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Os dois últimos dias têm sido inimagináveis na vida do presente projecto que, juntamente com os meus colegas e amigos, tenho o dever e o prazer de integrar – à medida que redijo estas linhas, faço contas às leituras registadas nos últimos dois dias e sinto a dissonância plena, própria da ambivalência que me perpassa o intelecto. Oitenta e cinco mil leituras em pouco mais de dois dias: indubitavelmente, um marco histórico que para a memória do projecto será cicatriz indelével – para o bem e para o mal.

O progresso desta nossa iniciativa é claro, e, mês após mês, essa ascenção vai-se justificando na panóplia de tópicos analisados, na qualidade e pertinência diária das nossas reflexões – essa tem sido a marca d’água do ímpeto incansável do «Palavras ao Poste», e a quem apraz ler e discorrer sobre temas cruciais da sociedade civil, certamente que tem ficado agradado, se não pela proficiência dos artigos, pelo menos pela audácia e persistência da equipa que os projecta e elabora, na esperança de encontrar nos outros uma leitura à espera de ganhar vida. Ora, nos dois últimos dias, o rescaldo do jogo entre o Benfica e o Sporting levou dois de nós a discorrerem sobre a partida: Bruno Gomes à Segunda-feira, Joni Francisco à Terça – a resposta do público, sempre hiperbolizada pelo mediatismo global da comunicação, tão estéril quanto iníquo, foi avassaladora. As visitas ao «Palavras ao Poste» foram, nessa janela temporal, uma massiva reacção da audiência: fico feliz pelo protagonismo que o projecto ganha cada vez que um fenómeno destes se sucede, pois tal é sinónimo de expansão estrutural. Mas não me posso sentir realizado quando ondas de adesão como estas se materializam somente no âmbito de temas futebolísticos – a procura é o espelho chapado do intelecto de quem procura. E facilmente se percebe que a vasta maioria da sociedade portuguesa «rasga as vestes» ao dissecar o futebol, ferve e discute e range de raiva e convicção, mas, quando o assunto é civil, estatal, governamental, sócio-político, económico, histórico, filosófico, cultural…a reacção é outra: passiva, mole, sonolenta, preguiçosa, anémica e desinteressada. Por tal, surge esta ambivalência minha, que no fundo me alerta para o que de mais existe no mesmo – somos um povo iletrado no que a assuntos elevados diz respeito.

Posto isto, sinto até a injustiça que deverão sentir Bruno Gomes e Joni Francisco, que ao longo de todos estes meses já nos brindaram com muitos artigos plenos de qualidade, onde os futebolísticos se incluem, obviamente. Mas qualquer leitor assíduo saberá que muitos outros foram também por ambos escritos: artigos sublimes, altamente superiores em análise, pertinência, originalidade e sinceridade…mas que, infelizmente, nunca granjearam da mesma aceitação massiva e hipertensa de que estes dois últimos foram alvos. Ademais, não posso, de modo algum, ficar feliz pela forma ridícula, abusiva, perturbadora e manicomial, com que vários leitores atacaram e insultaram, tanto o meu querido amigo Bruno, como o meu igualmente querido amigo Joni. Assim fica descrita, então, a cicatriz indelével a que me referi no início deste meu artigo de hoje, que ganha corpo de reflexão presente, vislumbrando o que nos é corrente, ao corrente duma ambivalência que memoriza o bom e o mau, o travo da vitória e o amargo de boca, que certamente é partilhado por todos os membros do «Palavras ao Poste», desde mim ao Hugo, passando pelo Diogo, pelo André e pela Mara, numa definida sintonia solidária.

Termino, retirando as minhas asserções sobre este pequeno grandioso fenómeno: ele chega até nós por linhas tortas. E, em simultâneo, traduz o analfabetismo latente que grassa pela nossa sociedade disfuncional, desde o trolha ao doutor. Tornamos questões de lazer em matérias de Estado, e fazemos das matérias de Estado meras questões de lazer. Infelizmente, isto explica Portugal. É verdade: é somente uma linha de texto, mas para este país, chega e sobra.

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Bruno Cardoso desenhoBruno Falcão Cardoso

* O autor opta por escrever em desacordo com o Novo Acordo Ortográfico e em respeito para com a Língua Portuguesa.

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2 thoughts on “O Estado do lazer

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