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Há quem diga que por esta altura é a equipa em melhor forma na Europa: a Roma pode até nem ser o Barcelona, mas os números da sua performance na actual temporada são verdadeiramente arrasadores (24 golos marcados, apenas 1 sofrido). A formação de Rudi Garcia prossegue invencível no seu percurso na Serie A e no passado fim-de-semana teve nova demonstração de força perante o seu segundo embate consecutivo com um candidato ao título. A vitória na recepção (2-0) ao Nápoles de Benítez aumentou para 8 o número de vitórias consecutivas dos giallorossi e isolou a equipa romana no primeiro lugar do campeonato italiano.

 A derrapagem de um histórico

O traumático sexto lugar da temporada passada poderia antever nova revolução profunda na estrutura da equipa, apenas mais uma no meio de tantas outras na última década, onde somente o resistente e eterno capitão Francesco Totti (e o seu herdeiro Daniele De Rossi) têm permanecido fieis à sua camisola de sempre. Afinal, desde os tempos de Luciano Spalleti que a Roma deixou de ter voz e ser protagonista. Ao futebol sedutor do hoje treinador do Zenit, seguiu-se uma série de prestações penosas e fracassos, uns atrás dos outros e tão volumosos que a descrença se foi apoderando do imponente Stadio Olimpico.A Roma, que em Itália se foi transformando numa daquelas equipas de quem muito se espera mas nada faz, simplesmente deixou de contar e assustar quem quer que fosse. A derrapagem para o plano secundário do futebol italiano, porém, foi interrompida por um conjunto de escolhas sensatas da sua nova administração, que soube ser inteligente e revolucionar sem recorrer a armas ou a gritos de guerra.

A primeira dessas decisões foi a escolha do general para comandar e reformular as tropas para 2013/14. A preferência por Rudi Garcia faz todo o sentido: o técnico, experiente, foi campeão há bem pouco tempo numa equipa habitualmente fora do círculo de candidatos ao título francês. Estava livre e a sua contratação é um verdadeiro achado para a equipa romana, dado o cartel de interessados no treinador francês campeão pelo Lille em 2010/11. Esta é aliás uma escolha que foge ao padrão das principais equipas italianas, sempre presas às velhas raposas do futebol transalpino cujos resultados, nos últimos anos, têm deixado muito a desejar.

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Rudi Garcia substituiu Zdenek Zeman no comando da AS Roma.

 Revolução silenciosa de Garcia

Do novo corpo do exército de Rudi Garcia, apenas quatro cabeças rolaram. No entanto, as vendas de Stekelenburg (4,7 M€), Marquinhos (35 M€), Eric Lamela (30 M€) e Osvaldo (18 M€) renderam a impressionante quantia de 87, 7 milhões de euros, e possibilitaram uma gestão equilibrada do plantel e a compra de alguns jogadores importantes para a formação romana.

De entre eles, a do marroquino Mehdi Benatia, que ainda não era a saída de Marquinhos uma realidade, já o Director-Geral da Roma, Walter Sabatini, o tinha debaixo de olho, concretizando a sua compra ainda antes da venda do internacional brasileiro ao campeão francês. O defesa-central, de 26 anos, custou aos romanos cerca de 13, 5 milhões de euros e chegou a Roma procedente da Udinese, clube que representou nas anteriores três temporadas. Na baliza a saída do internacional holandês Stekelenburg foi colmatada com a compra do experiente guardião Morgan De Sanctis (36 anos) ao Nápoles, por cerca de 500 mil euros. Eric Lamela e Osvaldo foram “substituídos”  pelo sérvio Adem Ljajic (22 anos), comprado por 11 milhões de euros (mais quatro mediante o cumprimento de objectivos) e pelo costa-marfinense Gervinho, por 8 milhões de euros (mais 1,75 milhões). À aposentação do veterano Simone Perrotta a Roma respondeu ainda com a contratação do internacional holandês Kevin Strootman, adquirido ao PSV por 16,5 milhões de euros, mais 3,5 de variáveis. Para o corredor direito da defesa houve ainda dinheiro para a compra do internacional brasileiro Maicon ao Manchester City, aqui por uma verba não revelada. Feitas as contas, são cerca de 58,8 milhões (verba máxima se os tais objectivos desportivos forem atingidos) gastos em reforços, o que deixa ainda assim um saldo positivo de 28,9 milhões de euros nas contas do clube. E olhando para o balanço desportivo entre as saídas e as entradas no plantel de Rudi Garcia, percebemos como a perda de valor em posições-chave da equipa foi corrigida com a compra de jogadores de valor reconhecido e potenciais imediatos titulares na formação de 2013/2014.

