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Esta semana foi agitada no futebol internacional pela renúncia de Diego Costa à selecção brasileira para representar a fúria espanhola. O avançado negou-se a representar o seu país de origem, com grandes possibilidades de participar no Mundial que o Brasil recebe em casa. Uma decisão no mínimo insólita, mas que atesta bem a globalização que vive o mundo do futebol. Acredito que Diego estará no Mundial com a armada espanhola mas não creio que esta seja a melhor decisão: na sua posição a Espanha tem um leque fortíssimo de opções, onde se destacam Torres, Villa, Negredo, Llorente e Soldado. Se tivesse optado pelo canarinha seria concorrente de Fred – afastado por lesão há meses, e de jogadores em baixo de forma e inferiores ao colchonero como Alexandre Pato e Jô. Posso não concordar com esta decisão, mas uma coisa é inegável: ela revela carácter.

326889_heroaDiego Costa ter-se-á comprometido com Del Bosque e mesmo perante a iminente confiança de Scolari – que apenas o tinha chamado para dois amigáveis em Março – não voltou atrás com a palavra e provavelmente estará em 2014 no país de origem a lutar pelo bicampeonato mundial da selecção espanhola.

A honra no momento dos compromissos é na minha opinião, a chave desta questão. Actualmente em Portugal debatemos a chamada ou não de Fernando à selecção – assim que esteja naturalizado. O jogador já mostrou total disponibilidade para vestir a camisola das quinas. Paulo Bento que é assumidamente contra as naturalizações, já afirmou que nunca pediria a aceleração do processo de naturalização de um atleta para representar Portugal. Concordo com o seleccionador quanto ao acelerar destas questões: a partir do momento em que o jogador é português passa a ser analisado e tratado como todos os outros, mas não faz sentido invocar interesse nacional para acelerar um caso futebolístico. Até seria desrespeitoso para os cidadãos que trabalham e vivem em Portugal e esperam o tempo necessário para adquirir nacionalidade lusitana.

Esta questão ainda é muito mal vista em Portugal, onde ninguém aceita que um estrangeiro qualquer se naturalize e jogue pela equipa A: “Ah porque não tem parentes portugueses, nem nada a ver com Portugal”; “Esse nunca jogou nem viveu cá! Só porque tem passaporte e parentes portugueses, pensa que pode representar a selecção!?” – São alguns dos argumentos, válidos, mas hipócritas que se ouvem por aí.

Portugal durante décadas explorou ao máximo o filão das antigas colónias, usou e abusou de lendas que de portuguesas tinham pouco ou nada, com o simples argumento de que os territórios pertenciam ao nosso país – Logo todos que ali nascessem eram portugueses. Uma ideia sem nexo, já que os países tinham cultura, idiomas e costumes próprios que os tornavam unos e independentes de Portugal. Quem como eu conhece pessoas que durante o período ultramarino nasceram, cresceram e fizeram a vida nas ex-colónias sabe bem que elas se sentem angolanas, moçambicanas e por aí fora. Portugal é apenas um país irmão, que tem relações especiais com os países de origem mas nada que lhe permita transformar os tesouros africanos em cidadãos lusos, apenas em proveito próprio.

aladje-e-brumaBruma e Bosingwa por exemplo nasceram na Guiné e no Congo, não têm ligação nenhuma a Portugal e expressam-se num português medonho, mas ninguém se opõe às suas presenças nas selecções nacionais. Rolando, Nani, Aladje ou Anthony Lopes são apenas alguns exemplos de jogadores da selecção nacional que de portugueses possuem basicamente o passaporte e não são contestados por terem representado, primeiro, os nossos escalões jovens. Aliás as selecções nacionais jovens estão carregadas de guineenses, angolanos e outros jovens estrangeiros que chegam adolescentes ao país e são naturalizados para usufruirmos do seu talento. Se chegam mais tarde, mas cumprem os requisitos necessários – seis anos para ter nacionalidade, como Fernando, – que curiosamente chegou a Portugal no mesmo ano que Bruma, porque não convocar estes jogadores se têm cidadania portuguesa e qualidade para serem mais-valias na selecção A?

Situações como a de Fernando ou Diego Costa vão ocorrer de forma cada vez mais recorrente. Em França e na Alemanha são corriqueiras e encaradas naturalmente, graças à globalização que se vive no futebol e também na Europa. Os portugueses aceitam de bom-tom que alguém que viva há imenso tempo em Portugal ou tenha parentes lusos, tenha passaporte português, contudo recusam que defenda a selecção. Parece-me apenas uma questão de orgulho, difícil de aceitar.

