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Imagine-se a caminhar tranquilamente pelas ruas da sua cidade. Enquanto olha de revés para aquilo que se passa em seu redor, suponha o estimado leitor que no enquadramento do ambiente envolvente vislumbra ao longe um indivíduo a ser algemado por três agentes da autoridade fardados e que, contra todos os padrões de normalidade, resolve naquele momento interceder em defesa daquele rapaz. Dirige-se em passo de corrida ao local com o intuito de libertar o jovem e no calor de tanto nervosismo acaba por distribuir palmadas e empurrões aos polícias ali presentes. Tente agora terminar a história: o que lhe aconteceria?

O desfecho é óbvio. Depois de tal afronta, o caro leitor seria de imediato imobilizado e levado para a esquadra mais próxima sob a acusação mínima de desrespeito à autoridade. Nas confortáveis instalações da PSP, seu lar durante aquela noite, seria provavelmente alvo de um castigo acessório em forma de cassetete e lista telefónica, antes de ser colocado diante de um juiz no dia seguinte. A pena poderia variar entre uma estadia na prisão, umas dezenas de horas de trabalho comunitário ou uma multa de algumas centenas de euros, e perante tamanhas consequências o leitor estaria pronto para jurar a pés juntos nunca mais proceder daquela forma. Mas Jesus não.

Já me diziam em criança que Jesus nada teme, que Jesus é poderoso e está no céu. Passados uns bons anos percebi que cá pela terra também existe um Jesus muito semelhante com o nome de Jorge, um Jesus grande e impune que tudo pode entre os seus pares. Um Jesus superior que está acima da lei dos homens e que jamais é castigado; apenas castiga. Um Jesus que agride a polícia diante dos olhos de milhões de portugueses e que apenas tem como consequência quatro jogos de descanso e uma multa equivalente a menos de 2% do seu rendimento mensal que ainda assim será paga por terceiros.

Se a justiça divina não existe, a dos homens muito menos. O leitor não cometeria tal erro por conhecer de antemão as consequências que dele poderiam advir, e nem precisa de passar pela experiência para o saber. Jesus também tem a noção do certo e do errado, mas faz questão de usufruir da sua impunidade pública para pisar consequentemente o risco: é treinador mas desfila durante os jogos ao longo da linha lateral do relvado como se fosse um extremo, dá socos em jogadores da equipa adversária e consegue que o agredido seja o único castigado, põe em causa a autoridade da polícia através do recurso deliberado à violência e é encaminhado para umas férias sabáticas. O Jorge não tem um carro amarelo mas vem da luz para nos trazer a salvação e nós aplaudimos a sua chegada: abram alas para o nosso Jesus.

Diogo Tabordadiogo-taborda-desenho-e1360007654750

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