Apesar dos milhões gastos, é pouco substancial a reformulação do onze-base da última para a actual temporada, com a generalidade dos titulares da equipa de Zeman a manterem o seu posto na formação que vai liderando a Serie A.

Marquinhos foi vendido ao PSG por 35 milhões de euros.

Marquinhos foi vendido ao PSG por 35 milhões de euros.

O que mudou?

Se é assim tão pacífica a revolução levada a cabo por Rudi Garcia, o que é que explica então esta metamorfose no estilo de jogo da equipa da Roma? Em primeiro a injecção de confiança trazida pelo técnico francês, que conseguiu alavancar o pontecial de jogadores em claro sub-rendimento na campanha desastrosa de 2012/13. Daniele De Rossi e Miralem Pjanic são apenas dois exemplos de jogadores cuja capacidade esteve aquém do esperado e que actualmente exercem uma forte influência na manobra da equipa.

Com Zeman, a Roma oscilou entre o seu histórico 4-3-3  e um “improvisado” 3-4-3, num estilo de jogo ofensivo já característico do treinador checo. Entre os dois esquemas, em comum a deslocação de Francesco Totti para a frente de ataque, depois de um progressivo recuo no terreno de jogo ao longo dos últimos anos. Significou por isso o regresso de Zeman à Roma o retorno d’Il Capitano à posição de avançado que já em 1997 tinha passado a ocupar, precisamente, por indicação do carismático treinador. Rudi Garcia partillha da mesma linha de raciocínio mas deslocou o veterano avançado italiano para o centro do ataque e não no apoio aos avançados, como acontecia com Zeman. Sem Osvaldo, e com um esquema de jogo que não contempla a presença de um ponta-de-lança fixo na frente de ataque, Totti faz agora uso da sua técnica numa tripla de ataque dinâmica em que Gervinho veio assentar que nem uma luva e Florenzi consegue agora finalmente exponenciar toda a sua criatividade e poder de decisão.

Onze-tipo da AS Roma 2013/14.

Onze-tipo da AS Roma 2013/14.

No meio-campo reside a maior transformação no nível de jogo da Roma. No clássico 4-3-3 de Rudi Garcia cabe mais um médio que acaba por fazer toda a diferença: Strootman foi porventura a contratação-chave da temporada e a sua chegada ao Olímpico serve como um autêntico balão de oxigénio para Daniele De Rossi, no ano passado sacrificado num infinito número de papeis em campo que o transformavam no “bombeiro de serviço” da equipa de Zeman. Jogando sozinho na zona intermediária apenas com o “apoio” de  Pjanic, De Rossi procurava acudir a todos os fogos sem conseguir apagar completamente nenhum deles. Multiplicando-se entre o processo defensivo e ofensivo, o internacional italiano acabava por não conseguir dar conta do recado e suportar, sozinho, todo o meio campo. É por isso que o recuo e fixação de De Rossi na zona mais recuada do miolo, com a inclusão de Strootman no lado esquerdo e a permanência de Pjanic no direito, fazem deste triângulo de médios um dos mais fortes e compactos da Serie A, e sobretudo o baluarte de todo o conceito de jogo dos romanos. 

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Kevin Strootman é peça fundamental no esquema de Rudi Garcia.

No último encontro realizado para o campeonato, na vitória por 2-0 sobre o Nápoles de Rafael Benítez, isso mesmo ficou uma vez mais bem patente, com o comando da partida pelos giallorossi a ser sustentado pelo controlo e posse de bola dos seus três médios, e na capacidade de causar perigo no ataque através da velocidade dos seus dois extremos e do génio sempre presente do seu capitão. Com Strootman, que herdou a mítica camisola 6 de Aldair (devolvida pelo próprio após ter sido retirada para homenagear o defesa brasileiro), no meio-campo, Daniele De Rossi recupera o carisma, a experiência e a classe que o tornam num dos melhores médios a actuar no futebol europeu, com a influência que daí advém para o jogo da sua equipa.