A minha sugestão é simples: todo atleta estrangeiro que tenha cidadania portuguesa e interesse em representar a selecção, deve expressar por escrito à FPF e ao público em geral esse desejo e deve, a partir desse momento, abdicar da equipa do país de origem. Para que por exemplo Fernando ao assumir que quer jogar por Portugal, não seja chamado pelo Brasil e aceite a convocatória. Se assume o desejo de estar com Portugal, tem de ter a hombridade de não desistir dele e mudar de ideias conforme o sabor do vento. Portugal tem excelentes casos, em várias áreas do desporto, de atletas “estrangeiros” que representaram as cores nacionais com afinco e por vezes até maior empenho do que muitos desportistas made in Portugal. Tem a palavra Paulo Bento.

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SONY DSCBruno Gomes

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4 thoughts on “Naturaliza-te Portugal

  1. Há muito tempo que concordo com este ponto de vista. Critica-se as chamadas de Liedson, Deco (na altura) e Pepe, mas não se faz o mesmo em relação a Rolando (este, até, carregou a bandeira da Guiné quando o FC Porto ergueu a Liga Europa), Bosingwa e muitos outros.
    Considero, porém, Pepe um caso especial: tendo nascido no Brasil é alguém que se identifica mais com a cultura portuguesa do que a brasileira, e é mesmo em Portugal que tem toda a sua vida extra-futebol. A mim não me choca a sua chamada. Por outro lado, não considero pertinente a “naturalização” de alguns jogadores (Deco em minha opinião foi um deles) puramente para valorizar a sua carreira profissional.
    É importante ainda não esquecer aqueles jogadores que se naturalizam porque querem continuar a viver na Europa depois de terminarem a carreira e a dupla-cidadania facilita muitos processos.
    Para uma chamda à selecção, contudo, que deve ser o mais representativo possível do que um país é (neste caso em termos de futebol) deve incluir apenas os jogadores que se identificam com o país e a sua cultura, não devendo ser chamados porque “dá jeito” à selecção e/ou para valorização dos jogadores em termos profissionais

  2. O Nani não é de todo um caso! Foi nascido e criado em Portugal depois de ter sido abandonado pelos pais (de origem cabo-verdiana) e portanto trata-se de um cidadão português totalmente legítimo.
    O Bosingwa, cujo pai é português, veio para Portugal aos 13 anos, tal como o Bruma (se bem que este não tem, aparentemente, ascendência portuguesa), e fruto da sua evolução chegou a seleção portuguesa tendo optando naturalmente pela nossa em virtude da da RD do Congo. Em relação ao Aladje e Anthony Lopes, a única ligação que têm a Portugal é parental, parecida com a que os meus primos de 25 anos que vêm de França passar cá o Agosto. Conclusão, o que deve mudar, na minha opinião, é a legislação, que permite de forma lisonjeira uma automática dupla-nacionalidade via parental (pais e avós). Assim, um cidadão só deveria tornar-se português após vivência comprovada no país durante um determinado número de anos (5, 10 anos), não obstante a naturalidade dos pais.
    No entanto, este facto não valida nem mais nem menos a naturalização de jogadores brasileiros, como se parece querer fazer parecer na leitura do artigo. Aliás, as naturalizações de jogadores como Pepe, Deco e Liedson não passaram de “contratações” circunstanciais para reforçar setores fragilizados da nossa seleção, tal como fazem Benfica e Porto em Janeiro quando algo corre mal. Eu admito, em termos fiscais e de legislação, que um cidadão se torne português após um determinado número de anos, no entanto a FIFA, à parte destas questões legais, deve por termo a esta escalada e definir limites de naturalizados, sob pena de perda de identidade das seleções.
    Aliás, essa questão da França é uma falsa questão! Zidane, Henry, Lizarazu, Djorkaeff, Anelka, Wiltord e Pirès nasceram e cresceram em França. Vieira, Thuram e Desailly nasceram fora de França mas mudaram-se com 8, 9 e 4, respetivamente. Da grande geração de 98 e 2000, acusada de não ser puramente francesa, apenas Trezeguet e Karembeu podem ser considerados “naturalizados”. O primeiro nasceu em França mas cedo se mudou para a Argentina e o segundo apenas com 17 anos chegou a França.
    No basquetebol, uma modalidade com uma gestão claramente avant-garde em relação à evolução do jogo e à realidade que o envolve, a FIBA define como limite máximo 1 atleta naturalizado em 12, que compõem o plantel de uma seleção para uma competição internacional. No futebol, e tendo em conta o tremendo efeito da globalização, eu acho que seria razoável impor um limite de 3/4 jogadores de entre os 23.
    Para concluir, gostava apenas de dizer que esta questão é demasiado sensível e se aos olhos da lei não passa de um número de dias de estada num país, para um selecionador pode significar bem mais. Independentemente da legitimidade da cidadania portuguesa do Fernando, caso venha a jogar pela seleção de Portugal, para mim, vai soar sempre a contratação de inverno.

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