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Serve esta história como aviso, provavelmente até, lição de vida: se, por algum recôndito motivo, lhe aprazer fazer-se refém, não se ponha a desejar ardentemente pelo resgate…pois poderá ter de, integralmente, o pagar do seu próprio bolso.

«Quem anda à chuva molha-se» – poderia ter sido esta a frase pronunciada pelo tribunal administrativo de Berlim, ao decidir contra o apelo de Reinhilt Weigel, cidadã alemã que, no banco dos réus, se debatia contra a mão esticada do governo germânico, não pedinte, invés reivindicativo: um simples e lacónico «paga o que deves», já que, na açepção do Estado alemão, Reinhilt Weigel foi imprudente ao realizar uma travessia turística pelos arredores da Savana de Bogotá. Pois bem, eis o sumo da história: Weigel foi capturada por uma milícia rebelde apelidada de Exército de Libertação Nacional e feita refém, em cativeiro permanente, durante 74 exaustivos dias: vítima de maus tratos físicos e psicológicos, nutrição deficiente, sujeita a caminhar intermináveis quilómetros sob as ordens dos raptores, enfim, uma autêntica estadia num Ritz-Carlton, na precisa medida de quem solta uma gargalhada confortável enquanto se joga para os lençóis de seda de uma cama redonda esperando pelo serviço de quartos que, a qualquer minuto, dará entrada de lagosta e Palmes d’Or em riste.

Reinhilt Weigel foi libertada pela facção colombiana e, no cimo do monte tinha, à sua espera, um amigável helicóptero alemão, instruído pelas forças armadas suas conterrâneas, propositadamente para a resgatar do local, levando-a em segurança até Bogotá, de onde Weigel partiu (às suas expensas, refira-se) de volta a casa. Qual não foi o seu espanto quando, dois meses depois, lhe é comunicada a…conta. Sim, a conta referente aos custos inerentes ao uso do helicóptero usado para a resgatar da selva colombiana, das mãos dos raptores da frente de libertação rebelde. Inenarrável. Inconcebível. Depois de raptada, maltratada e manipulada à mira de metralhadora, Reinhilt Weigel era confrontada com o ónus de 13.000 euros de responsabilização, exigidos como pagamento dos meios alocados pelo governo alemão para a retirar do turismo tornado pesadelo.  O argumento do governo baseava-se na interpretação de que Weigel tinha sido «negligente», tendo-se colocado numa situação iminentemente perigosa. Daí a conta apresentada à cidadã, segundo o governo, uma desaforada aventureira que viajou para a Colômbia ansiando por um cano de metralhadora bem colado à sua nuca: confessemos, quem nunca sonhou com um rapto bem à medida de um sinistrorso subconsciente Síndrome de Estocolmo? Todos nós, sem reservas – depois de um bom rapto, só uma aconchegante reviravolta inversa à lógica pode rematar da melhor forma um cativeiro extenuante.

Weigel bem que podia ter-se apaixonado por um qualquer colombiano rebelde: por esta altura, em vez de debater-se com os juros sufocantes da dívida que ainda hoje vai pagando na civilizada Berlim europeia, estaria sim de bandana enfaixada sobre a testa, empunhando uma AK-47 enquanto orientava reféns (turistas, como subentende o Estado alemão) pelos trilhos meândricos da latina savana, a paredes meias com a suburbana Bogotá. Pelo menos ao seu bolso cosmopolita ninguém lhe ia, nem juros para pagar ou apelos em tribunal com que lidar – só gemidos suplicantes de turistas fartos de se regozijar.

O dever de um Estado de Direito, que cobra impostos e incorpora em si o princípio basilar da solidariedade para com os seus cidadãos (e contribuintes), é o de prestar apoio inequívoco aos seus habitantes, usando da riqueza que deles extrai para os auxiliar nas horas de maior aperto e necessidade – é para isso que existe Estado social. É para fins como este que existem países, comunidades, embaixadas, representantes políticos, ministérios, diplomatas, impostos, helicópteros, forças armadas, submarinos ou o raio que parta o Estado alemão, que toma um refém por turista. O Estado alemão não foi, para com Reinhilt Weigel, pessoa de bem. Agiu como um raptor, oportunista. Com estados europeus chegados a este estado, cidadão cumpridor só pode – não vejo outra hipótese – ter sido tomado pelo Síndrome de Estocolmo.

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Bruno Cardoso desenhoBruno Falcão Cardoso

* O autor opta por escrever em desacordo com o Novo Acordo Ortográfico e em respeito para com a Língua Portuguesa.

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