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De Rossi recuperou a influência na equipa e reforçou o estatuto de imprescindível.

Na hormonização dos três do meio-campo, é a Pjanic que é conferida maior liberdade de acção e progressão no terreno de jogo, muitas vezes com trocas posicionais com Totti e Florenzi que possibilitem a sua entrada na área e o disparo do seu forte pontapé, como aconteceu no triunfo sobre os napolitanos em que o internacional bósnio assinou os dois golos da partida.

Na defesa mora outro dos segredos do sucesso da formação romana. A saída do prodígio Marquinhos gerou grande apreensão nos tiffosi giallorossi, mas a verdade é que Benatia veio pegar de estaca e formar com Leandro Castán uma dupla de sucesso. De tal forma que a Roma é hoje a defesa menos batida das principais ligas europeias, com apenas um golo sofrido em oito jogos. Dois defesas-centrais que aliam a velocidade ao forte poder de antecipação e leitura dos movimentos dos adversários. Os índices elevados de concentração e poder de antecipação desta dupla defensiva foram então capazes de secar o poder de fogo do ataque da formação napolitana na passada semana, já depois de o ter feito sete dias antes contra o Inter de Milão, no Giuseppe Meazza (triunfo por 3-0).

Mehdi Benatia é o actual líder da defesa da Roma.

Mehdi Benatia é o actual líder da defesa da Roma, a menos batida da Serie A.

A inteligência técnico-táctica do eixo defensivo é coadjuvada pelos laterais Balzaretti e Maicon, habituais titulares, mas que pontualmente têm alternado com Dodô e Torosidis. No esquema de Garcia há livre-trânsito para a subida dos defesas pelos corredores esquerdo e direito, sempre em apoio, sempre com a baliza no horizonte, numa dinâmica de envolvimento ofensivo que tem traído até as mais tradicionais e fechadas muralhas defensivas das equipas italianas.

Na baliza o experiente De Sanctis vai cumprindo e substituindo com nota positiva Stekelenburg, que nunca se chegou a adaptar ao campeonato italiano. O guardião chega rodado depois de ter sido o habitual titular da baliza do Nápoles nas últimas quatro temporadas.

Favorita à conquista do scudetto?

A Roma conta actualmente com cinco pontos de vantagem sobre os mais directos adversários, Nápoles e Juventus. Os 24 pontos conquistados em oito jornadas dão por agora clara vantagem aos romanos na luta pelo título, e o futebol evidenciado ao longo destas semanas, de longe o melhor praticado em Itália e um dos melhores a nível europeu, transmite ainda mais confiança às hostes romanistas. Mas não deixa de ser verdade que os giallorossi não dispõem das mesmas armas dos rivais, quer do Nápoles, quer da Roma, e até do AC Milan. Sobretudo no que toca ao sector ofensivo, a formação da capital de Itália é manifestamente inferior aos seus adversários, e a inexistência de alternativas no ataque debilitam francamente a equipa. Como acontece agora com as lesões de Totti (deverá parar cerca de dois meses) e de Gervinho (duas semanas) resultantes da partida com o Nápoles, e que dificultam – e de que maneira- a vida de Rudi Garcia. Sem estas duas peças-chave do seu ataque, é provável que o técnico francês lance Ljajic para o ataque com a companhia de uma de várias soluções: Marco Borriello, Taddei ou mesmo Matias Destro. O esquema de jogo de Garcia sugere, porém,  a renúncia de um ponta-de-lança fixo, pelo que o deslocamento de Ljajic para a zona de finalização, como “falso nove”, juntamente com Florenzi e outro extremo no tridente ofensivo, se afigura como mais provável. Sem a técnica de Francesco Totti, a equipa ganhará eventualmente em velocidade, algo que poderá ser constatado nas próximas partidas.

Sem as individualidades dos rivais, cabe a Rudi Garcia alimentar de pontos e triunfos a sua equipa, personificando o simbolismo da loba capitolina que em tempos alimentou Rômulo, fundador de Roma, e que hoje serve de alegoria para o nascimento do sucesso dos giallorossi.

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???????????????????????????????André Cunha Oliveira

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