se incendiar ao largo da costa italiana.

Corpos perfilados vítimas da mais recente tragédia ocorrida ao largo de Lampedusa.

Corpos perfilados das vítimas da mais recente tragédia ocorrida ao largo de Lampedusa.


Norte/Sul: Uma Europa dividida

São cada vez mais evidentes os sinais de fricção entre grande parte dos países da Europa. A falência do projecto europeu, como é apontada, é a confirmação das previsões dos cépticos que desde sempre alertaram para a impossibilidade de sucesso da União Europeia, nos termos em que foi construída. À desunião política, económica e financeira, junta-se de forma cada vez mais óbvia a desintegração social de povos e países que percebem hoje que muito mais é aquilo que os separa, do que aquilo que os une. Entre o norte e o sul, a prosperidade e a decadência económica espelham uma Europa cada vez mais assimétrica e dividida, e cada vez menos solidária.

Assim se explica a frieza e insensibilidade de grande parte dos países europeus, sobretudo os do norte, perante a catástrofe humanitária a que vamos assistindo no Sul. A recusa em assumir o problema, a apatia e falta de iniciativa no que toca à sua resolução, e o jogo do empurra no processo de abrigo dos imigrantes e refugiados, são a prova do quão negligente tem sido a Europa neste massacre.

Cadáver de imigrante emerge nas águas do mar mediterrãneo.

Cadáver de imigrante emerge nas águas do mar mediterrâneo.


Convenção de Dublin, ou o “eles que resolvam”

Parte da inoperância e falta de resposta das autoridades italianas nas tragédias marítimas dos últimos meses explica-se pelo elevado fluxo de embarcações de imigrantes que este ano tem atravessado o mediterrâneo, devido essencialmente à Primavera Árabe e ao estado de sítio de países como a Síria ou a Líbia. Depois, as alterações à Convenção de Dublin introduzidas em 2008, que atribuem a responsabilidade de atribuição de asilo ao primeiro país de entrada dos imigrantes, empurram o problema para Itália, Grécia e Espanha, e criam sobre esta zona uma pressão desmedida à qual os governos e autoridades destes países não conseguem dar resposta. O que por outro lado praticamente desresponsabiliza os países do Norte da Europa, muito pouco interessados em alterar esta legislação, como tem sido sugerido pelo governo italiano, já que o fluxo migratório exercido sobre os seus territórios é brutalmente inferior à Europa do Sul.

Durão Barroso foi apelidado de "assassino" na sua recente visita à ilha de Lampedusa.

Durão Barroso foi apelidado de “assassino” na sua recente visita à ilha de Lampedusa.

Não que a lógica de atribuição de responsabilidade no processo de asilo ao país de chegada dos imigrantes seja totalmente descabida, já que a intenção, na altura, passava por minorar uma vez mais o tal “jogo do empurra” dos países europeus no acolhimento de imigrantes, mas não deixa de ser uma injustiça que o peso de um problema europeu recaia quase exclusivamente sobre dois ou três países.


Bossi-Fini: A lei que já matou milhares

Os cerca de 20,2 km2 que cobrem a área total da ilha de Lampedusa estão por esta altura lotados de gente. O espaço, já pouco para aguentar os que lá vivem e os que continuam a chegar, concentra os homens, mulheres e crianças que farão parte das próximas gerações europeias e que serão o garante da sustentabilidade demográfica do continente. Os mesmos que a lei italiana condena e que os resquícios do fascismo de Berlusconi e da extrema direita do país procuram punir.

“Penso que os governantes italianos deviam pedir desculpa às crianças e aos sobreviventes pela forma como o nosso país trabalha. Só depois poderemos exigir que a Europa  cumpra as suas responsabilidades”, acusou Giusi Nicolini, Presidente da Câmara de Lampedusa, para quem a prioridade do país deve ser a abolição da lei criada pelo antigo governo de Il Cavaliere que criminaliza a imigração ilegal e que esteve na origem da tragédia de há duas semanas que provocou a morte de mais de 300 pessoas. É que esta lei, para além de ordenar o repatriamento de refugiados e emigrantes para os seus países – o que significa um dos maiores atentados aos direitos humanos no século XXI-, estabelece igualmente como crime o socorro e  ajuda a qualquer embarcação com imigrantes ilegais. Por esse motivo os pescadores e mergulhadores ao redor de Lampedusa não puderam socorrer essa mesma embarcação que naufragava junto da sua ilha. Por esse motivo morreram mais centenas de inocentes.

Silvio Berlusconi decidiu criminalizar, em 2008, a imigração clandestina.

Silvio Berlusconi é conhecido pela sua perseguição aos imigrantes.

É por isso esta a outra face do problema e é também por esta razão que ainda antes de exigir o que quer que seja à União Europeia, um país como Itália não pode tratar homens e mulheres desta forma nem contribuir de forma activa para este extermínio. Esta norma atroz, que ainda por cima vai contra a Convenção de Genebra e a proibição do repatriamento de imigrantes para países onde a sua segurança não esteja assegurada, é uma vergonha para o povo italiano mas sobretudo para a Europa, que ao não agir se mostra complacente com estas políticas.


A hipocrisia dos hipócritas
 

A indiferença da Europa e a crueldade da lei italiana são assim as duas faces visíveis do massacre de Lampedusa. Enquanto os países do norte vão esfregando as mãos e remetendo o problema para os do Sul, os pensamentos mais demoníacos de Berlusconi que ainda pairam sobre Itália vão punindo inocentes e desresponsabilizando os criminosos. Um país e um continente que preferem condenar aqueles que se limitam a lutar pela sobrevivência do que anular os grandes responsáveis por este fluxos migratórios anormais e que mais proveitos vão tirando desta passividade europeia, que por outras palavras incentiva e potencia o crime organizado e o tráfico humano. Estes traficantes, que todos os anos lucram mais de 7 biliões de euros, não se arriscam em barcos e embarcações de borracha, apinhadas de gente. São altos chefes detentores de dinheiro e poder que a Europa continua a alimentar.

Centenas e centenas de pessoas amontoam-se numa embarcação mínima à procura de salvação na Europa.

Centenas e centenas de pessoas amontoam-se numa embarcação mínima à procura de salvação na Europa.

Mas não é a hipocrisia um mal exclusivo dos grandes representantes e centros de decisão europeus. Todos aqueles que querem emigrar, como os portugueses, mas que não querem receber emigrantes e/ou acham que esse não é um problema que lhes diga respeito, são tão ou mais hipócritas do que os primeiros, pela assunção de querer o melhor para si, mas não compreender que os outros têm também esse direito.

A Europa que se quer aberta e unida, se a isso ainda fosse a tempo, deveria olhar para os seus Estados-Membros como partes integrantes de uma mesma família, cujos problemas deveriam merecer a preocupação e interesse de todos. Uma confederação que pretende seguir uma política de migração não pode limitar-se a “lamentar” este tipo de tragédias como as que vão ocorrendo agora na costa italiana, libertando ocasionalmente alguns milhões de euros em fundos para ir  “controlando a situação”. O grito de revolta dos habitantes da pequena ilha de Lampedusa é um sinal de alerta para a União Europeia perante uma catástrofe sem precedentes na sua história, que jamais será resolvida enquanto se continuarem a tapar os ouvidos e a fechar os olhos à multiplicação da morte.

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???????????????????????????????André Cunha Oliveira

 

2 thoughts on “O massacre de Lampedusa

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