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1477431_473760796073735_1090404438_nA euforia histriónica que avassala Portugal por alturas destes jogos de bola encerra de facto, sobre o país, uma nuvem de maresia hipnótica que nos deixa a naufragar na promessa vazia de uma ressaca vindoura: «vamos ao Brasil!» – atestam com firmeza excursionista os portugueses, visionários de boa ventura além fronteiras, cujo mundo futebolístico é para eles um oráculo denominador, comum universal, do resto das suas vidas. Disse no último artigo que o povo português tem o vício de si já indissociável de transformar matérias de Estado em questões de lazer e questões de mero lazer em matérias de Estado, e, sem margem para qualquer relutância analítica, provamo-lo todos os dias.

É assim, prioridades à parte, que conduzimos Portugal: enquanto uma violenta e fervorosa comunidade futebolística que, passiva e reactiva no sofá, se entrega de bandeja à emotividade de uma modalidade desportiva, orlada por vectores comunicacionais que mais não fazem que exacerbar anacronismos significantes e outras significâncias insignificantes. Colados ao assento, somos condenados a assistir. Tornados por excelência espectadores totais, impávidos assistimos também, por inerência de inacção e amorfismo herdados, ao jogo da vida, ao jogo da política, ao jogo económico e financeiro, enfim: festejamos os golos dos outros, celebramos as vitórias alheias, gritando a plenos pulmões: «vamos ao Brasil!». No fundo, se pararmos para pensar, todos nós sabemos que não, não vamos efectivamente ao Brasil – eles irão por nós, qual mediação colectiva de laivos parlamentares: vinte e três jogadores irão por nós ao Brasil, ao tão ansiado e intensamente desejado Brasil 2014, para nos representarem como se de uma assembleia parlamentar se tratasse: «estamos aqui em nome do povo português», costumam afirmar eles. O tão cobiçado bilhete de ida para tal destino tantas vezes sonhado foi conseguido – uma espécie de ilha para a qual nos prometeram enviar. De facto, tal como Lincoln Six-Echo, o povo português acredita que a idílica ilha do futebol é o último território inconspurcado do planeta, zona deserta de infelicidade na qual se espraiam risos e punhos erguidos, heróis patrulham o real e ídolos cavalgam sensações imperiais dignas de emulação «prêt-à-porter».

A glória é onde a urbe quer estar. A glória, sabem lá bem que isso seja, é longe das suas vidas: aprendemos que a vitória está onde nós não estamos e que a fuga é o dourado bilhete de ida para se lá chegar. Imitando comportamentos, copiando trejeitos, repetindo frases feitas e regurgitadas, anuindo a discursos inócuos e adorando os deuses olímpicos de um panteão que, sobre nós, dispara os pingos de ilusão aos quais o povo se agarra religiosamente, como se da sua única realidade se tratasse. Como qualquer alheamento induzido, esta ilusão que se vive é simplesmente uma permanente e latente desilusão – vivendo dissonantes da sua própria felicidade, as pessoas fogem de si mesmas, perseguindo um vazio seu que é dos outros, dos tais restritos e «abençoados» ídolos, jogadores da bola. Pelo caminho do sonho que lhes venderam, esquecem o civismo, o intelecto, a cultura, a sanidade da sua sociedade, os princípios, o dever político, a educação, e a auto-estima. Cegados pela composição perniciosa da nossa decadente cultura, vivemos como Lincoln Six-Echo e Jordan Two Delta, ilusoriamente expectando, fomentando o desenlace do sonho que um dia há-de chegar até nós, ou nós até ele, num desembarque de arquipélagos labirínticos de boas-vindas. «Vamos ao Brasil!», gritamos, assim que a lotaria nos premeia a estoicidade da crença. «Vamos ao Brasil!», festejamos, personificando a nossa vida nos outros, sem nos apercebermos que de nós fugimos a sete pés, amedrontados com o real mundo que nos espera e que de nós espera, ele sim, uma resposta concreta e conjunta.

Não há ilha. Não há, também, ida ao Brasil: essa é uma realidade eventual para apenas duas ou três dezenas de profissionais de futebol que por lá pernoitarão uns quantos dias, jogando três ou quatro partidas para depois retornarem às suas casas, em Madrid, Manchester, Monaco ou o que seja. Para o Portugal miserável, aquele Portugal que subsiste apesar da bola e que dela nada pode tirar de proveitoso, apenas há pobreza galopante, desemprego crónico, desgoverno planeado, justiça morosa e Estado Social em estado de coma, rumo à morte. Paremos de viver a sumptuosidade onírica dos outros e acordemos para a nossa própria vida enquanto seres cívicos de um colectivo social precisado da nossa energia – Portugal ganhou no campo mas está feito um país de perdedores natos, gente insegura, carente, inábil e medrosa. E isso, nenhum golo remenda. Portugueses, escutem: há vitórias mais importantes a conquistar. Deixemos de ser o sujeito passivo da fruição dos outros e reconstruamos nós, pedra sobre pedra, o país que aos poucos o deixa de ser.

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Bruno Cardoso desenhoBruno Falcão Cardoso

* O autor opta por escrever em desacordo com o Novo Acordo Ortográfico e em respeito para com a Língua Portuguesa.

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