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                                             Margarida-Rebelo-Pinto

O meio cultural, em Portugal, tem tão de rico como de hilariante. Depois de um ex-ministro da Cultura ter sido acusado de violência doméstica, e de se ter defendido em praça pública com o facto de a sua companheira ser bêbada, chegou-nos, rapidamente, mais um bom exemplo de que os bons intelectos residem por cá. Residem por cá, escrevem livros e são líderes de vendas. Falo-vos, obviamente, de Margarida Rebelo Pinto. Que escolheu a altura de lançamento da sua 19ª obra de renome, para dar uma série de lições, em canal público de televisão, sobre austeridade e formas de apoio ao governo, aos seus compatriotas. E, no que a mim me toca, só tenho a agradecer.

Se existia alguma ideia estereotipada, de que os grandes escritores são indivíduos mais introspectivos, do que capazes de se debater em público e opinar sobre as conjecturas em que se inserem, a Guidinha (permitam-me a liberdade de a tratar assim) dissipou-a. E mostrou-nos precisamente o contrário. Um grande escritor, líder de vendas, pode bem ser o melhor comentador que uma televisão pode angariar. E, mais do que isso, pode muito bem ser o melhor comentador que um partido político pode escolher para se fazer apoiar. Paulo Portas sabe, de facto, rodear-se de amigos fiéis e, do ponto de vista do telespectador, tenho pena que a aparição da «escritora» tenha sido pontual e não passe para um plano semanal e sistemático de intervenção pública. Era Marcelo Rebelo de Sousa na TVI e Margarida Rebelo Pinto na RTP. Incomparáveis e notórios, os Rebelos da opinião em Portugal.

Sugestões para conteúdos televisivos à parte, interessa chegar ao conteúdo (ou à ausência deste) na dita intervenção da «escritora», que, perceba-se porquê, feriu o já fraco orgulho da sociedade portuguesa, em geral, mas especialmente daqueles que se tendem a manifestar e insurgir contra as políticas governamentais. E a esses, que acham que o seu poder manifestante poderia ser tido como um esforço activo na mudança, desenganem-se. Porque estão a causar repulsa à Guidinha. E isso não é nada bom, não. Que lhe causa interferências com o seu poder de escrita. Paremos de nos manifestar, então, que em causa está a 20ª obra da «escritora». É que ela, revela, mora perto da Assembleia da República, pelo que eventuais desfiles deprimentes contra o Governo, poderão causar-lhe algum incómodo. A ela, e a quem tenta fazer o seu trabalho pela salvação do país, na própria Assembleia.

Se a Guidinha me permite uma opinião, e bem sei que é difícil aceitar uma opinião diferente da sua, acho que é normal esse sentimento de repulsa na sua pessoa. Não só por manifestantes, mas por todos os que não cheguem a padrões de vida semelhantes ao seus e do amigo Portas, claro. Olho para si e vejo estampado, nesse olhar de desdém, a palavra repulsa. Aposto que está a ter, nestes últimos dias, demasiado sentimento de repulsa pelas criaturas que se manifestam nas Filipinas, por pão e comida. Que horror. Levam com um ventinho, não se aguentam, e ainda querem pão e comida de graça. Repulsa, não é?

Nem a propósito, e porque sei que a Guidinha só se entende a si própria, encontrei uma crónica sua, com um tema demasiado importante e que serviria de lição a milhares de filipinos. Chama-se «Faz Frio» e, apenas pelo título, verifiquei que era assunto para uma reflexão escrita, como as que se assistem por estes dias no Facebook. A única diferença é que a Guidinha é uma grande «escritora» e por isso está investida de importância para falar nas coisas. Permita-me, então, partilhar com os leitores, o início da sua profunda reflexão, digna de Nobel:

«Devia escrever sobre imensas coisas importantes que me vão passando pela cabeça, mas só me apetece desabafar sobre este frio implacável e devastador que me gela os ossos e a alma, a mim e a mais de dez milhões de portugueses. Com esta mania que Portugal tem um bom clima andamos todos a congelar dentro das nossas próprias casas. É um suplício, um sacrifício inútil e sem solução, uma ASCRONICASDAMARGARIDApromessa involuntária, um fenómeno absurdo e devastador que nos encolhe por dentro e por fora».

