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Foi uma semana comprida, a que acabámos de atravessar. Sei que os dias se medem todos pelas mesmas horas e as semanas pelos mesmos dias. Porém, é inevitável que a temporalidade se assemelhe mais ou menos extensa, conforme for vivida. Assim, é natural que sete dias felizes passem mais rápido que sete dias dolorosos. E, por isso, repito: foi uma semana comprida, a que acabámos de atravessar.

Há exactamente uma semana reunia-se o governo para discussão do Orçamento de Estado do próximo ano. Numa sala reuniram-se ministros, com o propósito de escolher o melhor tipo de corda. Qual o material de corda mais eficaz para o enforcamento rápido e silencioso de milhares de portugueses, questionavam-se. Resolveram-se por uma corda fina para os pensionistas, já cansados e capazes de sufocar com um material mais fraco. Como resultado desta poupança, puderam apostar em cordas mais grossas e resistentes para os milhares de funcionários públicos, que passarão a estar mais esperto da escravatura. Pelo meio, vamos sufocando todos nós, em praça pública, aos olhos de quem quiser assistir ao humilhante declínio.

Nada poderia adivinhar mais efeitos colaterais que um documento como o Orçamento de Estado apresentado. Depressa se listaram os custos das novas medidas. Sem acertos nos escalões de IRS, com os cortes em pensões e subsídios, muitos portugueses tiveram imediata vontade de fugir. Descobriram, depois, que teriam de o fazer a pé. Que os transportes públicos apresentam-se em quinzena de greves e andar de carro é também insuportável, com o acréscimo de Impostos e o aumento do combustível. E quanto a andar a pé, convenhamos, também não será solução ágil. Afinal, começamos a acusar no corpo, o peso de uma crise teimosa, fechada e ingrata. As consequências começam a sobrepor-se e torna-se insuportável que prossigamos a nossa marcha. A marcha está cada vez mais lenta, porque os efeitos já não passam por nós. Atropelam-nos e travam-nos o caminho.

O actual panorama do país impede-nos de agir. Porque não são só os bolsos que se esvaziam. Esvaziam-se também os sonhos. Sonhos transversais a gerações e classes. E, como diria Augusto Cury, «sem sonhos, os monstros que nos assediam, estejam eles alojados na nossa mente ou no terreno social, controlar-nos-ão”. E, com o efeito de uma bola de neve, sem sonhos não haverá projectos, planos ou optimismo que nos salvem.

Somos, como resultado da crise que vivemos, uma nação triste. Multiplicam-se os rostos fechados, os olhares húmidos e os destinos incertos. As palavras não são de ânimo, mas lançadas com amargura. Foi assim que prosseguiu ontem a marcha de protesto organizada pela CGTP. Em passo triste e recolhendo testemunhos amargos.

Dizem que a culpa do presente é termos vivido acima das nossas possibilidades no passado. Que o Estado não consegue suportar a despesa com os seus cidadãos. Pois, então, que este novo Estado, que é como um pai que nos controla a mesada porque nos comportámos mal, reflicta sobre o que não regularizou anteriormente. Porque se serve por nos castigar pela má gestão, deveria ter sido capaz de nos orientar para que não precisássemos agora de digerir. E se este aparelho que nos governa se define como um Estado Social, então que redefina o seu funcionamento, para que consigamos contribuir, mas também beneficiar sem cortes.

Espera-se, agora, que a soberania do Tribunal Constitucional sobre o documento do OE se faça valer e que seja capaz de servir de travão. Que não se faça ceder a pressões de um Presidente da República, que do Panamá nos faz chegar a ameaça, de que sairá caro ao país eventuais chumbos. Pois eu digo que também sairá caro ao país enterrar milhares de portugueses, por via de cortes nas suas pensões e ordenados, em funerais camarários.

E não fosse o panorama já demasiado cinzento, e tivesse sido a última semana recheada de cálculos pesarosos, ainda tivemos de passar pela forma calculista em como Eduardo dos Santos anunciou o fim da cooperação estratégica entre Portugal e Angola. Se a parceria já era ilusoriamente bilateral, aproxima-se de ter publicamente apenas um lado de comando. Escrevia Vinícius de Moraes, cujo centenário do nascimento se comemorou ontem, num poema intitulado «A Galinha – D’Angola»:

«Coitada
Da galinha-
D’angola
Não anda
Regulando
Da bola
Não pára
De comer
A matraca
E vive
A reclamar
Que está fraca:
— “Tou fraca! Tou fraca!»

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Mara desenhoMara Guerra

* Autora do «Visão Curta» e colaboradora do «Palavras ao Poste»

One thought on “«A Galinha – D’Angola»

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