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Os confetti despenharam-se em queda livre sobre a laca, em sentido contrário, evolando-se dos cabelos impávidos, as purpurinas explodiram em todas as direcções, não fazendo reféns por entre as centelhas de plástico fuzilando a atmosfera do salão, e sobre tudo isto, a orquestra — ou uma sua imortalização, tão acrílica quanto as misses — resfolegando numa cavalgada exangue que, sintomaticamente, era bem à imagem das suas concorrentes, de pulso difícil de tomar sob as dermes de botox e pó de base, do rosto agrafado ao molde de que alguém se esqueceu de as libertar, e de coração difícil de auscultar, ou talvez até já sem bater, espartilhado por provas sem qualquer racionalidade ou praticidade, dietas herdeiras de ideais photoshoppescos e critérios de duvidoso interesse.

A Miss Universo parece-me anacronismo, resquício de um mundo de vistas curtas, fronteiras distantes e um punhado de potências em busca de tudo aquilo capaz de se fazer cavalo de corrida para permitir uma boa competição entre elas. Pena é que se tenha pedido às mulheres para o serem, e que elas se tenham deixado convencer. Interlúdio e prova de crime: desde 1996, o concurso é detido pelo multimilionário Donald Trump, e isso deve bastar para que se prove o argumento. Mas não nos demoremos muito nisso, porque, como já terá o inteligente leitor ou a perspicaz leitora adivinhado, não são as misses que me importam, até porque as mulheres com quem me relaciono no dia-a-dia, e tantas outras com quem me cruzo nas ruas de Lisboa, são de beleza superior, bem mais honesta e atraente, e também de infinito maior interesse intelectual, beleza que no concurso das misses não se afere, apenas se finge, e isso torna-me o concurso banalidade sem porquê. As misses são mulheres bonitas, é certo — só faltaria! –, mas não só não há remoto vestígio de direito legislatório que permita intitular o evento de universal — universais não são as candidatas nem universal é o sufrágio que as elege –, mas não me parece que seja sequer necessário recorrer ao universo — lugar de costas largas — para pôr em xeque a mostra: a beleza é grandemente conjuntural, pelo que não é aceitável que se escolha quem quer que seja como a mulher mais bonita do mundo, ou como se tal não bastasse, do universo. Passado o prólogo, chegamos então ao que verdadeiramente me traz aqui: a demanda de modelos e o mais do que frequente inevitável crepúsculo a que estão, e bem, votados.

Vivemos sedentos de modelos, de bons exemplos. Queremos heróis. E vilões contra quem nos animarmos. Só compreendemos as coisas assim: vencedores e vencidos, aliados e inimigos. Mortais. Os melhores e os piores. Queremos, sobretudo, acreditar que os heróis nascem heróis; evita-nos isso a procura da própria superação. Queremos também acreditar que os heróis são sempre heróis, como se o real fosse produção hollywoodesca de noventa minutos onde tudo se passa e nada acontece. E por isso, inevitavelmente, desiludimo-nos. E merecemo-lo. Era já suposto que soubéssemos que não precisamos de exemplos, a não ser que estejamos de má-fé. Os heróis, a existirem, são feitos por si mesmos. Como os não-heróis, como todos nós e os vilões. Os indivíduos são o produto das suas acções, estão na confluência das suas escolhas livres.

Importa não ter modelos, ídolos, heróis. Mas mais do que isso, importará não os mercantilizar. Como o existencialismo também advoga, é preciso separar o nosso ser do nosso ter, porque não somos a súmula do que possuímos, dos nossos rendimentos ou das nossas distinções. Somos a tomada das decisões que tomamos, aquilo que na nossa liberdade convertemos em acção. Mais tarde ou mais cedo, os heróis desiludem sempre, falham sempre, morrem sempre. São feitos do mesmo que nós, dos mesmos defeitos e virtudes. É essa a nocividade dos ídolos, a arrogância da crença, a impossível imaculação. E pior: a monetarização dos heróis. Os heróis vendem, e a venda gera procura, gera a vertigem da escassez e, bem assim, despenha os indivíduos na espiral da necessidade. A necessidade de dar corpo ao modelo, de o perpetuar, na miopia da compreensão incapaz de compreender que o modelo não tem futuro, mas o seu contrário, que o arquétipo é arqui-inimigo do indivíduo livre, capaz de se imaginar e recriar. Prova de tudo isto, inevitável e caricaturalmente, são as misses, pois que elas não produzem nada. As misses não fazem; apenas são. Mas nem sequer são; apenas têm. Têm somente a aparência de ser, têm a nomeação que obscuramente alguém lhes deu, têm um corpo de produto mormente plastificado, o verniz reluzente, abrilhantador, de quem acaba de deixar uma linha de montagem, e uma delas terá, no final, uma faixa à volta do corpo, espécie de sofisticada embalagem que a faz entrar na prateleira do supermercado humano, que a expõe não como gente mas como o mesmo apelo consumista e fatalmente sexual que enverga um Lamborghini num stand, um vestido decotado nos cabides de qualquer loja.

Que haja admiração por alguém, eu compreendo; é humano, natural. Eu admiro muita gente, mas se há elogio que lhes posso fazer, é o de não os comparar a ninguém e considerá-los apenas no absoluto das suas acções, considerá-los indivíduos e não lhes prestar um culto, uma devoção religiosa, olhando apenas às fronteiras que a pele lhes traça ao ser. Por outras palavras, não há problema nenhum no Lamborghini, e muito menos no vestido decotado, desde que não se queira meramente ser o carro ou vestido. Ou pior: uma Miss.

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Hugo desenho 4sc2

Hugo Picado de Almeida

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