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Sou um pacifista. E sei bem, por isso, que defender a paz é desafio bem mais difícil do que ser pela guerra. A paz é coisa fugaz, sempre temporária, perenemente transitória. A guerra é que é vertigem, o ralo da banheira, a promessa última e sempre presente. A guerra está sempre latente, e por toda a parte. Mais do que isso, a guerra pode ser sempre mais do que a paz. Muito mais. A paz está logo depois da soleira da porta. Depois de se esfregarem as solas sobre o tapete da rua para que as balas e a terra e as granadas fiquem lá fora, entra-se na paz, e a paz está tanto nesse primeiro passo dentro de casa como em todos os subsequentes, na sala, no quarto, ao longo do corredor. A paz não tem grau nem degrau; é morada e moradia de piso térreo. A guerra não. A guerra pode não acabar nunca e ser crescentemente pior. Cada vez mais coisas podem ser destruídas de formas cada vez mais espantosas. É sempre assim e a evolução da espécie tem-se reflectido sempre na sua crescente capacidade para esbardalhar coisas das formas mais fantásticas. Já o dizia o escritor Santos Fernando: «Tudo o que é belo é destrutível, tudo o que se espatifa é que satisfaz.» A prova está naquilo que tememos: tememos que a paz acabe, porque lá no fundo sabemos que ela acaba sempre, assim como tememos que a guerra não acabe nunca, porque sabemos bem que, de algum modo, ela não admite pontos finais.

É claro que a guerra e a paz são temas de monta, alguns dos maiores que a nossa espécie enfrenta, e esse estatuto obriga a que lhes dispensemos dose bem servida de atenção. Perante eles — a paz e a guerra — não vale usar de facilitismos. E também por isso a paz é bem mais difícil, complexa e exigente. Porque a guerra é, por natureza, fácil, e está ao alcance de qualquer criança. A guerra é a bofetada, o espasmo, o impulso. É a irreflexão que deflagra como petardo, a emoção a crepitar como napalm, e o repente de um morteiro. Egos e ideias embatendo de frente uns nos outros, umas nas outras, como ondas de rebentação em simetria, convergindo para um centro-vítima, e com a benesse de mesmo poder dispensar as surdinas da reflexão, para que não lhe ergam entraves. A paz não. A paz deve pautar-se por um programa, deve saber pensar-se e conseguir legitimar-se. A paz precisa de convencer. E sobretudo, para que a levem a sério, a paz precisa de saber quando deve dar o braço a torcer. E é aí que quero chegar.

O bom pacifista não é aquele que faz dos dias um contínuo de gritaria em nome da paz. Ela não se contenta com cartazes. O pacifista deve saber quando, em defesa da paz, é preciso usar da força, e isso não significa imitar a guerra. Assim no teatro como na vida: Chekov dizia que quando em cena está uma arma, é forçoso que ela venha a ser disparada. Se as armas entram em cena, não é já possível escapar-lhes. Quem saca de uma arma sabota de imediato todo o mundo, implode-lhe qualquer possibilidade de que as coisas se passem de outro modo. As palavras são poderosas — talvez não encontrem partidário dessa ideia maior do que eu –, mas saindo debaixo da alçada da poética — para que nehum inocente se magoe fazendo demasiada fé nas palavras –, os 9mm de chumbo de uma bala abrem sempre ferida maior e mais dolorosa do que o mais trágico poema. Mas nada disso interessa. Onde quero chegar é que o pacifista deve saber quando parar, porque tudo isto tem muita graça até alguém perder uma vista. Quando a ameaça nos vem da guerra, não podemos esperar combatê-la com palavras e razão. Em guerra, estamos já fora disso, longe desse campo de possíveis. Aí, a alternativa é desertar, e nada mais.

Um dos problemas da paz — e de muito pacifista com ela — é que ela se esquece de que vai existindo apenas no intervalo das guerras, num pit stop fugaz enquanto se mudam as lagartas aos tanques e se recarregam espingardas. Porque é em paz que a paz deve fazer o seu trabalho. Quando a guerra rebenta, não teremos a sorte do Solnado, e a porta estará sempre aberta, escancarada, e, por capricho de um míssil mal calculado, talvez não exista já mesmo porta alguma. Quando somos largados perante a guerra, já não há forma de convencer os seus intervenientes ao diálogo. Porque a guerra, como qualquer sistema, só admite aquilo que a reproduz, aquilo que a pode fazer continuar, e ela escala rapidamente. É por isso que ela não acaba nunca,  que ela é vórtice apetecível, força centrípeta, ainda que as armas dêem ares de se silenciar ou que se mudem para outras paragens.

Da guerra convencional à guerra fria, da guerra-relâmpago à guerra suja, a guerra do consumo e do gosto, a dos partidos, a das marcas e a dos sexos. A paz tem missão talvez impossível, mas impossível será certamente enquanto quem a defende se fizer apenas de marchas e cartazes. A paz tem de provar-se mais do que a guerra. Tem de seduzir e convencer. Nada no mundo nos permite descansar à sombra de uma árvore, crendo que a paz é coisa universalmente tida como boa, e que por isso tudo para ela tenderá. Não há, em pedra nenhuma, em gruta, árvore ou superfície arenosa, nada que nos permita acreditar nisso. Fora de cada um de nós, não há em qualquer parte sinais que nos permitam decidir ou fazer fé no que quer que seja. O ónus está em nós, e a paz não pode contentar-se em ser ausência de conflito. Ela tem de ser produtora em si mesma, e a arte é uma resposta muito legítima. Deixo-vos por isso o Boris Vian, cantando Le déserteur, poema anti-bélico, capaz de mais bem concluir este texto do que eu próprio.

Hugo desenho 4sc2Hugo Picado de Almeida

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