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Quantas vezes já ouviu um português, daqueles que habitualmente seguram as rédeas do País, lamentar-se das condições naturais do nosso território? Quantas vezes o ouviu justificar a eterna crise (que dura desde que acabou o ouro do Brasil…) com a dimensão do País ou com o seu posicionamento geográfico? Quantas vezes o ouviu falar em “País pequeno e periférico”?

Ora, a mensagem que nos têm tentado passar é a de que Portugal é pequeno e periférico e, por isso, pobre. Porém, os números – cruéis como sempre – deitam por terra todo um discurso de ‘coitadinho’ pregado pela classe política e, de certa forma, já entranhado na acrítica populaça. Afinal não somos pequenos, muito menos periféricos. E se não somos ricos, tal não se deve de forma alguma à nossa dimensão ou localização geográfica.

Vamos aos números. Ao nível da dimensão geográfica, Portugal é o 13º maior País da União Europeia, posição que nos coloca na primeira metade da tabela dos 27. Escusado será dizer que são alguns os Países com um território menor mas com uma economia e um PIB per capita maiores que nós. Quando analisamos o número de habitantes, a realidade ainda nos é mais favorável, ocupando a 10ª posição. E mesmo a nível de dimensão económica, os números mostram que Portugal tem a 15ª maior economia da Zona Euro. A frio, e sem necessidade de utilizar a calculadora, constatamos que não somos pequenos (e nem vou valar do território marítimo…). Somos, isso sim, pobres, com um PIB per capita que anda no fundo da tabela.

Se os números nos mostram que a dimensão do País não pode servir de justificação para o caminho sinuoso que se seguiu, o mapa recorda que não somos periféricos. Ou, pelo menos, não da forma lamentável que nos querem fazer crer. Pegue num tradicional mapa ocidental e procure Portugal. Depois, com uma caneta, trace um risco a ligar a América do Norte à Europa. De seguida faça o mesmo ligando a América do Sul à Europa. E não se esqueça de ligar também a costa Oeste do continente Africano ao Continente Europeu. Procure novamente Portugal e veja se as linhas que traçou não passam por lá… O que quero dizer com isto? Muito simples: podemos estar na periferia da Europa mas estamos no centro do Atlântico, na confluência de grandes rotas. E é aí que a coisa promete aquecer!

O Destino (ou o Fado, como quiserem) reservou-nos um cantinho do Velho Continente. E foi desse cantinho que partimos para mares nunca antes navegados. E é esse cantinho, imagine-se, a primeira ‘terra à vista’ na rota América do Norte-Europa. É esse cantinho, também, a última terra ancorável na rota Europa-EUA. E aqui, importa realçar as movimentações que se têm feito no sentido de estreitar as relações comerciais entre UE e Estados Unidos da América, que, a concretizar-se, poderá criar o maior e mais importante mercado a nível mundial. Onde estamos nós? Ali mesmo, no centro.

O transporte marítimo assume-se como o modo mais importante na movimentação de bens entre diferentes Continentes. Ao longo dos anos, foi estabelecendo as suas principais rotas, tendo cada vez mais o mercado asiático como centro estratégico. Também nas ligações comerciais entre Europa e Ásia vamos ter, muito em breve, uma importante alteração que promete trazer novidades. O Canal do Panamá está a ser alargado e, muito em breve, poderá ser atravessado por navios de muito maior dimensão. Tendo em consideração o congestionamento do comércio mediterrânico ou a crescente onda de insegurança no Canal do Suez – onde a pirataria marítima não dá tréguas – não será de estranhar que o Canal do Panamá possa ser cada vez mais importante no próprio comércio entre Ásia e Europa. Será, pelo menos, utilizado na ligação entre a Europa e a costa Oeste dos Estados Unidos e de todo o continente americano. Peço então ao leitor que volte ao mapa e que trace uma linha entre a costa Oeste dos EUA e a Europa, via Canal do Panamá. E que faça a mesma coisa na rota Ásia-Europa. E lá está, uma vez mais numa localização privilegiada, Portugal (isto se, com tanto risco no mapa, ainda o conseguir ver).

O cantinho que nos foi reservado será o primeiro a escalar pelos grandes navios de algumas das principais rotas. Mas o cantinho não passará de ‘terra à vista’ sem escalas se não colocarmos mãos à obra. Ainda não estamos preparados para estas grandes oportunidades mas ainda vamos a tempo. Temos é que parar de nos lamentar. Sem portos preparados, sem ferrovia a ligá-los à Europa, esta não será mais que nova oportunidade desperdiçada. É tempo de aceitar que o Mar, fonte de inesgotáveis motivos de orgulho desta Nação, continua a ser uma das nossas maiores riquezas.

Alguém que muito prezava e que, infelizmente, já nos deixou, disse-me um dia que Portugal não é um País de corajosos como os que um dia – há séculos atrás – enfrentaram o mar sem receios. Esses, referiu ele, foram os que partiram. Ficaram os resignados, os amorfos e os que se contentam com pouco. Quero acreditar que entre os que ficaram, alguns sobram com o sangue dos destemidos.

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joni_desenhoJoni Francisco

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