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Michel Foucault, brilhante filósofo francês do séc. XX

«Existem momentos na vida onde a questão de saber se se pode pensar diferentemente do que se pensa, e perceber diferentemente do que se vê, é indispensável para continuar a olhar ou a reflectir». Michel Foucault.

A realidade não serve já como factualidade analítica ou evidência epistemológica. Se há lição aprendida com o actual governo, é que a ordem cronológica e sequencial de eventos, ligada a conclusões reincidentes e contextos intertextuais de partilha, não encerra saber, não faz prova nem jurisprudência. Constatamos assim que nada constatamos – talvez constatemos que apenas constatamos, invariavelmente, constatações que, apesar de óbvias, não servem para serem constatadas. Porque o governo não navega consoante coordenadas do domínio do real, não caminha pelo chão, não nada pela água, não faz o pino ao contrário, não soma adicionando, não corta dividindo, não avança andando para a frente e não recua dando passos atrás. O governo quando mata faz nascer. Ao dissecarmos a arquitectura discursiva do seu edifício (i)lógico e semântico, somos inequivocamente obrigados a concluir da sua dogmática, prosélita e fanática veiculação – em 2011, não foi um governo que tomou posse, não foi um conjunto de ministros, muito menos uma equipa de funcionários ao serviço do público, não. Em 2011 tomou posse um tropel fundamentalista de religiosos dispostos a torpedearem o país, devastando-o iniquamente até à última gota de sangue, tudo em prol do redentor empobrecimento que, revestido de miserável ascetismo, iria assassinar para poder ver parir a bonança, brotando-se assim o Novo Homem, escritura pressagiosa tornada corpo e mente, munida do espírito empreendedor neo-liberal revisitado e instrinsecamente ungido no acto de dessolidarizar.

Estamos, portanto, perante um governo religioso que instaurou, à partida, um processo revolucionário em curso. Respaldado pela tecnocracia teológica das instituições internacionais, o executivo actual não presta contas. Pura, dura e simplesmente: não o faz, custe-se ouvir ou não, aceite-se bem ou mal, doa-se aqui ou acolá, grite-se aonde for. O seu carácter autoritário, desdenhoso, aviltante, zombador, unilateral e determinista, é causa e consequência de si mesmo, fecha-se perfeitamente num círculo hermético de significações, revoga-se ao sentido colectivo e despreza a argumentação lógica, despreza a dialéctica, despreza a legitimidade que emana, a todo o momento, do rastreio ético-comportamental ao qual um governo se deve submeter a todo o segundo. Não há mescla ou resquício de democracia e arrisco-me a dizer que este governo deu o passo transformador que faltava – sequestrou, com as armas retóricas falseadas dos credores, a democracia, iniciou a revolução financeira à custa da morte do Estado, fechou o gabinete e colocou, pelos altifalantes do país, a cassete hipnotizante da submissão. Um discurso repetido maquinalmente com a sensibilidade travestida, incitando à anuência de um «pathos» salvador, expurgador de um chorrilho de pecados capitais a que nós, povo, nos entregámos quais concubinas da perfídia inocente. «Gastámos acima das nossas possibilidades», ouvimos, incessantemente, pelas ruas mediáticas da caixa da televisão.

Pois a revolução vai avançada. Primeiro destabilizou-se e carcomeu-se o estatuto laboral, enviezando leis e precarizando o trabalho até ao ponto de total banalidade assimétrica e exploratória. Ao mesmo tempo que isto se congeminava, propagandeou-se a menorização do Estado, do Estado gordo, do Estado inútil, do Estado que está a mais e que pode e deve ser sufocado; depois incitou-se às guerras de dispersão, mote de divisão sectorial e entretenimento massivo: público contra privado, velhos versus jovens e vice-versa, alunos contra professores, doentes contra enfermeiros, utentes contra funcionários dos transportes públicos e por aí adiante; em seguida atacou-se a Constituição, qual empecilho fútil no caminho divino do «ajustamento», texto de algibeira que, segundo Passos, de nada «tem valido (…) aos milhares de desempregados», ironicamente criados pelo desmantelamento governativo de sua obra; concomitantemente a tudo isto, matou-se a juventude com ganas de singrar, matou-se a velhice que por nada ter, já quase nada pode dar, matou-se a classe média sobrecarregada de impostos, matou-se até a sobrevivência e a réstia de dignidade. O orçamento de Estado é isto, a antecipação fanática da tragédia, e em si mesmo, a consumação ineludível da sua escritura. É a concretização do seguimento, a milésima facada no moribundo, é o sangue a respingar na face dos assassínios connosco prostrados a pestanejar de inércia. Como os mortos que sabem que estão a morrer no instante último de vida.

A minha análise tem um fim: deduzir do determinismo intocável deste governo. Munido de uma retórica tecnocrática, «dos mercados financeiros» e da «dívida pública» e do «défice», este governo pratica a flagelação do povo independentemente de tudo. Escuda-se numa lógica já provada incrivelmente errada, repete-se numa lengalenga comprovadamente mentirosa, despreza os factos (e os números) e avança com o mesmo discurso que, inalterado na essência, parece indestrutível e à prova de realidade. Como se apanha este governo em contrapé? Como se atesta a sua total incapacidade para governar? Como se detecta a farsa? Como se derruba o seu discurso desconexo? A resposta é simples, e quem a dá é a realidade, e isto também nós devemos entender: não há, não houve, não tem havido nem tão cedo haverá, resposta. Estamos atados numa espécie de hipnose sequestrada enquanto nação, enquanto sociedade, enquanto ser civil. O governo carrega, atira, mata, e nós damos o corpo aos seus brutais despautérios. Prova disso é a história deste executivo: está sempre prestes a morrer mas nunca esteve tão bem. É burro e estúpido mas vai cortando o Estado, desempregando as gentes e pagando juros de usura sem pestanejar. É burro e estúpido mas vai privatizando ao desbarato, vai tributando os fracos e salvando os ricos. É burro e estúpido mas vai-se adaptando, expelindo indesejados (Relvas é exemplo) e substituindo para recuperar a forma. Este governo sabe bem o que faz e talvez os portugueses o tenham, desde sempre, subestimado. A lição veio estudada, o plano foi-lhes explicado e o resto, ou seja, nós, fomos e somos, suave e melosa oposição, das manifestações comparsas, das marchas de cágados para nenhures (para voltar a casa) e do simplório «Que se lixe a tróica» que não mais é que a verbalização da ideia vazia, que não estudou nem parou para conceptualizar, pensar e debater uma acção conjuntural que comece com uma demanda estruturada e objectiva. No fundo, enquanto o povo se agita inconsequentemente, são eles, no poder, a fazer a revolução.

Temos estado de mãos atadas perante um discurso comprovadamente falso e uma acção governativa declaradamente errática. Este governo sobreviveu à queda de Relvas, à inenarrável queda do mentor Gaspar (que confessou o erro!) e ao anúncio da demissão de Portas, sustentáculo da coligação. Se, no contexto em que vivemos, isto não foi suficiente para o governo ter caído, eu juro que não sei o que será preciso. E tenho para mim outra conclusão: ao deixarmos isto ter chegado aqui, embrenhados em irreflexivas lutas ocas e apolíticas, partilhámos da mesma imunidade ao real que o governo. Estamos todos fora da realidade, a falar sozinhos: só que eles não precisam que ninguém os oiça.

Bruno Cardoso desenhoBruno Falcão Cardoso

* O autor opta por escrever em desacordo com o Novo Acordo Ortográfico e em respeito para com a Língua Portuguesa.

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One thought on “Processo Revolucionário em Curso

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