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O "espectáculo" de Joseph Blatter em Oxford.

O “espectáculo” de Joseph Blatter em Oxford.

Não sei por volta de que horas Joseph Blatter proferiu aquelas célebres declarações sobre Cristiano Ronaldo que tanto têm incendiado as redes sociais em Portugal e em Madrid. Se foi lá mais para a tardinha, depois da hora de almoço, é bem provável que tenha sido precedido de uns quantos copinhos de vinho por conta das almoçaradas patrocinadas pela FIFA. Há por isso que dar um desconto.

De resto, olhando para o vídeo captado na tal conferência em Oxford, é visível o tom ligeiramente rosado das bochechas de Blatter, prova inequívoca da ingestão de álcool minutos antes. Depois de uma bela patuscada com os seus consórcios, seguiu-se um digno espectáculo de stand-up, como tem de ser: satírico, picante e mordaz sobre temas e personalidades. A fava acabaria por sair a Cristiano Ronaldo.

Na verdade, Blatter não ia preparado para fazer humor. Ia falar sobre qualquer coisa, emitir uns bitaites, lançar umas frases polémicas e sem nexo como já nos habituou, e dessa forma digerir o borrego e a vinhaça do almoço. Mas os calores do tintol e a descontracção do evento, perante uma plateia jovem, acabaram por desinibir o já de si desinibido Presidente da FIFA, libertando-o para um momento de sinceridade e espontaneidade que desbloquearam todo  e qualquer protocolo. Aquele homem, ali diante de largas dezenas de jovens, já não era mais figura institucional, já não era face e representante de uma organização com responsabilidades a nível internacional. Mas será que alguma vez o foi?

As primeiras gargalhadas da plateia serviram por isso de combustível à cena mirabolante de Blatter. Sentindo-se apoiado pelos sorrisos cúmplices dos seus espectadores, o suíço partiu directo ao assunto, não deixando a mínima dúvida quanto à sua “aversão” em relação a Cristiano Ronaldo e a sua preferência por Lionel Messi. Os argumentos, tanto e quão válidos quanto o seu nível de embriaguez,  não se basearam em títulos, recordes, golos ou assistências. Muito menos no já célebre “ah, mas um é capaz de fintar cinco, e o outro não”. A preferência foi explicada pelo estilo. Exuberante, excêntrico, vaidoso e presunçoso, Cristiano Ronaldo não é do estilo de Joseph Blatter. O Presidente da FIFA gosta mais de blusas sem brilhantes, folhos e tachas,  de cores discretas e não berrantes, assim mais a dar para o simples, como Messi.

Trata-se portanto de uma questão de gosto, e “gostos não se discutem”, como todos sabemos. O problema é quando se trata do Presidente da organização que tutela o prémio de melhor jogador do Mundo a  manifestar a sua preferência em relação a um dos nomeados, e isto numa cerimónia oficial. Mas bem, e tornando a repetir, se há coisa que nunca se percebeu foi a diferença entre o Blatter das almoçaradas e o Blatter líder do futebol mundial. No fundo, eles nunca deixaram de ser o mesmo.

Da ridícula e embaraçosa  performance de Blatter em Oxford, se partiu uma vez mais, irremediavelmente, para a clássica teoria da conspiração contra Portugal e os portugueses, e por consequência, contra Cristiano Ronaldo. Por tabela, como de costume, levou Lionel Messi.  Como por tabela, invariavelmente, leva CR7. Porque se um é convencido e arrogante, o outro é um hipócrita e um falso humilde.

No meio desta discussão à volta do estilo, que remete para um combate pessoal que é mais imaginário e fait-diver do que outra coisa, é sem dúvida Cristiano Ronaldo quem mais tem a perder. E uma boa parte por culpa própria.

Ronaldo é “CR7”, irmão das indescritíveis “Manas Aveiro”, filho da inenarrável “Mãe Dolores” e ex-cunhado do,,, Zé. É jogador do Real Madrid, compra muitos Ferraris para a garagem lá de casa e usa roupas que podem ser descritas de tantas maneiras que o melhor é deixar essa parte para o critério de cada um. E depois tem o mau hábito de reconhecer que é bom, que é muito bom, e de fazer questão de o dizer tantas vezes quanto o número de abdominais que faz por dia. E quem é que gosta de alguém assim? Ninguém.

Messi é Messi, simplesmente Messi, às vezes Leo. Não sei se filho único, não faço ideia, e por aí também já dá para perceber algumas diferenças. Sem o peso de duas manas às costas, Messi é o melhor jogador do Mundo sem nunca o ter dito. Cultiva uma imagem de humildade e simplicidade que objectivamente é muito mais apaixonante do que o amor-próprio, chamemos-lhe assim, de Cristiano Ronaldo, narcisista assumido.

Mas será esta diferença de estilos suficiente para justificar as quatro bolas de ouro ganhas pelo argentino? Obviamente que não, e nem vale a pena entrar por aí. Mas no final das contas, e de como é exemplo a “preferência” do Presidente da FIFA, a discussão sobre quem é efectivamente o número 1 do Planeta anda sempre muito mais perto do rosa-choque vs verde-cinza do que propriamente do resto, do que mais importa. Os argumentos estão errados, primeiro ponto.  A teoria da conspiração é absurda, segundo. Pode o “estilo” ter influência na escolha final dos jornalistas, treinadores e capitães das selecções, terceiro.

As votações, que são sempre subjectivas, tiveram o condão de distanciar Ronaldo da liderança do futebol mundial, tendo-o consagrado apenas por uma vez como melhor jogador do Mundo, porventura pouco para um atleta que continua fazer história e a quebrar recordes, uns atrás dos outros, em Manchester e em Madrid. Terão as personalidades com poder de decisão na matéria a mesma objectividade e isenção na hora do voto que Joseph Blatter? Conseguirão retirar dos seus polegares o peso das suas preferências, primazias, paixões e predilecções?

Àquela altura do dia, com umas graminhas jeitosas de álcool no sangue, Blatter provavelmente não teria conseguido. Em Oxford, já bebido, não foi capaz de o esconder, ridicularizando e humilhando  o capitão do Real Madrid e da Selecção Portuguesa  em público. Apesar disso, há quem considere não ter sido nada de especial. E de facto, quando comparada com o resto dos argumentos e exposições daquele círculo de debates, alguns deles divulgados no Youtube, a actuação do suíço passa despercebida. Num deles, argumenta-se que o Islão não é uma religião pacífica, e noutro objecta-se contra a adopção por casais homossexuais. Perante isto, que mal tem o Presidente da FIFA imitar um robot para se referir ao internacional português?

No meio desta embrulhada, mal fez Ronaldo ao fazer continência  a Joseph Blatter. Em vez disso, o avançado do Real Madrid bem que podia ter cobrado ao suíço o almoço de Oxford, que no final das contas foi ele, juntamente com Messi e as maiores estrelas do futebol mundial, quem pagou. Habituado às borlas, talvez assim da próxima vez Blatter fosse mais contido no abuso do barril. E dessa forma a boca já não mais lhe fugisse para a verdade.

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???????????????????????????????André Cunha Oliveira

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4 thoughts on “O “estilo” de Joseph Blatter

    • Obrigado pelo seu comentário, Maria José Cepeda. Não chamei Messi de falso-humilde, nem Cristiano Ronaldo de arrogante. São os dois lados da barricada, acusações lançadas frequentemente quer a um quer a outro jogador, o que não quer dizer que tal corresponda à verdade. Obrigado por seguir o Palavras ao poste, cumprimentos.

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