É por rasgos criativos como este que penso que, se os portugueses tivessem ainda mais atentos aos seus livros, não existiria qualquer lugar a polémica. É que o que a Guidinha sente pelo frio, é exactamente o que os portugueses sentem pela austeridade: «É um suplício, um sacrifício inútil e sem solução, uma promessa involuntária, um fenómeno absurdo e devastador que nos encolhe por dentro e por fora». Apenas os alvos de repulsa são diferentes. Mas entre a meteorologia e o governo é tudo mais ou menos a mesma coisa. Nunca sabemos o que vem aí. Portanto, façamos as pazes.

Até porque a gostei da forma como defendeu os dignos trabalhadores. Os dignos trabalhadores da Assembleia da República, que estão em busca da salvação nacional. Gostei, principalmente, de ver como a sua opinião mudou em relação aos seres qualificados para administrar o país. É que encontrei mais uma crónica sua, de há uns anos, com o título de «Já não há» e onde a apreciação da «escritora» era bem diferente:

«Embora a Assembleia continue a ser o palco de grandes tiradas operáticas, na prática anda tudo com a cabecinha baixa e o rabinho entre as pernas. Uns demitem-se com o único intuito de voltar à cena política mais tarde com a imagem lavada, enxaguada e fortalecida, outras parecem ovelhas manhosas a ver quem é que tem mais apoios para depois seguir o pastor eleito por maioria, mesmo que não seja do seu agrado, e a maioria fala muito mas não diz nada e faz ainda menos».

Confesso que fiquei confusa e surpreendida. Primeiro, porque a Guidinha consegue escrever sobre o que realmente importa. Depois, porque estas palavras, embora já antigas, não poderiam ser mais actuais. E, no fundo, apenas retractam, e com exactidão, o governo trabalhador, que tanto apoia. Margarida-Rebelo-Pinto2

Outro aspecto que quero salientar, acerca da sua última intervenção pública (e ver se não me esqueço de lhe dizer que o lilás lhe fica tão bem à tez, que estava estupenda), prende-se com o facto de os portugueses se indignarem com o valor das taxas moderadores no serviço público de saúde. Que tolos! Pagam impostos e ainda querem ter acesso a serviços públicos de borla?! Sabe o que chamo a estes tipos, Guidinha? São uma «plebe rústica exaltada»! E sei bem que este é o título de mais uma crónica exemplar sua, que acho que se transmite exactamente o que acha desta gentinha.

«De todas as novas espécies de portugueses que recentemente começaram a pulular na nossa sociedade nos finais da década de 80, conta-se a que mais me enerva, me cansa, me espanta e me exaspera, a plebe rústica exaltada. A plebe rústica exaltada é um sub-produto da plebe, uma declinação infeliz da alarvidade e rusticidade que nenhuma plebe por mais boçal e simplória que fosse jamais exibiria».

Tenha calma, Guidinha. Esqueça esta plebe, que fede indignação por todos os poros. E, quanto a eventuais represálias que dela tenha sentido, em virtude das suas opiniões, peço-lhe encarecidamente que as mesmas não sejam alvo da sua atenção. Que as mentes brilhantes são assim mesmo e, por vezes, não são entendidas pela plebe.

E, cá entre nós, sabemos bem que a Guidinha é uma safada e gosta de alimentar uma boa polémica. Há uns meses foi a crónica sobre as gordinhas, que, segundo diz, têm a mania que são divertidas e simpáticas. Existirá certamente um índice que mede a proporcionalidade do peso com o grau de divertimento de uma mulher. E, agora, só trocou as gordinhas pelos pobres. A única ressalva que lhe faço, é que o mesmo índice que mede o divertimento, é inversamente proporcional nos pobres. Estão sensíveis, os coitados. E não sabem acatar estas críticas no mesmo tom de brincadeira que as gordinhas. Porquê? Porque têm fome!

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Mara Guerra

* Autora do «Visão Curta» e colaboradora do «Palavras ao Poste»

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