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Há um ensinamento chinês que diz algo assim: num dia de chuva, dois homens encontram-se na rua. Enquanto um seguia tranquilo, alheio ao aguaceiro, o outro seguia a correr, procurando abrigo. Ao encontrar o primeiro, pergunta-lhe:

– Por que não corre a abrigar-se?

– Porque lá adiante também chove.

Não será inoportuno dizer que, para o Governo, as manifestações que têm assolado o país não são mais do que bátegas abatendo-se sobre a calçada. É certo que as gotas grossas podem fazer estardalhaço sobre os passeios e retumbar no alcatrão, mas, como um aguaceiro num país tropical, incomodam pouco, ou poderemos arriscar: são até bem-vindas.

Uma ressalva: as manifestações são formas de contestação legítimas, sinal claro do descontentamento popular, e forma intuitiva, imediata, de dar corpo a um mal-estar, e devem ser potenciadas. O problema, porém, está no facto de já terem entrado perfeitamente na circulação do sistema, e hoje, assimiladas como DNA auto-repetitivo, não passarem de dose clínica, prescrita a preceito e injectadas no braço do governo. Qualquer sistema tem por fim reproduzir-se, prolongar-se no tempo, preservar-se. Não tenhamos dúvidas. Se as manifestações não estivessem já pacificamente inscritas naquilo que são os moldes do sistema e devidamente contidas dentro das suas zonas de segurança, já há muito lhes teriam posto cobro. À palavra, o sistema joga-a como prefere, e ela pode nada significar, tudo subverter. Nas mãos de uma mente desonesta, a palavra pode ser tudo sem mesmo chegar a ser nada. A palavra, numa mente ardilosa, na arquitectura da ilusão, é meramente fonética, vago esgar sonoro, já totalmente emancipado de qualquer etimologia, afinidade ou significado.

Não será, talvez, justo perguntar que resultados positivos, práticos, já tiveram as manifestações, por isso não o coloquemos em questão, e limitemo-nos a responder: as manifestações ainda não podem reclamar como sua nenhuma vitória. E pior se lhes pode imputar: como saem sempre perdedoras, como nada ameaçam, porque para as destruir basta mudar a televisão para um filme diferente noutro dos canais de sábado à tarde, elas reforçam o poder que querem combater. Porque cada manifestação é uma possibilidade de resposta, de reacções, de comentários e debates televisivos, e aí não é possível ganhar, porque estamos na arena do poder, sujeitos a um regime quase religioso onde a palavra já não assenta na realidade, e onde a racionalidade é plasticina em mãos de criança. Na televisão, não há relação de poder que se desfaça, até porque grande parte dos espectadores não a conseguiria destrinçar se ela se desenrolasse frente aos seus olhos. Por muito falsos que os argumentos sejam. Por muito deturpados que se construam. Por muito desligados do real que se notem. Porque é sobretudo preciso isso: que quem tem razão não se deixe pôr em causa pelos artifícios mais fracos que os adversários lhe estendam.

As manifestações não devem cessar, mas não podem, porém, repetir-se ad nauseam até ao enjoo final, já nada metafórico e muito pouco estético. Porque nem mesmo os manifestantes o suportarão, porque tudo cansa e agasta, e a luta, se não concretizada ao menos em farrapos de vitória, não segue caminhos diferentes. Não sou pela violência, mas pela resistência em violência simbólica. Porque é preciso que as manifestações se forcem à ordem do dia, que interrompam os acontecimentos, ao invés de correrem por fora, na margem que flui ao largo da vida. Será preciso romper com esse colete-de-forças que nos apontam e que apontamos a nós próprios, e deixar de ter orgulho na brandura que se diz portuguesa e que, sintomaticamente, nos vai assando em fogo lento. Acredito que por tal poderemos culpar o 25 de Abril – outro pregão e bandeira que seria bom deixar em casa nas manifestações contra a actual situação do país; o que está em causa é já bem diferente, e importa compreender o novo sem nos agarrarmos ao antigo que nos dispensa a aprendizagem. Quanto a mim, se nos devemos orgulhar da conquista desse dia de 1974, não nos devemos orgulhar do facto de ter ocorrido sem violência, porque a violência estava lá. Quando os militares saem à rua de chaimites e metralhadoras, quando uma fragata tem as tropas do Terreiro do Paço na mira, quando tanques se enfrentam na Ribeira das Naus, foi a violência que fez a revolução. Ou acaso diremos de um assalto à mão armada que é pacífico, apenas porque o ladrão não chegou a disparar a arma, limitando-se a apontá-la à cabeça das vítimas?

É pesada herança que sentimos, essa de não poder defraudar o que de bonito aconteceu nesse dia, mas é preciso que nos libertemos desse pânico quase inominável de ver a violência surgir nas nossas ruas. Porque também somos limitados. Experimentem reunir dez mil pessoas – um número parco – e pedir-lhes que simplesmente se sentem no chão, num dia dito útil, bem pela manhã, antes dos deputados chegarem ao Parlamento, e impedir o início dos trabalhos, chegar à fala com os deputados. É esta a violência simbólica que pode forçar-se ao normal funcionamento dos dias, e a única arma que os manifestantes de hoje podem empunhar, porque a polícia não saberá responder-lhe senão com a violência física – esse é um perigo para o qual é preciso estar preparado −, mas aí quem sai derrotado é a polícia, e o governo através dela.

O Bruno Falcão Cardoso já pegou, brilhantemente, no tema há um par de semanas (aqui), mas a realidade sócio-política portuguesa é comboio sem travões pela ribanceira mais íngreme de que o planeta se lembrou, e serve-nos novo capítulo. Esse, do Parlamento ser um «edifício com vicissitudes próprias e que exige bom-senso», como se os manifestantes tivessem algo a ver com isso. Como se fosse papel do manifestante negociar espaços com a polícia a priori. Como se numa manifestação devesse haver outro bom-senso que não o da própria acção que a motiva e legitima. Muito mais me apeteceria dizer sobre o assunto, mas o artigo já não vai curto e esgotar aqui o tema seria estulta pretensão. Basta que digamos, enfim, lembrando esse evento nas escadarias do Parlamento, que uma manifestação esclarecida e de boa-fé não pode aceitar ter na polícia o professor que encara os meninos e lhes diz: «se quiserem conversar, vão para o fundo da sala».

Porque não só os manifestantes abortam aquela que é a sua missão como desmerecem em face dos tempos e acontecimentos e valores pelos quais dizem querer lutar. E porque, enfim, me lembra uma história que o meu avô me contou e que aqui resumo: em 1972, Marcello Caetano, sentindo que o lume se lhe abeirava dos pés, procurou a liberdade sem no entanto a querer dar. Disse ele que queria «sindicatos actuantes». E os sindicatos assim fizeram, mas não se passaram muitos dias até que o meu avô, pertencente ao Sindicato das Telecomunicações, fosse chamado ao Ministério das Corporações, que funcionava como uma espécie de spin-off da PIDE, e onde lhe foi dito que isso de sindicatos actuantes e manifestações estava tudo muito bem, mas com calminha e devagar, nos seus espaços próprios e tempos previstos, ou em alternativa seria muito fácil pô-lo a ver o céu aos quadradinhos.

Hugo desenho 4sc2Hugo Picado de Almeida

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