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Groucho Marx: mestre do humor, comediante e actor

«A sinceridade e a honestidade são as chaves do sucesso. Se puderes falsificá-las estás garantido.» – Groucho Marx

Não posso contestar, visceralmente, que a sinceridade possa nunca depender da perspectiva com que se analisa um fenómeno, mas tal postulado se apresenta inútil quando falamos de compromissos democráticos – hoje vir-me-á à baila o acordo de governo celebrado entre o «independente» garboso Rui Moreira, autárquico vitorioso, e Manuel Pizarro, putativo autárquico derrotado, candidato do PS à região afecta: o Porto. Ora, Moreira o «independente», cognome de guerra do empresário nortenho, perfez a sua campanha autárquica com base numa ideia-chave que, repetida até à exaustão panfletária, se circunscrevia ao orgulho diferenciador com que caracterizava a sua candidatura: ele, o «independente», vinha, sem «ligação a qualquer partido, facção ou corrente partidária», apresentar-se ao serviço (público) para liderar, agora sim, por bem, os destinos da cidade portuense – uma espécie de corte com o passado que poderia muito bem ser antecedido de um entusiasta rufar de tambores, suspense e a enunciante frase: «E agora para algo completamente diferente…!», é fácil acabar o resto: «…Rui Moreira, o candidato independente!». Na essência, isto pode não ter sido verbalizado desta forma, mas, se atendermos à forma (da campanha), logo descortinamos que, na essência, tanto forma como essência vinham beber, da mesma forma, à ideia de que Moreira, o «independente», era isso mesmo: o independente, o descomprometido partidário, o rebelde com causa e sem aparelhos à ilharga, coberto portanto, da aura auspiciosa e virginal que em Portugal ilumina, apolineamente, os apolíticos.

Vencidas as eleições, a perspectiva mudou. A coligação com Manuel Pizarro e a distribuição de pelouros por membros do PS (sem abordar outras forças partidárias) veio escacar a imagem separatista e distante que Moreira o «independente» tinha do espectro político – e assim, nas costas do seu eleitorado, Moreira «independente» passou a ser o independente mais dependente do país, que, outrora eleito independente, torna-se a posteriori, dependente, independentemente do resto. E o resto é, simplesmente, a honestidade eleitoral que quebrou ao aliar-se ao PS depois de beneficiar dos votos ganhos com a cançoneta populista da famanaz independência. Isso é enviezar a palavra de honra, é replicar um princípio arquetípico – e programático – que se torna premissa de um compromisso político, para depois o retorcer consoante a negociata pós-eleitoral. Tivesse Moreira o «independente» afirmado, na apresentação da sua candidatura, que era independente com uma certa dependência socialista para os lados de Pizarro, talvez a história fosse outra; se desbocasse ele sobre quantos e quais os pelouros que iria atribuir às gentes do PS, pior ainda. Portanto, à pergunta: «É ou não Rui Moreira independente?», a resposta terá de vir, pois claro, em nuances relativistas – «Depende. Depende do momento: se for antes da votação, é independente, se for depois,existe uma alta probabilidade de devir a ser depedente». Independentemente do resto, repito.

Escrevo hoje sobre princípios de honra eleitoral porque eles são, intrinsecamente, de um valor democrático superior até à própria esfera polítca – eles ascendem ao nível do respeito irrebatível, tanto da palavra como do compromisso inter-relacional. Quando menorizados, corre-se o risco de descredibilizar todo o edifício expressivo da vida civil e pública. Divergir na actuação (e não é pouco…) da mensagem que se transmite numa campanha é gravíssimo assunto que deveria pairar no âmbito da responsabilização. Basta lembrarmo-nos que o actual governo enfiou um chorrilho de aldrabices pela boca abaixo e cuspi-o na cara do eleitorado: mentira após mentira, todas elas foram riscadas fora do dicionário do executivo de Passos e companhia à medida que se desmantelava o país. A isto chama-se: mentir para roubar votos aos retardados cidadãos. Além disso, a trágica coligação que se seguiu às eleições foi outra mancha de mentira que a lei não deveria permitir em situação alguma: arranjos de coligação pós-eleitorais. Estes significam uma sobre-interpretação do voto popular que distorce a vontade eleitoral e soma cruzes como quem faz toscas contas de adição merceeira, redefinindo escolhas e amontoando preferências como se o resultado das votações fosse um poema sujeito a interpretações múltiplas e ondulantes, consoante a disposição partidária e as oportunidades políticas.

Na minha opinião, trata-se de um realidade que deveria ser inconstitucional – coligações são legítimas, obviamente, mas deverão ser apresentadas, explicadas e promovidas antes das eleições, pois o eleitorado deve estar a par das regras do jogo antes de o começar a jogar, ou seja, antes de escolher. Sob pena de vir a descobrir que, alguns, depois de se dizerem independentes, apenas o conseguiram de facto ser em relação à sua palavra.

Bruno Cardoso desenhoBruno Falcão Cardoso

* O autor opta por escrever em desacordo com o Novo Acordo Ortográfico e em respeito para com a Língua Portuguesa.

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