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Voltou esta semana Pyotr Pavlensky a ser notícia, voltou uma vez mais a causar impacto por meio das suas acções, sempre desarmantes, sempre desconcertantes.

O russo, artista por natureza, louco por julgamento, decidiu desta vez pregar parte dos seus genitais ao chão da Praça Vermelha, em Moscovo, procurando uma vez mais fazer valer-se da força dos seus gestos para multiplicar e disseminar a interpretação dos mesmos e o valor simbólico que pretende ver representado em palavras, em discurso, em debate.

O reboliço verbal gerado pelas performances de Pavlensky é sempre imediato, como o que agora vai irrompendo pelas redes sociais. A semiótica das suas produções catapulta o mais variado leque de reacções, algumas de respeito, a maioria a roçar a consternação.

Era ainda manhã na última segunda-feira já ele tinha pregados ao chão os seus testículos, pedaços de carne humana colados à mesma terra  que há não muitos anos atrás era calcada e abalada pelo peso da antiga URSS, sustentada nos pés e nas botas dos militares que ali desfilavam e ostentavam o regime soviético.

Hoje, passadas décadas do derrube desse mesmo regime, a simbologia da crucificação do escroto de Pavlensky, na Praça Vermelha, traz para cima da mesa a discussão à volta da reincidência de padrões de comportamento e actuação do passado.

Ainda que indecifráveis ao olho nu, tendencioso e precipitado, os significados do novo acto de protesto do artista remetem para esses mesmos sinais e evidências da contemporaneidade russa, discreta e silenciada. Um quadro de re e opressão que continua a ser desvalorizado, e que nem o grito de Pavlensky serviu para fazer despertar.

Em vez disso, deram-se ao trabalho os meios de comunicação social russos, instruídos ou não, de vasculhar e denegrir a vida deste homem de 29 anos, colando-lhe o autocolante de louco e desequilibrado, marginal e extremista.

A mesma imagem que os olhos e os ouvidos que leram e ouviram a notícia desta acção de protesto não tardaram em partilhar, fazendo-se cegos e moucos perante as palavras do pintor, ao descrever o objectivo da sua actuação: “A performance pode ser vista como uma metáfora da apatia, indiferença política e fatalismo da sociedade russa contemporânea. Enquanto o governo transforma o país numa enorme prisão, roubando às pessoas e usando o dinheiro para enriquecer e fazer crescer o aparato policial e outras estruturas repressivas, a sociedade permite isto e esquece a sua vantagem numérica”, afirmou. 

A força do acto performativo de Pyotr Pavlensky tem por isso o senão de desviar o foco dos mais “distraídos”, cuja atenção tem recaído sobre o insólito ao invés da acepção da sua mais recente obra.
Ao mesmo tempo que os relatos de violação dos direitos humanos no país se vão intensificando e multiplicando, a  iniciativa de Pavlensky não deixa de ser um teste à real inquietação da comunidade internacional perante este quadro, e simultaneamente ao autismo latente da sociedade russa.

O aparente “capricho” do pintor, apelidado de doente mental, é na verdade a representação da dor e do sofrimento do povo russo, a reprodução da violentação física e psicológica dos seus cidadãos e que a mutilação do corpo de Pavlesnky pretende simbolizar.

O escárnio ao seu gesto é apenas mais um incentivo às políticas seguidas por Vladimir Putin, o desorientado e atordoado líder da Rússia que tem procurado combater a sua fragilidade política com medidas de repressão e persecução policial.

Desde as polémicas eleições do ano passado, com suspeitas de fraude eleitoral, a governação de Putin tem-se reflectido de forma assombrosa junto da sociedade civil russa, com sucessivas manobras de controlo e perseguição que voltam a enquadrar o país num plano de isolamento e autoritarismo, a partir dos resquícios ainda bem vivos da antiga URSS, e que se reflectem na confrontação com o ocidente e os Estados Unidos,   intrincando fenómenos como a xenofobia e o nacionalismo. Estes comportamentos, que Putin não se preocupa em erradicar, antes pelo contrário, estão nesta altura a disseminar-se a alta velocidade pela sociedade russa. 

Depois de ter cosido os lábios, no ano passado, e de se ter enrolado em arame farpado em frente ao Parlamento, já este ano, não quereria provavelmente Pyotr Pavlensky aplausos e risotas à sua última performance, denominada “fixação”, mas antes uma reflexão ao caminho traçado pelo seu país. Gostaria eventualmente Pavlensky que juntando as peças dos constantes relatórios e alertas de vários observatórios internacionais, assim como manchetes mediáticas como aquelas envolvendo a banda de punk-rock Pussy Riot, se despertasse para a realidade do que vai acontecendo pela Rússia. Como as reformas recentemente empreendidas pelo governo de Putin que procuram limitar ainda mais a liberdade da sociedade civil e a capacidade de monitorização da comunidade internacional. Entre essas medidas, a obrigatoriedade das ONG’s russas financiadas no exterior se declararem “agentes do estrangeiro”, e desta forma “potenciais espiões” do país, assim como o agravamento das sanções a participantes de manifestações contra o governo.

Como pano de fundo de todas estas medidas a grande instabilidade vivida na Rússia nos últimos meses, a que o governo vai respondendo com o desvio de fundos para as forças policiais e o adiamento das reformas estruturantes para o país.

E o que tem a auto-flagelação de Pyotr Pavlensky que ver com isto? Pouca coisa, talvez nenhuma. “São minutos de fama reclamados por um doente mental,  inconsciente” – um maluco qualquer. Será? Na verdade, a incosciência de Pavlensky é assustadoramente mais esclarecida do que a escuridão da indiferença de todos nós que dela troçamos, e que sobre ela escrevemos. É por isso a performatividade das suas acções bem mais performativa do que as nossas intenções, passivas e inconsequentes.

O activistas, desde sempre olhados com desdém, acabam por fazer muito mais do que os que lhes criticam os seus excessos, e apontam à sua inutilidade. Na realidade, são muito mais estes gestos capazes de fazer a diferença do que a troça feita em casa, de frente para o ecrã.

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???????????????????????????????André Cunha Oliveira

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One thought on “Quanto valem os testículos de Pavlensky?

  1. Reblogged this on BlindRhymes and things that'll blow your mind… and commented:
    Acham que é necessário ficar pregado ao mar para ter justiça neste mundo? Eu penso que não… corpos sem consciência e sem alma são meros cadáveres adiados à espera da única certeza com a qual nasceram. A morte é paciente e o Karma é o verdadeiro tribunal de consciências… um viva ao Ministério de Justiça. Tardou, mas sempre cá esteve desde que o tempo é tempo no espaço.

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