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Passam hoje três semanas da data em que comprei o passe Navegante Rede, algo que não fazia desde os meus tempos do secundário. Custou-me 40 Euros e nos termos e condições lia-se que o serviço que eu agora adquiria era válido por 30 dias para toda a larga teia de linhas e carreiras do Metro e da Carris. O preço pareceu-me exagerado, mas a proposta era-me ainda assim rentável pela utilização diária que eu pretendia dar àqueles transportes públicos. “Pretendia” e acabei por continuar a pretender, já que neste curto espaço de tempo tive a oportunidade de desfrutar de dois dias de greve. E pelas ruas da cidade vislumbra-se o clássico “Viaje com a Carris”, slogan que esconde uma segunda metade tão importante quanto a única que é revelada: “Excepto em dias de greve”.

Na primeira das vezes rádios e televisões publicitaram o evento com todo o mediatismo e foi com alguma antecedência que eu fiquei a saber da existência daquele dia de greve, restando-me a hipótese de pegar no carro para chegar ao destino desejado. Já na segunda ocasião o cenário foi um pouco diferente: passavam poucos minutos das nove da manhã quando ouvi o pivô do telejornal matinal relembrar que daí a meia hora deixaria de haver autocarros em Lisboa. Fiquei surpreendido especialmente pela proximidade com a outra tão recente greve, e mais uma vez fui obrigado a utilizar o meu veículo próprio. Ainda pensei em encaminhar a fatura da gasolina para a sede dos Transportes de Lisboa, mas achei que não valia a pena o esforço.

Qual não é o meu espanto quando ontem, no longo caminho de regresso a casa, oiço na rádio que o Metro tem já agendados mais dois dias de greve parcial para este mês e que, segundo o Coordenador da Federação de Sindicatos dos Transportes José Manuel Fernandes, está ainda programado mas um ciclo de paralisações a partir do próximo dia 29. A notícia desta feita desencadeou em mim um sentimento de revolta que me fez alterar a minha opinião sobre este fenómeno; apenas quem utiliza diariamente os transportes públicos tem a noção do verdadeiro impacto causado pelas greves.

É certo que este é um direito previsto na Constituição da República e que o presente contexto económico e político justifica todas as formas de protesto não violento que possam estar ao alcance da população. Os trabalhadores dos transportes públicos não são excepção e a sua revolta é compreensível face aos duros cortes a que foram sujeitos, disso não há dúvida. Mas ao contrário do que se possa pensar, os grandes prejudicados destas paralisações não são os governantes, os altos directores destas empresas ou os membros das elites corruptas deste país, porque esses deslocam-se em Mercedes topo de gama e nem sabem se os carris do Metro se situam por baixo ou por cima das carruagens. Os que realmente sofrem com as greves são os utentes, todas as pessoas que dependem dos transportes para chegar aos seus postos de trabalho e que sem eles acabam por ter as suas rotinas irremediavelmente condicionadas aos mais variados níveis.

Parece claro que a culpa desta consequência directa para os utilizadores transportes não pode ser atribuída a quem exerce o seu direito de greve e se recusa através deste acto a compactuar com as injustiças económicas, laborais e sociais impostas por este Governo (haja alguém do povo a lutar pelos seus interesses neste canto à beira mar plantado). Todavia, é em igual medida coerente afirmar que quem pagou um determinado valor por um determinado serviço durante um determinado período temporal tem o direito de o poder usufruir efectivamente nessas condições. Imagine o que seria o caro leitor pagar um valor mensal por uma operadora de televisão, como provavelmente o fará, e não ter sinal durante dois ou três dias por mês devido a motivos de greve? A situação com os transportes é semelhante e se o fenómeno das greves é para continuar então tem que ser implementado um mecanismo de defesa dos utentes, reembolsando-os monetariamente pelos dias que não puderam usufruir do serviço que pagaram ou acrescentando aos 30 dias correspondentes à duração original do passe tantos outros quantos os que registaram greves totais ou parciais nesse período. Afinal, se tudo isto acontecesse com a televisão que nos faz companhia todos os serões não exigiríamos nós à operadora idêntica contrapartida?

diogo-taborda-desenho-e1360007654750Diogo Taborda

One thought on “Viaje com a Carris (excepto em dias de greve)

  1. Óptimo e interessante texto.
    Efectivamente espanta-me como é que o tribunal constitucional que chumba tanta coisa, não salvaguarda o reembolso dos utentes relativamente aos dias em que não estão a usufruir do serviço.
    Vinha só sugerir ao autor, para experimentar, caso seja viável na sua situação, nos dias de greve dar uso à bicicleta, talvez seja mais rápido e económico que o carro.

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